Crítica | Samurai, de Shusaku Endo

Normalmente, quando ouvimos falar de samurai, logo imaginamos tanto aqueles guerreiros japoneses paramentados com armaduras elegantes ou aqueles com quimonos mais simples e humildes, mas todos com algumas características em comum: a exímia habilidade com a espada e a honra inabalável que segue o Bushido. Sem muito esforço, lembramos dos imbatíveis filmes de Akira Kurosawa, da maravilhosa cinessérie Zatoichi, da Trilogia Samurai, de obras mais recentes como O Último Samurai, animações distópicas como Samurai Jack e, claro, mangás como Lobo Solitário e Vagabond e HQs como a graphic novel Ronin, de Frank Miller, além de icônicos personagens cuja criação se deveu muito à influência desses guerreiros nipônicos como Darth Vader.

A popularidade do samurai na cultura oriental e na ocidental é, portanto, enorme, mas normalmente aliada à essa visão heroica, mítica mesmo dessas figuras lendárias de uma era que não volta mais. E é por isso – mas não só por isso – que o singelamente intitulado Samurai, de Shusaku Endo, é uma obra tão sensacional. Sem fanfarra e sem invencionices, o grande autor japonês retrata um outro tipo de samurai, um que certamente desmontaria a imagem que muitos têm dessa figura e que seria pouquíssimo atraente em uma obra cinematográfica ou de quadrinhos. Aqui, o samurai é extremamente humano e muito, mas muito distante de um homem valente capaz de derrotar seus inimigos com um instantâneo desembainhar de espadas.

E o melhor é que esse olhar íntimo para o que talvez possa ser classificado como o “verdadeiro” samurai tem fortes bases históricas, já que Endo ficcionaliza a missão diplomática de Hasekura Rokuemon Tsunenaga do Japão até o Vaticano, passando pela Nova Espanha (México) e Espanha, entre os anos de 1613 e 1620. Poucos detalhes sobreviveram à inclemência dos anos sobre a odisseia desse grupo, batizada depois de Embaixada Keichō, mas a profunda pesquisa do autor resultou em um absolutamente fascinante romance que desconstrói o samurai de lenda e, de tabela, todo o Japão feudal e a Igreja Católica, em uma leitura que, como os melhores vinhos, pode e deve ser pareada com Silêncio, também de Endo e também baseado em fatos históricos, mas em um período duas décadas depois.

O samurai do título nunca viu uma batalha, é o chefe de um clã empobrecido que vive na penúria em uma terra pantanosa no interior do Japão. Por sua baixa patente e por ser literalmente descartável, Hasekura é um dos escolhidos para servir de “legitimador” da expedição comercial montada sob os ambiciosos auspícios do padre espanhol Velasco que, acima de tudo, deseja catequizar o arquipélago do Pacífico onde vive e, de quebra, tornar-se bispo do Japão. Aqui, a contextualização é necessária: os portugueses e espanhóis, nessa época, já estavam presente no país remoto há algum tempo como missionários, com um hesitante sucesso na conversão de japoneses para o cristianismo. Quando o romance começa, a resistência dos senhores feudais contra essa “invasão” já havia ceifado a vida de vários missionários e Velasco vê na expedição uma oportunidade para seduzir os japoneses com a promessa de comércio com o Ocidente em troca da permissão para a Igreja Católica continuar, sem impedimentos, seu trabalho de conversão. É primordialmente nesse aspecto que Samurai é um prelúdio de Silêncio.

A imagem romântica do xogunato é demolida logo de início por Endo e isso pode afastar muitos leitores que talvez tenham lido o épico Xogum, de James Clavell. Mas perseverar é preciso, pois a narrativa de Endo é intimista, dura, realista e, curiosamente, bipartite. Sob muitos aspectos, seria possível afirmar que Hasekura nem mesmo é o protagonista da história, já que o padre Velasco tem constantemente mais destaque por falar tanto japonês como espanhol (sua presença ali é justificada politicamente como um intérprete) e, claro, por conhecer o mundo, algo que os samurais “bichos do mato” que pontilham a narrativa (são três além de Hasekura) jamais haviam sequer saído de suas próprias terras.

Além disso, enquanto Endo mantém toda a narrativa relacionada com Hasekura em terceira pessoa, distanciando o leitor do personagem naturalmente, o que mantém sua aura enigmática e torturada, o autor emprega a primeira pessoa no caso de Velasco, colocando-nos diretamente na mente maquinadora do missionário espanhol. Outro elemento que contribui para deixar o padre nos holofotes é a curiosa criação de Endo, que se converteu ao cristianismo aos 11 anos sem entender muito bem o que estava acontecendo, mas, depois, abraçando a religião estrangeira. Com isso, ele empresta uma perspectiva única que consegue manter-se criticamente equidistante da politicagem do xogunato da época e da invasão católica.

Endo não enrola em sua narrativa e, por vezes, parece até correr demais. Esse é o caso da jornada por terra na Nova Espanha que é rápida demais, quebrando um pouco do fascínio inicial estabelecido pelo choque cultural que é a chegada de japoneses no Novo Mundo. O maravilhamento por parte dos samurais se dá apenas em relação a um deles, o mais novo, que faz todo o esforço possível para absorver conhecimento. Os demais, porém, se fecham como conchas, o que também os cega para o trabalho insidioso de Velasco. E o mesmo ritmo acelerado é impresso quando a expedição chega na Europa, com o autor perdendo a oportunidade de ouro de retratar com calma momentos antológicos como os samurais, que viviam em cabanas de palha e terra batida no meio do nada com coisa nenhuma entrando nas imensas catedrais espanholas, quase que literalmente “viajando para o futuro”, algo que, ironicamente, é a sensação de qualquer Ocidental que tem a oportunidade de conhecer a mais do que futurista Tóquio.

Samurai é uma obra de rara concisão que lida com a fé e a política em um momento e local históricos que é pouquíssimo conhecido de verdade. Sem pretensões de ser um tratado histórico, Shusaku Endo captura o leitor que souber deixar em xeque suas expectativas sobre o que é um samurai com uma narrativa íntima e profunda que estuda o lugar do ser humano em um mundo em expansão. Quando a última página for virada, o que fica é a curiosidade aguçada por esse fantástico recorte de um pequeno, mas importante momento da História.

Samurai (The Samurai, Japão – 1980)
Autor: Shūsaku Endō
Publicação no Brasil: Tusquets Editores, 13 de outubro de 2017
Tradução (da versão americana): Mário Vilela
Tradução para o inglês (diretamente do japonês): Van C. Gessel, em 1982
Versão lida para a presente crítica: Van C. Gessel, em inglês, publicado pela New Directions
Páginas: 352

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.