Home FilmesCríticasCatálogos Crítica | Sangue Negro

Crítica | Sangue Negro

por Gabriel Carvalho
1209 views (a partir de agosto de 2020)

“Eu sou um falso profeta e Deus é uma superstição.”

Contém spoilers.

Na virada do século XIX para o século XX, os Estados Unidos viram suas terras até então infrutíferas tornarem-se valiosas cobiças, enquanto mais e mais petróleo era descoberto na região, agora próspera para o investimento de capital. Dos estados que mais se valiam disso, a Califórnia despontou como uma das principais produtoras do material fóssil. Não é por menos que compete a tal ser pano de fundo dessa história saída das mãos talentosíssimas de Paul Thomas Anderson, em um roteiro vagamente baseado no romance de Upton Sinclair, Petróleo!. O homem personificado do sonho americano – o velho pretexto do trabalhador ordinário em busca, simplesmente, de sustento para sua prole – sucumbe às loucuras provindas da significação deturpada de grandeza, num cenário contraditório, que não por acaso gradativamente sedimentou aos pedaços uma atualidade extremamente complexa e hipócrita. No contexto da expansão de petróleo na América, Daniel Plainview (Daniel Day Lewis) é apresentado durante 15 minutos iniciais isentos de diálogos. Dessa forma, Paul Thomas Anderson busca levar ao espectador as nuances do tratamento feito sobre o personagem de Daniel, o qual, durante o filme, se aventurará por caminhos inimagináveis, em antítese do ser vitorioso com o ser fracassado. O cansaço de I’m finished, no original, revela um ser acabado, ao passo que produz uma conclusão ambígua, a qual nos leva a visualizar com veracidade esse caráter mais insano do “homem do petróleo”.

Tendo isto em mente, a relação entre Daniel e H.W. Plainview (Dillon Freasier), menino que é adotado ainda bebê pelo protagonista em decorrência de um acidente laboral que mata seu pai, é a chave para que o espectador observe, e consequentemente entenda em sua visão particular, as diferentes camadas que envolvem o personagem de Day-Lewis. O ator assombra em todas as suas cenas, das mais caladas, em paralelo com uma expressividade tremenda, as mais prolixas, aliadas a um forte texto de Thomas Anderson. Aquele homem destemido, mas duramente fraquejado pelas suas próprias ações, é encarnado em corpo e alma. O diretor deixa o intérprete brilhar a vontade, nesse que é mais um dos esplêndidos trabalhos de ambas as carreiras, impulsionando o talento de Day-Lewis com uma direção que sabe traduzir ao público o melhor de uma interpretação. Nessa relação de pai para filho, contudo, o roteiro indicará tanto caminhos mais afetuosos, quanto caminhos mais secos, possibilitando ao espectador uma interpretação própria da condução feita pelo cineasta. O amor intrínseco esbarrará em uma aproximação por interesses: ele se preocupa tanto com os danos causados pela explosão que destrói um dos poços de petróleo, quanto com a saúde de seu filho, o qual ficou surdo após esse acidente.

No final das contas, Daniel abandonou H.W., uma atitude indiscutivelmente cruel, mas também, quando o fardo pesou, trouxe-o de volta. O que pensar do seu diálogo final com o garoto já crescido, senão como proveniente de um homem exaustivamente debilitado, preparado para estragar por definitivo os últimos resquícios de bondade que ajudou a criar? A solidão, notada inúmeras vezes quando comentado sobre a ausência de uma mãe para o garoto, também é abordada, mas intimamente, sem muitos adornos, senão a pura genialidade de um audiovisual que fala por si só.  A complexar ainda mais o personagem de Day-Lewis, o embate entre ele e o pastor Eli Sunday (Paul Dano) será a veia condutora que aproximará o espectador desta história austera, moldando pontos antagônicos, que, independente de tudo, são muito mais similares em virtudes e pecados quanto aparentam ser. Da idealização de terras propícias à exploração, o controle e popularidade da igreja dominada pelo pastor será um caminho a ser ultrapassado das mais diversas maneiras por Plainview. Concorrentes, os quais podem assumir diversas faces, são objetos de ódio pelo petroleiro, que encontrará o fundo do seu próprio poço, ironicamente, quando chegar ao ápice de sua riqueza e êxito mercadológico. Os tempos de glória nunca antes soaram tão destrutivos quanto estes; um estudo de personagem formidável.

