Crítica | Santa Clarita Diet – 3ª Temporada

Séries de comédia não figuram costumeiramente em minha lista do que procurar para assistir, mas volta e meia eu me deparo com preciosidades. Santa Clarita Diet atraiu-me imediatamente em 2017 pela premissa inusitada de uma zumbi em pleno subúrbio americano perfeito e utópico, além de estrelar Drew Barrymore, a eterna Gertie de E.T. – O Extraterrestre e Timothy Olyphant, astro de duas grandes séries de faroeste, Deadwood e Justified. E tudo isso sem economizar em um gore bastante “sadio” e inusitado manchando as paredes brancas dos lares de Desperate Housewives que chocam e divertem o espectador.

Chegamos, agora à 3ª temporada dessa mais do que diferente série e ela continua alta em qualidade, mantendo como grandes atrativos não a sanguinolência ou as bizarrices, mas sim sua verdadeira marca registrada: a magnífica interação cômica entre os dois casais principais. Barrymore como Sheila e Olyphant como Joel são joias cômicas televisivas, algo que, confesso, foi uma surpresa para mim considerando os papeis soturnos e pesados que o ator vivera nas duas séries de cowboy que estrelara. O outro casal, claro, não é exatamente um casal (ainda), mas sim uma dupla: Abby Hammond (Liv Hewson), filha de Sheila e Joel e Eric Bemis (Skyler Gisondo), filho da vizinha dos Hammond. É na interação desses quatro que quase que a totalidade do valor da série repousa, tamanha é a naturalidade com que lidam com as mais surreais situações e pela inversão da lógica clássica de pareamentos desse tipo, com as mulheres sendo destemidas e aguerridas e os homens funcionando ou como “Grilo Falante“, que é o caso de Joel, ou como a expressão máxima do pavor e da nerdice, obviamente o caso de Eric.

A nova temporada lida inicialmente com o cliffhanger anterior, ou seja, a descoberta, pela policial Anne Garcia (Natalie Morales), namorada de Lisa (Mary Elizabeth Ellis), do segredo de Sheila ou, ao menos, de parte dele, o suficiente para que seu lado carola logo beatifique Sheila como uma enviada de Deus, o que inaugura a linha narrativa do Culto de Sheila, em que Anne literalmente começa uma igreja secreta. No entanto, o mesmo cliffhanger abre outra linha narrativa, com a investigação da explosão do atentado ecológico de Abby e Eric pelo FBI, o que abre um muito bem-vindo espaço para que a interação entre os dois jovens amigos ganhe grande destaque, por vezes até mesmo deixando Sheila e Joel em segundo plano. Em meio a tudo isso, o showrunner Victor Fresco aproveita para expandir a mitologia dos desmortos com a introdução de agentes do governo sérvio em Santa Clarita que desejam capturar zumbis e a abordagem direta dos Cavaleiros da Sérvia, ordem milenar com o objetivo de destruir os mortos-vivos.

Em outras palavras, a movimentação narrativa é gigantesca e chega a ser surpreendente como os roteiros dos curtos 10 episódios conseguem equilibrar razoavelmente bem cada uma das subtramas, que claro, não são apenas as três acima e incluem a amizade de Sheila com uma senhora moribunda e a zumbificação do alucinado (e hilário) Ron (Jonathan Slavin), que Joel conhecera no hospital psiquiátrico no começo da 2ª temporada. Digo razoavelmente, pois há algumas conveniências de roteiro que causam estranheza, como por exemplo o aparecimento e desaparecimento de personagens de maneira artificial e na medida em que a história exige ou não suas presenças. Esse é o caso de todo o culto de Sheila e Anne, a fundadora, além do casal inimigo de corretores, Chris (Joel McHale) e Christa (Maggie Lawson). Aliás, o próprio Culto de Sheila é um artifício narrativo que, mesmo em uma série como essa, exige um tantinho além da conta da suspensão da descrença por parte dos espectadores, tamanha é a facilidade como tudo acontece.

No entanto, sou o primeiro a reconhecer que os problemas da temporada são pequenos diante da qualidade dos diálogos cômicos e da atuação da quadra principal. E isso é especialmente verdadeiro aqui já que a investigação do ato terrorista de Eric e Abby, como mencionei, abre um bom espaço para que Hewson e Gisondo dominem vários episódios com suas presenças e timing cômico absolutamente cativantes. Creio até que, diferente das temporadas anteriores, as piadas entre os dois jovens tenham sido mais inspiradas do que as que envolvem Sheila e Joel, estes sofrendo um pouco pela natural e inevitável repetição temática que o desenvolvimento de suas narrativas acarretam.

O mergulho profundo na mitologia zumbi muito particular da série, começando pela descoberta da fonte da “doença” e passando por todo o lado sérvio da história, com a introdução e uso (também na base do aparece e desaparece) de Poplović  (Goran Višnjić) e seus capangas, é algo que, confesso, não esperava que acontecesse. Ou melhor, eu temia que acontecesse e que isso retirasse a leveza e a crítica social da série. No entanto, apesar de, no final da temporada, haver uma abordagem mais direta do tema, ao longo de todo o restante da narrativa essa mitologia é tratada de maneira periférica e não-intrusiva, em uma ótima escolha de Fresco, impedindo, com isso, uma quebra da imersão que Sheila, Joel, Abby e Eric conseguem meramente com suas respectivas presenças e interações.

Santa Clarita Diet continua sendo, portanto, um grande divertimento que, apesar da proposta superficialmente abilolada, é inteligente em suas entrelinhas, fazendo do clichê zumbi aquilo que George A. Romero tinha em mente quando transformou os monstros em fenômenos pop: usá-los como veículos para profundas críticas sócio-econômicas. Os zumbis suburbanos de classe média alta da cidade de Santa Clarita podem ser diferentes do usual, mas o saudoso Romero teria orgulho deles.

Santa Clarita Diet – 3ª Temporada (EUA, 29 de março de 2019)
Showrunner
: Victor Fresco
Direção: Marc Buckland, Ken Kwapis, Geeta V. Patel, Andy Ackerman, Rebecca Asher, Adam Arkin, Steve Pink
Roteiro: Victor Fresco, Michael A. Ross, Clay Graham, Ben Smith, Melissa Hunter, Aaron Brownstein, Simon Ganz, Caitlin Meares
Elenco: Drew Barrymore, Timothy Olyphant, Liv Hewson, Skyler Gisondo, Alan Tudyk, Natalie Morales, Thomas Lennon, Ramona Young, Sydney Park, Zachary Knighton, Ethan Suplee, Matt Shively, Goran Višnjić, Joel McHale, Maggie Lawson
Duração: 30 min. aprox. por episódio (10 episódios no total)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.