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Crítica | Samurai X – O Filme

por Lucas Borba
520 views (a partir de agosto de 2020)

estrelas 3,5

Adaptar obras literárias para as telonas é um eterno conflito entre linguagens, o próprio audiovisual, mesmo no âmbito da ficção, possui gêneros narrativos distintos que, ao dialogar para contar uma mesma história, podem resultar em verdadeiro desastre, pelo menos para uma das partes. Harmonia de linguagens, porém, é o que predomina em Samurai X – O Filme, que adapta não apenas a série de mangás de Nobuhiro Watsuki para o cinema, como também dialoga em ótima diplomacia com o anime dirigido pelo próprio autor.

O longa, com direção de Keishi Tomo, resgata o princípio das aventuras de Kenshin Himura (Takeru Satô), que até o fim do xogunato era conhecido como “Battousai, o retalhador”, mas que após o conflito se arrepende de seus atos e passa a viver como andarilho. O espadachim conhece a jovem Kaoru Kamiya (Emi Takei), que mantém sozinha uma escola de kendo, fundada por seu falecido pai e prestes a fechar por falta de alunos. Kenshin logo descobre que a carência de estudantes se deve a um assassino misterioso, atuando sob o nome de Battousai, que elimina seus alvos com o estilo ensinado pela moça. O andarilho acaba se envolvendo ainda mais com Kaoru e, consequentemente, tem de enfrentar um inimigo incerto e, sobretudo, o próprio passado.

Apesar da popularidade dos mangás e especialmente do anime, não se trata de uma adaptação com padrões comerciais, pois busca retratar a narrativa – cheia de subentendidos e de certa infantilização no comportamento dos personagens em uma atmosfera nada infantil – que vemos na obra original. Ora, falamos aqui da transposição dessa história para uma linguagem que preza pelo mais real e o menos caricato possível, inclusive a partir do que é mais inverossímil. Mesmo para quem nunca interagiu diretamente com os mangás ou o anime, porém, a fidelidade com que as primeiras aventuras de Kenshin e seus amigos foram aproximadas do que podemos entender como realidade deve chamar a atenção pelo engenho de alguns de seus personagens, em virtude de certos requintes de tratamento à situações de um desenrolar que, por si só, não passaria do previsível – salve os flashbacks do protagonista e a própria intensidade da luta final – e, é claro, por seus elogiados detalhes técnicos (cenários, trabalho de trilha, figurinos).

Satô cai como uma luva no papel de protagonista, incorporando brilhantemente o típico ingênuo desajeitado, para não dizer pateta, que, em um piscar de olhos, se transforma em um guerreiro seguro de si, altivo e, apesar do cavaleirismo, até ameaçador quando provocado. Sem falar, naturalmente, nas belas coreografias de lutas de espada – descontando-se eventuais exageros em nome do fantástico. São tais aspectos que mostram não apenas a preocupação em agradar os fãs da obra original, mas que impõem a releitura de um universo digno de ser recontado. O roteiro, contudo, tem suas falhas – Sanosuke (Munetaka Aoki), por exemplo, apesar da ótima presença de Aoki, poderia ter sido melhor inserido na trama – ponto que ainda assim não traz prejuízos gritantes à adaptação.

Adeptos do anime dublado também devem se sentir agraciados: quase todas as vozes imortalizadas no Brasil estão no longa, associadas aos seus respectivos personagens no anime e a do herói é uma delas. Outro ponto positivo é que a conclusão do longa, fiel à primeira fase da história original, não exige uma sequência – ou seja, o filme fala por si só, ainda que a terceira parte da anunciada trilogia tenha estreado no Japão em setembro.

Samurai X, portanto, permanece em nosso imaginário como uma bem-sucedida adaptação, sabendo mesclar as linguagens do cinema, mangá e anime em um produto audiovisual merecedor de nossa atenção. Fãs e não-fãs da obra de Nobuhiro Watsuki não irão se decepcionar, apesar de alguns deslizes pontuais.

Samurai X – O Filme (Rurôni Kenshin: Meiji kenkaku roman tan – Japão, 2012)
Direção:
 Keishi Ohtomo
Roteiro: Kiyomi Fujii, Keishi Ohtomo
Elenco: Takeru Satô, Emi Takei, Yû Aoi, Teruyuki Kagawa, Yôsuke Eguchi, Munetaka Aoki, Taketo Tanaka
Duração: 134 min.

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18 comentários

joão 24 de dezembro de 2014 - 21:53

Achei uma boa adaptação e a continuação (Kyoto inferno) ficou legal também. O meu único problema com o filme é o tratamento que deram ao personagem Sanosuke. Deviam explorar o passado dele que é bem interessante. Mas tirando isso, achei o filme muito bom!!

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Lucas Borba 26 de dezembro de 2014 - 22:26

Quanto ao Sanosuke, realmente, mencionei mesmo na crítica a falha do roteiro em como introduzi-lo na adaptação. O envolvimento dele na trama é apressado, o entrosamento dele com os personagens principais mau desenvolvido, sua identidade mau construída. Acredito que o problema entre bem na linha do que um dos nossos leitores apontou: se o filme contasse com uns minutos a mais, decerto não teríamos esse sufoco do Sano entre tantos personagens. Continuem discutindo conosco, sempre!

