Crítica | Sai de Baixo – O Filme

“Cala a boca, Magda.”

Como transportar televisão para cinema? O transporte cinematográfico da série de comédia Sai de Baixo, sucesso dos anos 90 e dos primórdios dos anos 2000, e que, atualmente, continua sendo visto por meio das reprises semanais na TV Globo, seria a primeira missão a ser enfrentada por quem quer que estivesse com o projeto nas mãos. Chris D’Amato, no entanto, promove uma estranheza imediata ao olhar do espectador, por recusar qualquer similaridade com o teatro filmado, justamente a forma como Sai de Baixo era gravado. Nem mesmo os sons dos risos continuam. E no cinema, chegamos a rir? Será que a cineasta, em contrapartida a esse rejeito, consegue sustentar essa mudanças de rumo a características supostamente centrais ao seriado?

Uma das graças do programa original partia da improvisação do ótimo elenco. Isso continua – maquiado e minimizado pelo formato cinematográfico -, mas, a exemplo, risos são percebidos entre as piadas. Os artistas, contudo, não conseguem transmitir o senso de entretenimento despojado novamente, por conta de uma abordagem estética de D’Amato que é extremamente prejudicial ao senso de espaço no longa-metragem. A culpa não é de Marisa Orth, excelente no retorno ao seu papel de Magda, muito menos de Miguel Falabella, ainda melhor e mais à vontade. Os atores continuam sendo o motor para os melhores momentos do seriado, agora cinema. Mas, como cinema em si, são sabotados por uma direção claustrofóbica e insensível, esquizofrênica até.

Em consequência a isso, torna-se imensamente irônico os planos não possuírem capacidade para comportar todos esses atores e personagens. E não possuem mesmo, pois a cineasta opta majoritariamente por planos fechados, sem sugerir ambientação, muito menos uma comunicação entre os personagens que funcionasse sem uma montagem picotadíssima. Talvez por querer se distanciar ainda mais do teatro, D’Amato entendeu ser importante tornar aparente a edição do longa-metragem, processo essencialmente cinematográfico, com cortes rápidos e curtos planos gratuitos unificados. Algumas composições visuais, aliás, são tão feias que personagens saem e entram do quadro em seus limites. Antes de chegar a qualquer personalidade, eis um amadorismo.

Uma perdição na direção que consegue se equiparar apenas com o roteiro de Falabella, muito mais problemático em sua estrutura, uma confusão sem-graça, do que nas punch-lines, ora funcionais. A metalinguagem, principalmente em relação à participação de Aracy Balabanian, que é, ao meu ver, o grande destaque do elenco, mesmo com poucas cenas, funciona também. Falabella, com isso, contorna com maestria os problemas de pré-produção envolvendo a atriz. Já no caso de Luis Gustavo, o artista só consegue mesmo é fomentar um cameo bastante descolado da narrativa. O competente artista que Miguel Falabella é poderia muito bem ter envolvido o ator – e um dos criadores do seriado, junto a Daniel Filho – em uma cena bastante superior à resultante.

Curiosamente, o começo de Sai de Baixo – O Filme trazia uma visão subjetiva de um pássaro que viria a ser única em comparação a maior parte das passagens posteriores. Essa, sem sentido algum, era engraçada por conta do absurdismo. O surrealismo torna-se o roteiro em si, no entanto, sem muita inventividade, porque os maiores absurdos e coragens que Falabella assume é colocar dois atores homens, Tom Cavalcante e Lúcio Mauro Filho, para interpretarem também as gêmeas de seus personagens. Sai de Baixo assume o politicamente incorreto para zombar dos seus personagens, como uma auto-crítica, mas precisava mesmo repetir a mesma fórmula duas vezes? Para piorar, isso é mediante um texto que não consegue justificar a presença dessa tia de Ribamar.

E voltamos ao Largo do Arouche. Voltamos a esses personagens que não poderiam ser vividos por outros atores, pois esses conseguem se divertir e trazer entretenimento ao público, mesmo na presença de texto e direção ruins. Tão destrambelhado o longa que Ribamar se mete em um arco próprio, jogado em meio a mais uma premissa envolvendo trambicagem. Já ótimas adições, como a do excelente Mauro Filho, concluem o conjunto com chave de ouro – ouro falsificado, é claro, como não podia não ser na presença de Caco Antibes. Sai de Baixo não sai de uma qualidade questionável, não consegue expressar suas intenções mais críticas aos personagens – cheios de equívocos em suas personalidades – de um modo coeso, mas pode ser baixo o suficiente a você.

Sai de Baixo – O Filme – Brasil, 2019
Direção: Cris D’Amato
Roteiro: Miguel Falabella
Elenco: Miguel Falabella, Marisa Orth, Aracy Balabanian, Luis Gustavo, Tom Cavalcante, Rafael Canedo, Cacau Protásio, Lúcio Mauro Filho
Duração: 80 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.