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Crítica | Salaam Bombay!

por Davi Lima
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Bombay

Entre tantas histórias em Bombaim, oficialmente chamada de Mumbai, em primeiro lugar é preciso apreciar a capacidade da diretora Mira Nair de contar sua história de maneira tão econômica, e ao mesmo tempo, contar tanta coisa. Porque é nesse espectro de anseio de captar a realidade, no íntimo realismo, que tanto os personagens como o retrato de uma das importantes cidades da Índia se misturam. Na diversidade trágica e na objetividade, o realismo vai se complementando para o drama, não ao contrário. 

A diretora deixa bem claro que seu longa-metragem é uma dedicatória às crianças de rua de Bombaim, algo que se faz representativo do que é todo o filme com os personagens mirins nas ruas, mostrando o cotidiano de trabalho infantil e companheirismo de garotos sobrevivendo. Não necessariamente as imagens gravadas efetivam sofrimento, muito menos noção de romantismo, e sim a vida de crianças de rua dentro de uma narrativa familiar nas relações dos personagens, desfacelando progressivamente essa mesmas relações por problemas sociais inerentes ao contexto da cidade que observa a prostituição de mulheres e venda de heroína. Torna-se até irônico nessa descrição como pode ser um filme em dedicatória às crianças quando ele se faz introduzido por ser essencialmente impedido de alcançar felicidade no seu retrato social. Porém, não há ironia quando o dedicado se torna coerente por Mira Nair exercitar um caráter documental mais implícito para tornar sua narrativa ficcional uma denúncia, que nunca se expõe como tal, apenas a compete tornar o drama de seu protagonista o mais realista possível na medida em que se pode capturar o espaço social, físico e cultural de Bombaim.

Num olhar bem atento é possível observar a maneira como a diretora permite que na montagem se use os chamados B rolls, cenas de passagem e de suspiro para voltar à trama de pessoas na janelas, de gravações que mostram Bombaim por um tempo com uso muito preciso de planos abertos e plongées, aquela câmera que acentua um ângulo visto de cima, que não apenas dimensiona o campo narrativo – que é a própria cidade em que os personagens estão conectados aos dramas – como representa a faceta da cidade em si, mostrando manifestações religiosas, organização urbana e a precisão de um realismo que não vira documental, mantendo-se no campo dramático. Isso é significativo numa espécie de economia narrativa junto a uma unidade de ideias, tendo em vista que a história do filme apresenta várias subtramas. Nessa divisão e passagem da história entre os núcleos de personagens, o uso dos B rolls acaba se transformando na própria espacialização cinematográfica no quesito funcional, embora nas transições soe ainda como B rolls.

Se não bastasse esse trabalho geográfico, há um engajamento disso fortemente com o protagonista Krishna. Sua trama familiar e sua conclusão sacrificial, como o Jesus crucificado desenhado na parede em uma das últimas cenas do filme, valem todo o processo aparentemente sem ritmo explícito na progressão do filme. Com uma edição seca e de muita antítese dramática, além de equiparar as cenas de transição como relevância para a trama, há uma experiência de objetividade simultânea a um acréscimo dramático pelas passagens de tempo. Por isso que especificamente o último plano, com efeito de zoom da fotografia, suspira em tristeza em sua última cena, carregando todo o peso impulsionado por esse planejamento narrativo da montagem de Mira Nair, nem calculado nem aleatório, mas um equilíbrio de projetar no filme um realismo que acumulasse dramaticidade, não apelasse à trágica e reverberante tragicidade das crianças como definições da virada do roteiro, e sim fosse mais um passo de imersão do retrato de Bombaim e a urbanidade reflexiva com vidas humanas em baixo grau de vida. São tantas histórias, mas uma a uma vão se finalizando como um checklist, mas nunca esquecendo as posições familiares em que cada personagem se coloca, num mesmo tratamento preciso da geografia de Bombaim.

Quando desde a primeira cena parecia ser uma aventura do circo indiano, em que um garoto comprando uma bebida para seu chefe traria a entretida trilha sonora para sua aventura, a diretora Mira Nair determina que cada plano gravado, ou apenas um, é a força emocional precisa para transpor a realidade, dramatizar e contar uma história. Por isso, ao longo do filme, mais do que formar uma experiência paulatina, é um retrato social documental numa dinâmica ficcional.

Assim, entre tantos silêncios de olhares causados pela fotografia envolvendo a subtrama de uma virgem que não fala hindu, o protagonista entregador de chá e uma mãe prostituta, não há romantismo. Se um viciado em heroína tem seu túmulo nas ruas, a fuga do protagonista que queria provar sua verdade para a mãe enfatiza mais ainda que a geografia de Bombaim é o próprio aprisionamento. Não há como fugir, Bombaim o come vivo e não há mais ninguém. Essa é a triste realidade que poucos estímulos cinematográficos, em ambiguidade, podem evidenciar, então Mira Nair permite que a alta passividade do cinema seja o guia dedicado a encontrar as crianças com quem o filme tanto se importa, e o espectador também deveria se importar pelo alto grau de verossimilhança.

Salaam Bombay! (Salaam Bombay!) – Índia, 1988
Direção: Mira Nair
Roteiro: Sooni Taraporevala
Elenco: Shafiq Syed, Hansa Vithal, Chanda Sharma, Raghuvir Yadav, Anita Kanwar, Nana Patekar
Duração: 113 minutos

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