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Guest 24 de dezembro de 2014 - 21:50

Boa adaptação e a continuação (Kyoto inferno) ficou legal também.

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Lucas Borba 1 de janeiro de 2015 - 11:15

Sim, já temos a crítica do segundo filme aqui no site, também. Confira lá e discuta conosco: https://www.planocritico.com/critica-samurai-x-o-inferno-de-kyoto/

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jcesarfe 19 de dezembro de 2014 - 12:09

Uma das melhores adaptações que vi, bem envolvente e com atuações fantásticas, eu assisti imaginando uma tentativa esdrúxula de agradar os saudosistas, mas me surpreendi. A parte técnica, como figurino, efeitos sonoros e ambientação é sensacional.

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Ricardo Custodio 18 de dezembro de 2014 - 19:41

Fiquei muito satisfeito ao ver a crítica do filme, estava aguardando e já havia sugerido.
Não concordo com 3.5 mas como fã sou suspeito.
Fui e sou entusiasta dos filmes entre meus amigos recomendando que vissem a Trilogia.
Fui surpreendido pelo ótimo filme apesar de suas caricaturas e enredo raso.
Concordo em gênero, número e grau com relação ao Satô mas não acredito que seja somente pela semelhança física, suas interpretação para este papel foi brilhante.
As coreografias das lutas foram realmente ótimas em especial a luta final, no geral um ótimo filme.

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Wagner Pires 18 de dezembro de 2014 - 18:37

cara, juro que fiquei muito preocupado quando soube que ia sair esse filme ( culpe DB: Evolution!), mas me arrisquei e não me arrependi nem um pouco! muito bom mesmo!

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Alessandro Dias 18 de dezembro de 2014 - 17:04

Sou um “filho” do famoso anime, e me surpreendi com a qualidade dessa adaptação, um filme muito bom mesmo! Já assisti o segundo filme, e também fiquei bastante satisfeito. Parabéns pelo texto!

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James Soares 20 de dezembro de 2014 - 19:57

O segundo filme já saiu?

A qualidade como tá?

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Alessandro Dias 21 de dezembro de 2014 - 14:05

Pelo que soube, o segundo e o terceiro filme foram lançados praticamente juntos no cinema de lá. Saiu em DVD agora em dezembro o segundo filme, por isso já consegui assistir pelos torrents da vida. O terceiro filme em DVD tem previsão p/ final de janeiro. A qualidade dos cenários, figurinos e lutas se manteve, assim como o elenco.

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planocritico 30 de dezembro de 2014 - 03:01

@alessandro_dias:disqus, acabamos de publicar a crítica do segundo, bem aqui: https://www.planocritico.com/critica-samurai-x-o-inferno-de-kyoto/

Abs, Ritter.

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Lucas Borba 22 de dezembro de 2014 - 14:36

Pois bem, caro James, a crítica do segundo filme sai ainda no fim da semana. Fique de olho.

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James Soares 22 de dezembro de 2014 - 22:04

Obrigado pelo Feedback! O site de vocês é excelente!

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Tiago Lima 18 de dezembro de 2014 - 16:11

Para mim, é uma das melhores adaptações em live action de um mangá. Choro até hoje com o que fizeram com Dragon Ball.

E tenho até certeza expectativa pra o adaptação de Ataque aos Titans

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Leonardo Sette Pinheiro 18 de dezembro de 2014 - 15:30

Li os mangás, vi os desenhos e digo que o unico erro que vi no filme foi misturar muitas historias no filme so…. Jin-E, Opio, Sanosuke e dogo Kamya…. podia ter tirado o Opio e melhorado a historia.

Porem achei sensacional a fotografia e coreografia das lutas e sua total liberdade nas cenas com violencia.

vale a pena assistir e quem é fã e estava incrédulo quanto a execução do filme (atores e cenas de luta) assista de coração aberto porque é bom.

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Lucas Borba 20 de dezembro de 2014 - 09:39

Aqui temos a fama desta obra reafirmada com a resposta de vocês, caros leitores. Assim como a própria adaptação cinematográfica de uma história tão famosa é arriscada, falar de um título tão cotado torna a nossa responsabilidade como críticos ainda mais visível. Ainda não tive a oportunidade de assistir aos demais filmes da trilogia, mas o farei o mais brevemente que puder para, se possível, também trocar ideias com vocês aqui sobre as sequências. Mais uma vez, muito obrigado mesmo pelo retorno fundamental que nos dão. Seguimos em frente, de lâmina ao contrário em punho!

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Leonardo Sette Pinheiro 29 de dezembro de 2014 - 23:21

Asssti o filme 2, inferno de kyoto e digo que é sensacional… cenas que transcrevem exatamente cenas dos Mangás e Serie… adaptações (resumos ou cenas de continuidade) ficaram muito boas.

Nunca fiquei tão feliz com uma obra adptada tão bem executada.

Aguardando o filme 3 e espero que tenham os mesmo acertos que esse filme 2 teve.

Recomendo demais assistirem.

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planocritico 30 de dezembro de 2014 - 03:01

@leonardosettepinheiro:disqus, crítica de Inferno de Kyoto publicada! Acho que você vai gostar! Dê só uma olhada aqui: https://www.planocritico.com/critica-samurai-x-o-inferno-de-kyoto/

Abs, Ritter.

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