Em outro plano, do caminho de ascensão e, paralelamente, derrocada de Daniel, muito pode ser tirado da forma áspera que Anderson aborda o batismo do homem. Como aponta Eli, tendo em vista que a inauguração do poço não fora acompanhada por uma bênção dele, maus sucessivos ocorreram ao “homem do petróleo”. O mesmo, movido por pura ganância, acaba obrigado a se render à fé no Senhor, clamando, embora contrariado, o fato de ter abandonado a sua criança. Por falar nele, Dano mostra, depois de seu ótimo trabalho em Pequena Miss Sunshine, ser um dos mais talentosos atores de sua geração, carregando todos os maneirismos do espetáculo religioso que cria, e exteriorizando, em seus últimos minutos, toda aquela angústia levada consigo de forma muito visceral. Tão humilhante e ascosa quanto a que traz Plainview maltratando o pastor, é a sequência na qual o jovem avança sobre o seu próprio pai, diante das frustrações gerados pelo negócio fechado com o petroleiro. Paul Thomas Anderson ainda introduz o personagem Henry (Kevin J. O’Connor), o qual, surpreendentemente, não é acompanhado por uma narrativa destoante da principal, fortalecendo a níveis extensos o âmbito dramático que envolve o protagonista. O final desse arco, que se encerra lá pelo segundo ato do longa, é a mudança de perspectiva no olhar do público com o, agora intensamente instável, personagem de Day-Lewis.

A ilustrar a trilha sonora tétrica de Jonny Greenwood, a fotografia de Robert Elswit encontra o balanceio correto, oscilando em busca do tom exato para levar ao longa-metragem tonalidades e cores que invoquem as sensações certas que o diretor quis exprimir com o filme, nesse diálogo que é muito bem manejado. Dos planos abertos, o inóspito deserto acaba dando lugar a belíssimas paisagens, esticadas o necessário para que não sejamos impedidos de desfrutar dessas representações de cenários não mais possíveis de serem contemplados em vida. A favor desses outros aspectos mais técnicos, a edição de som torna algumas sequências de Sangue Negro, experiências realmente intensas, como o já citado anteriormente, segmento do poço de petróleo em chamas. Entre tanto refinamento acertado, esse retrato histórico dos Estados Unidos do início do século passado é, sem sombra de dúvidas, um filme de excelência, que não se permite em momento algum deixar suavizar-se perante o prenúncio  de sangue trazido pelo título original. Mesmo com a aura pessimista e duramente aterradora que acompanha a pista de boliche da mansão de Plainview, permanecemos, embora friamente descrentes, com uma fé inexorável. Na esperança de que algum dia, não mais nos contentemos em derramar sangue nessa luta incessante por domínio.

Sangue Negro (There Will Be Blood) — EUA, 2007
Direção: 
Paul Thomas Anderson
Roteiro: 
Paul Thomas Anderson (baseado no livro de Upton Sinclair)
Elenco: 
Daniel Day-Lewis, Paul Dano, Barry Del Sherman, Ciarán Hinds, David Willis, Dillon Freasier, Kevin J. O’Connor, Russel Harvard, Hans Howes, Sydney McCallister, Colleen Foy, Jim Downey
Duração: 
158 min.

