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Crítica | Saturday Night Live (1975) – 1X01: George Carlin/Janis Ian e Billy Preston

por Kevin Rick
233 views (a partir de agosto de 2020)

Na foto de destaque acima, têm-se o elenco original de comediantes do Saturday Night Live, composto por Jane Curtin, Garrett Morris, Laraine Newman, Gilda Radner, Dan Aykroyd, John Belushi e Chevy Chase, inicialmente conhecidos como “Not Yet Ready for Prime-Time Players”, que sumariza muito bem a ideia arriscada e até bagunçada do show de esquetes do canal americano de televisão aberta NBC. A série terminou tornando-se uma das obras mais populares da história do EUA, ainda lançada semanalmente na data da presente crítica com diferentes grupos de comediantes em cada Era do programa.

A premissa da série criada pelo eterno Lorne Michaels baseia-se em torno de um convidado famoso, de preferência um comediante, que serve como host do episódio, enquanto o elenco principal cria esquetes originais, algumas entre eles, outras em conjunto com o convidado, concebendo uma grande experiência cômica segmentada, cheia de skits, monólogos e… apresentações musicais? Esse é outro aspecto do show, que além do host, sempre traz músicos como convidados especiais. Parece uma bagunça total, certo? E meio que é sim, mas a desorganização faz parte da unidade divertida que é assistir SNL, especialmente nesses primeiros episódios onde o grupo não havia encontrado sua identidade e merecem o apelido de “Not Yet Ready for Prime-Time Players”. E, um detalhe, tudo acontece ao vivo!

Uma das melhores qualidades da série está na sua seleção de comediantes, já com alguns nomes fantásticos no grupo original como Dan Aykroyd, Chevy Chase, Gilda Radner e John Belushi. Bill Murray se juntaria a eles pouco tempo depois, e o programa manteria uma tradição completamente insana de revelar ícones da comédia em todas as suas eras: Eddie Murphy, Adam Sandler, Will Ferrell, Tina Fey, Amy Poehler, Mike Myers, Chris Rock, Kristen Wiig, para citar alguns. Isso já é bem visto no piloto, no qual o grupo, se ainda desconfortável, demonstra a genialidade e criatividade de mentes que mudariam a comédia americana como Dan Aykroyd, e seu Os Caça-Fantasmas, e Chevy Chase, com sua franquia Férias Frustradas

George Carlin, um dos melhores comediantes de stand-up de todos os tempos

Imagina só, um programa com o elenco titânico que descrevi acima, tendo como convidado/host George Carlin, considerado por muitos o melhor da história na arte do Stand-up, participações musicais de Billy Preston e Janis Ian, um segmento com os Muppets de Jim Henson, um curta de Albert Brooks e, como cereja do bolo, um “monólogo” de Andy Kaufman. Insanidade completa, e uma série de eventos apenas proporcionada por SNL, que contém uma magia especial em reunir ícones semanalmente de uma maneira inesperada.

Como eu disse, o show ainda estava se encontrando, e existe uma certa dificuldade em reunir todos os eventos acima na estrutura nada harmônica do piloto, que pula do monólogo de Carlin para esquetes, e daí para participações musicais e uma longa sequência dos Muppets. Tudo parece bastante deslocado e abrupto, mas, felizmente, se a estrutura é estranha, o conteúdo hilário compensa a experiência. Desde este piloto, já fazendo uma ponte com a questão da estrutura fragmentada, a ideia do show é fazer algo diferente, atirando para diferentes tipos de humor e estilos de comédia em um jornada maluca de descobrimento e identidade da equipe criativa.

The Land of Gorch, de Jim Henson

A melhor palavra para descrever esses comediantes seria ousadia. O irreverente George Carlin faz um monólogo sobre seus pensamentos em relação à religião e Deus; o curta de Albert Brooks tem piadas judias e uma sequência maluca fazendo humor com pedofilia; e as próprias esquetes tem um viés mais ácido, como uma genial skit sobre a questão armamentista americana, no qual um ônibus atravessa uma cidade com o cartaz “Mostre Suas Armas”, e a audiência não consegue conter o riso (e o desconforto) com mães tirando armas de carrinho de bebê, vovós sacando revólveres da bolsa e crianças segurando AK-47. Talvez você acha esse tipo de comédia irresponsável, mas o propósito é o choque mesclado à crítica, além da simples ideia de desenvolvimento humorístico da audiência americana.

O panorama da televisão aberta estadunidense da época era uma grande bolha de humor bobo, que tem sim seus méritos, e o próprio SNL faz uma comédia ingênua e paspalhona também, mas a visão do grande público americano para comédia se baseava em sitcoms familiares e talk-shows. Em entrevistas de Lorne e do elenco, já é possível perceber como eles queriam utilizar o horário nobre e o canal aberto NBC como veículo para expandir a comédia, se ainda não no alcance do humor negro britânico, pelos menos se desvencilhando da comicidade situacional familiar.

