Crítica | Scanners – Sua Mente Pode Destruir

estrelas 3

Em 1981, David Cronenberg já possuía mais prestígio dentro do espaço de produção cinematográfica. Os seus filmes respeitavam determinadas convenções narrativas “autorais”, originados de uma postura realizadora que buscou fazer diferente em um campo similar ao de produção hollywoodiana, mostrando-se refratário aos cânones impostos pela indústria, com produções que trafegavam na contramão do tradicional, numa atitude que lhe permitiu conquistar uma dimensão mais vasta de público, além de não ser unanimidade e permitir uma vasta abertura na recepção de suas obras, ainda reinterpretadas décadas depois de lançadas. Desde Stereo, veiculado em 1969, o cineasta se empenhou em apresentar reflexões sobre a subjetividade das relações entre tecnologia e o corpo humano, tema que podemos observar em Calafrios, Enraivecida na Fúria do Sexo e Filhos do Medo, as suas produções até 1981, temática expandida que percorre toda a sua carreira, em nuances diferenciadas, mas convergentes, sendo o frenético Scanners – Sua Mente Pode Destruir, um das reflexões que representam esse campo de interação conflitante, isto é, a aproximação e a repulsa entre o homem e a máquina, o “tradicional” e a “nova ordem”.

Mas, afinal, quem e o que são os scanners? Capazes de interagir por telepatia e ocasionar o controle mental alheio, as figuras em questão possuem capacidades extra-sensoriais. Podem ler a mente, comandar atos alheios e até mesmo destruir pessoas fisicamente. Criados após uma experiência laboratorial que perde o controle, conflito dramático que embase boa parte dos filmes na carreira de Cronenberg, os scanners se unificam como uma organização terrorista, tendo como foco a quintessência da ficção cientifica: a dominação e o poder. Também responsável pelo roteiro, David Cronenberg nos apresenta o mundo dos scanners em detalhes, “criaturas” que conforme tal como mencionado, detém poderes telecinéticos e telepáticos incomuns. Uma corporação intitulada CONSEC busca incessantemente pessoas para as suas experiências e vai encontrar em Darryl Revok (Michael Ironside) uma espécie de “herói da resistência maligna”. Renegado, Revok também é scanner, mas promove uma guerra contra as investidas da empresa. Para detê-lo, a CONSEC envia outro scanner, Cameron Vale (Stephen Lack), personagem que chega para estabelecer a “guerra de titãs” ao longo dos 103 minutos de vastas cenas de ação, explosão e morte.

Ao acompanhar essa jornada que sai do discurso visceral direto para a o conflito mental no que tange aos processos de transformação dos indivíduos, somos informados que o Dr. Paul Ruth (Patrick McGoohan) desenvolveu experiências com ephemerol, um medicamento altamente perigoso injetado em mulheres grávidas. Tal como esperado, o procedimento traz terríveis efeitos colaterais, pois essa substância permite o surgimento de novos scanners, algo que faz aumentar as chances das estratégias de dominação organizadas por Revok, o “malvado”, contrário ao bondoso e ético Cameron, o scanner comandado a “fazer a coisa certa”. Aqui, a mutação da identidade não está exatamente na transformação do corpo de um ou mais indivíduos, mas na projeção no “outro”. Numa leitura que faz o nariz do objeto de análise sangrar, os “monstros” de Scanners – Sua Mente Pode Destruir trafegam pela hibridização dos corpos pela via mental. O cérebro é o foco da narrativa, seu ponto nevrálgico. Dentre tantas cenas, a passagem com a virtualização da mente quando um scanner lê o conteúdo de uma ligação é deveras interessante e condizente com a panorâmica temática do filme focado na relação entre corpo, mente e máquinas. A personagem Kim (Jennifer O’Neill) cumpre a missão de interagir com o “mocinho” no combate com o “monstro”, elo comercial para permitir maior adesão das plateias, nem sempre interessadas em tramas herméticas demais.