Você Também pode curtir

16 comentários

Anônimo 20 de abril de 2019 - 00:04
Responder
R. Bertini 13 de outubro de 2017 - 14:40

Quando assisti pela primeira vez, achei um filme bem parado. Mas depois da segunda, terceira, e etc, consegui perceber o quão fod# é este filme. Não me lembro de nenhuma atuação que passasse despercebida nesta obra.

Tive até que comprar o DVD (mesmo não colecionando, pois coleciono blu-rays).

Responder
Anton Chigurh 10 de outubro de 2017 - 14:04

Filmaço muito bem dirigido, com belas imagens e atuações muito boas, mas mesmo se o filme fosse ruim em sua essência, já valeria a pena somente pela atuação monstruosa do mestre na arte da imersão, Daniel Day Lewis.

Responder
Silas Leal 19 de agosto de 2018 - 18:38

E por sua culpa junto aos irmãos Coen, ele não levou também a estatueta de Melhor Filme #GuardoRancor

Responder
Elton Miranda 25 de março de 2020 - 13:03

O Unico erro desse filme foi ter saído no mesmo ano que Onde os fracos não têm vez

Responder
Helio veloso 7 de outubro de 2017 - 23:26

diogo poderiamos criar um grupo de cinefilos no whatsapp,o que acha?

Responder
Helio veloso 7 de outubro de 2017 - 23:24

o segundo melhor do pta , apenas atras de magnolia,na minha opiniao hehe.

Responder
Saulo Henrique 7 de outubro de 2017 - 17:29

Opa, tudo bom, galera? Só passando pra dizer que esse filme é foda pra caraii. E essa crítica também. Sem mas. Abraços.

Responder
Daniel Plainview 27 de fevereiro de 2017 - 18:02

Faltam adjetivos para definir esse filme. Não há o que falar também da atuação do gênio Daniel Day-Lewis, simplesmente o melhor ator de todos os tempos (as premiações falam por si só). A cena dele arratando o Paulo Dano na lama é memorável.

Responder
Daniel Plainview 27 de fevereiro de 2017 - 18:02

Faltam adjetivos para definir esse filme. Não há o que falar também da atuação do gênio Daniel Day-Lewis, simplesmente o melhor ator de todos os tempos (as premiações falam por si só). A cena dele arratando o Paulo Dano na lama é memorável.

Responder
Joly81 11 de agosto de 2016 - 09:14

Um dos maiores filmes já feitos.

Responder
Guilherme Coral 11 de agosto de 2016 - 13:19

Preciso concordar!

Responder
Joly81 11 de agosto de 2016 - 09:14

Um dos maiores filmes já feitos.

Responder
Diogo Maia 21 de fevereiro de 2016 - 21:49

Esse filme pode não ser o meu favorito do diretor (ainda fico com Magnólia) e nem o meu favorito do Daniel Day-Lewis (prefiro Meu Pé Esquerdo), mas mesmo assim é uma grande obra. Curiosamente esse longa foi gravado praticamente no mesmo lugar e ao mesmo tempo que Onde Os Fracos Não Têm Vez, inclusive a explosão durante a extração de petróleo acabou prejudicando as gravações do filme dos Coen.

Responder
Ted Drullis 16 de fevereiro de 2016 - 16:22

Nao é exagero nenhum dizer que Daniel Day-Lewis é o maior e melhor ator da historia do cinema.Trabalhos como este, gangues de nova york, meu pé esquerdo, em nome do pai sao filmes que qualquer cinefilo tem a obrigaçao de assistir.Day-Lewis é um daqueles atores em que dá gosto de ver atuar.A principio gostaria de ver mais criticas aqui no site com os filmes deste genial ator sobretudo os filmes que citei.

Abs.

Responder
Pedro Enzo 3 de outubro de 2015 - 18:02

um dos melhores filmes q ja vi

Responder

Escreva um comentário

Este site usa cookies para melhorar sua experiência. Presumimos que esteja de acordo com a prática, mas você poderá eleger não permitir esse uso. Aceito Leia Mais