Weekend Update com Chevy Chase, uma das melhores sátiras políticas do audiovisual

Este humor mais maduro é simplificado na melhor esquete do episódio, e que posteriormente se tornaria um segmento recorrente, chamado Weekend Update, chefiada pelo carismático e improvisador Chevy Chase, que faz um compilado dos eventos da semana, em sua maioria políticos, em uma espécie de jornal caricato, também fazendo paródia com a imprensa. Não acredito que Chevy tenha sido o pioneiro nesse estilo de humor, mas certamente o popularizou e pavimentou o caminho para versões ainda melhores de sátira política, como The Daily Show with Jon Stewart, The Colbert Report e o recente Last Week Tonight with John Oliver.

Aliás, é difícil colocar em palavras os diferentes impactos de SNL em todos os aspectos da comédia americana, o que, consequentemente, afeta a comédia mundial, já que o grande consumo de entretenimento audiovisual mundial sai dos EUA. Além do já citado Weekend Update e a sátira política, e também a questão em torno do programa ir ao ar em um canal aberto, para uma audiência desacostumada com este tipo de humor nos anos 70, tem-se também a popularização do Stand-up. Grande parte do show acontece em torno de monólogos dos convidados, e com a crescente audiência do programa, essa forma de comédia ganhou seu status popular atual. Ademais, é possível traçar o impacto de membros do show no Cinema, com Dan Aykroyd criando “super-esquetes” com Os Irmãos Cara-de-Pau, Os Caça-Fantasmas Os Espiões que Entraram numa Fria; Chevy Chase com sua franquia Férias Frustradas; além de posteriores sucessos de Bill Murray e Eddie Murphy, também nos anos 80, bebendo dos elementos que tornaram a série célebre. Saturday Night Live, na minha opinião, não tem a mesma força atualmente, e não tem tido há pouco mais de dez anos, mas esse período inicial nos anos 70 e 80, e até nos anos 90, é, provavelmente, um dos maiores marcos televisivos americano. Não foram pioneiros em tudo que fizeram, mas sua criatividade, ousadia e impacto são imensuráveis.

O gênio cômico Andy Kaufman

A crítica já está feita e espero que tenham gostado. Torço que exista alguém que conheça essa primeira Era do show, ou pelo menos o programa em si, e para aqueles que não conheciam SNL, desejo que que o texto tenha despertado sua curiosidade por esse pedacinho fantástico do audiovisual. Dito isso, queria apenas abrir um espaço para o meu momento favorito do episódio, que é o da imagem acima, do lendário Andy Kaufman fazendo um curto e hilário skit cantando Mighty Mouse. O comediante, que infelizmente nos deixou cedo demais, é um dos maiores gênios da comédia que agraciaram essa Terra, tendo um dos estilos mais curiosos de humor, no qual eles mais entretém do que faz piada, e consegue arrancar mais risadas que a grande maioria.  Ele faz um humor desajeitado e surreal, sempre incorporando algum personagem. Não consegui encontrar o vídeo dessa sequência em específico, mas, logo abaixo, deixo um vídeo ainda melhor e mais longo de um dos meus comediantes favoritos. Espero que gostem!

Saturday Night Live (1975) – 1X01: George Carlin/ Janis Ian e Billy Preston – EUA, 11 de outubro de 1975
Criação: Lorne Michaels
Direção: Dave Wilson
Roteiro: Chevy Chase, Dan Aykroyd, Garret Morris, Albert Brooks, Alan Zwebel, Tom Schiller, Herbert Sargent, Michael O’Donoghue, Rosie Shuster, Lorne Michaels, Tom Davis, Al Franken, Anne Beats, Jim Henson
Elenco: George Carlin, Janis Ian, Billy Preston, Albert Brooks, The Muppets, Jane Curtin, Garrett Morris, Laraine Newman, Gilda Radner, Dan Aykroyd, John Belushi, Chevy Chase, George Coe, Michael O’Donoghue, Valri Bromfield, Andy Kaufman
Duração: 65 min.

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8 comentários

Elza Torquato Rennan Sales 25 de abril de 2021 - 00:14

Snl de fato, é um marco televisivo inquestionável. Muita coisa do humor brasileiro atual, principalmente a turma Porta dos fundos, bebe nessa linha do programa (claro, não somente aí). E sim, revendo os episódios dessa fase do Snl não dá pra negar que o que é feito hoje no programa é brincadeira de criança.

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Kevin Rick 26 de abril de 2021 - 21:35

Concordo plenamente! Interessante, e de certa forma triste, como em 1975, logo no piloto, o programa era bem mais ousado que atualmente…

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Davi Lima 24 de abril de 2021 - 18:22

O cara fez o Plano Piloto ser um Entenda Melhor. @luizsantiago:disqus tem que criar outra coluna rsrsrs.

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Luiz Santiago 24 de abril de 2021 - 15:32

Seria SNL um tipo de novela em capítulos independentes? Porque se você pegar Star Wars

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Kevin Rick 24 de abril de 2021 - 15:45

São 46 temporadas, então tire sua conclusões…

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Luiz Santiago 24 de abril de 2021 - 16:01

SELO KEVIN DE “É NOVELA”!

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planocritico 24 de abril de 2021 - 16:50

Days of Our Lives será analisada por episódio pelo @kevin_rick:disqus !

Abs,
Ritter.

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