Crítica | Sangue de Pantera (1942)

Em 1942, o estúdio RKO se encontrava à beira da falência após o alto investimento feito nos filmes de Orson Welles, Cidadão Kane (1941) e Soberba (1942), que embora sejam considerados clássicos nos dias de hoje, foram retumbantes fracassos de bilheteria na época. Percebendo o sucesso que a Universal vinha fazendo há alguns anos com seus “filmes de monstro”, o estúdio contratou o produtor Val Lewton para que ele produzisse uma série de filmes de terror de baixo orçamento.

Tendo que trabalhar com o título já pré-determinado Sangue de Pantera (Cat People, no original) antes mesmo que existisse um roteiro ou mesmo uma ideia do que seria o filme, Lewton começou a trabalhar no projeto. Não tendo a intenção de simplesmente reproduzir o estilo de terror da Universal, presente em filmes como O Lobisomem (1941), o produtor convocou o roteirista Dewitt Bodeen e o diretor Jacques Tourneur para realizar um filme de terror mais urbano e intimista, onde o terror se originava muito mais da sugestão do que do choque. O resultado foi Sangue de Pantera, que deu início à série de filmes produzidos por Lewton para RKO.

A trama acompanha Irena Dubrovna (Simone Simon), uma jovem estilista sérvia que vive em Nova York. Depois que Irena conhece e se apaixona pelo arquiteto Oliver Reed (Kent Smith), os dois se casam, mas o matrimônio é ameaçado por uma antiga maldição que, segundo Irena, acomete as mulheres nascidas em seu povoado. A moça crê que no momento em que se excitar sexualmente ou sentir ciúme intenso, irá se transformar em uma pantera e matar o seu parceiro. Será isso fruto de alguma neurose ou realmente existe algo de sobrenatural em Irena?

Embora seja muito menos famoso do que seus contemporâneos da Universal Studios, Sangue de Pantera tem uma grande importância para o cinema de terror. Nesta produção de Val Lewton, o monstro surge não só em um ambiente construído pra ser muito próximo do público (no caso, uma grande metrópole, contrastando com as regiões isoladas e tempos distantes de outras produções da época), mas também como uma metáfora de questões muito mais intimistas do que aquelas que eram geralmente trabalhadas pelo gênero.

O filme de Tourneur coloca o sexo no centro da narrativa, ao usar a maldição de Irena como uma metáfora evidente para a repressão sexual que sua protagonista carrega. Todo o suspense e potencial terror que a obra propõe gira em torno de seus conflitos matrimoniais, da insatisfação sexual do casal protagonista, até o ciúme que Irena passa a sentir da relação cada vez mais próxima de seu marido com a colega de trabalho Alice (Jane Randolph).

O longa-metragem dirigido por Jacques Tourneur bebe direto da fonte da psicanálise e de sua iconografia, vide a estatueta de um guerreiro matando uma pantera com uma lança fálica, ou a própria figura da pantera enjaulada que tanto fascina a protagonista, para trabalhar as inibições e desejos reprimidos de sua heroína. Não é de se esperar que o roteiro insira a figura de um psiquiatra, o antiético Doutor Louis Judd (Tom Conway), com um papel fundamental na resolução do conflito. O diretor Jacques Tourneur, que entre outros trabalhos comandou o clássico noir Fuga ao Passado, constrói aqui um estilo de terror muito mais calcado no que é imaginado do que no que é de fato visto, dando o tom de todos os filmes que seriam produzidos por Lewton posteriormente.

As cenas que envolvem Alice sendo perseguida por uma ciumenta Irena na rua e posteriormente sendo encurralada em uma piscina são de uma elegância incrível, pela forma como constroem uma presença absolutamente ameaçadora utilizando apenas sombras e o desenho de som. O devido mérito também deve ser dado ao trabalho do montador Mark Robson, que cria um ritmo fílmico excelente e sugere uma ameaça sobrenatural, nunca tornando-a explícita.

É uma pena, portanto, que em seu 3º ato, por imposição do estúdio, o filme de Jacques Tourneur deixe a sutileza de lado e opte por mostrar o seu monstro, eliminando assim o fator da ambiguidade que era um dos grandes charmes do projeto. Não que a metáfora proposta pelo roteiro no que diz respeito à condição de Irena perca força, mas a exposição visual, ainda que pouca, acaba criando um contraste incômodo com o resto do filme.

Apesar desse deslize final, Sangue de Pantera continua sendo um bom terror psicológico, que influenciou diversos outros filmes que o sucederam. Com seu pequeno “filme de terror B”, Jacques Tourneur e Val Lewton não apenas salvaram a RKO da falência, como também popularizaram uma vertente do gênero mais preocupada em explorar ansiedades sociais de caráter intimista através da psique de seus personagens, do que no choque em si. Nada mal para um filme que tinha como intenção inicial pegar carona no sucesso de monstros antropomórficos.

Sangue de Pantera (Cat People) — Estados Unidos, 1942
Direção: Jacques Tourneur
Roteiro: Dewitt Bodeen
Elenco: Simone Simon, Kent Smith, Tom Conway, Jane Randolph, Jack Holt, Alan Napier, Theresa Harris, Betty Roadman, Mary Halsey, Alec Craig, Elizabeth Russell
Duração: 73 min.

RAFAEL LIMA . . . Sou Um Time Lord renegado, ex-morador de Castle Rock. Deixei a cidade após a chegada de Leland Gaunt. Passei algum tempo como biógrafo da Srta. Sidney Prescott, função que abandonei após me custar algumas regenerações. Enquanto procurava os manuscritos perdidos do Dr. John Watson, fiz o curso de boas maneiras do Dr. Hannibal Lecter, que me ensinou sobre a importância de ser gentil, e os perigos de ser rude. Com minha TARDIS, fui ao Velho Oeste jogar cartas com um Homem Sem Nome, e estive nos anos 40, onde fui convidado para o casamento da filha de Don Corleone. Ao tentar descobrir os segredos da CTU, fui internado no Asilo Arkham, onde conheci Norman Bates. Felizmente o Sr. Matt Murdock me tirou de lá. Em minhas viagens, me apaixonei pela literatura, cinema e séries de TV da Terra, o que acabou me rendendo um impulso incontrolável de expor e ouvir ideias sobre meus conteúdos favoritos.