Esse espetáculo que promove o corpo e a mente como partes integrantes de uma guerra muito além do simbólico é orquestrado por um cineasta que flerta de maneira eficiente com a linguagem do vídeo, afinal, Scanners – A Sua Mente Pode Destruir é um filme sobre a era do vídeo, bem como antecipação de questões abordadas em Videodrome – A Síndrome do Vídeo, sua realização subsequente, igualmente polêmica, complexa e com debates ainda muito atuais. Em suma: pertinente. Para a composição da atmosfera que mixa terror e ficção científica, o design de som de Peter Burgess cumpre a sua função de elevar as potencialidades da textura percussiva de Howard Shore, músico que acompanhará o cineasta ao longo das próximas jornadas cinematográficas sempre muito passionais, tanto na temática quanto na estética. O ritmo da edição de Ronald Sanders permite que o filme ganhe fluência, mesmo que o texto seja um dos menores de uma carreira longe da mediocridade. É apenas um dos “menores” da vitrine cronenberguiana. Na supervisão de maquiagem e efeitos especiais, Dick Smith traz a sua experiência em O Exorcista e Viagens Alucinantes, dando aos espectadores um espetáculo visceral em cenas que habitam o imaginário até de quem nunca assistiu ao filme o desconhece a existência de Cronenberg.

Você pode não ser cinéfilo, mas se vive a cultura da mídia e as redes sociais, bem como a era da propagação praticamente ritualística de memes, provavelmente reconhece alguma relação intertextual com a famosa explosão da cabeça de um personagem, correto? Entre perseguições de carros, batidas, conspirações e tiroteios, o roteiro apresenta uma narrativa que consegue se sustentar de forma mediana, haja vista os infames clichês do vilão caricatural e da mocinha quase incompetente, isca fácil no furioso debate entre protagonista e antagonista. O design de produção de Carol Spier toma os espaços arquitetônicos urbanos, de concreto e vídeo, para desenvolver os cenários e empregar alguns elementos da direção de arte, mergulhada em objetos focados no vermelho como cor dominante da paleta contrastante, destacada pela também eficiente direção de fotografia de Mark Irwin, tomada por planos fechados e ângulos ousados, construção narrativa audiovisual tecida com base nas inspirações literárias de Cronenberg. Os seus scanners trazem algumas situações do romance O Almoço Nu, de William Burroughs, um dos autores prediletos do diretor, obra ponto de partida para a tradução intersemiótica intitulada Mistérios e Paixões, lançada dez anos depois, polêmica e controversa como tudo que o diretor faz.

Ademais, o que podemos extrair de Scanners – Sua Mente Pode Destruir? Enquanto entretenimento, o filme entrega ao público o modelo genérico da ficção científica, sem dosagem na ação e no maniqueísmo das atitudes de seus personagens. Já no campo filosófico, parte integrante da agenda problematizadora dos filmes de David Cronenberg, a narrativa expõe o corpo como sustentáculo de algo maior, isto é, a mente, um mecanismo dos seres humanos com alta capacidade destrutiva. O relativo sucesso comercial não significou satisfação por parte do cineasta, pois em depoimentos mais recentes, o canadense considera a narrativa de seus scanners como um dos filmes mais problemáticos que já fez, menor dramaticamente e exaustivo no que diz respeito aos bastidores. É uma narrativa que traz para a década de 1980, um extenso legado literário no campo das ficções científicas que observam o mundo de maneira nada otimista e sempre crítica diante dos avanços desmedidos de sociedades nem sempre preparadas para as mudanças que lhe são ofertadas. Quase sempre, impostas nos discursos simbióticos da cultura, da economia e da política, magnéticas em suas esquematizações globais.

Aos curiosos, a produção ganhou duas continuações, ambas inferiores ao filme ponto de partida, mais voltadas ao legado visual de David Cronenberg visto como excerto, extraído sem algum contexto. Nestas produções, o que importa é a ação, o corpo em corrosão diante dos embates rocambolescos de tramas que apresentam aparatos filosóficos menores (ou talvez inexistentes), focados nas possibilidades de maior alcance do público consumidor. É como pegar o grotesco e o visceral do cinema de Cronenberg e extrair a carga dramática que emprega alma aos filmes, numa irônica discussão sobre a identidade frágil dos filmes de ação e aventura do circuito comercial, esvaziados de conteúdo para atender aos anseios de plateias que supostamente “desligam” seus cérebros ao assistir filmes. Isso é algo que nem de longe engloba o pacote de dados adquiridos ao adentramos numa experiencia cronenberguiana, momento conhecido pela conexão mental em estado de alerta, numa leitura constante dos elementos internos e externos da narrativa fílmica que nos é ofertada para reflexão e entretenimento. Como um scanner, mas dos filmes. Alienação e desconexão intelectual? Se for o caso, passe longe de Cronenberg.

Scanners – A Sua Mente Pode Destruir (Scanners) – Canadá, 1981.
Direção: David Cronenberg.
Roteiro: David Cronenberg.
Elenco: Jennifer O´Neill, Stephe Lack, Michael Ironside, Patrick McGoohan, Lawrence Dane, Mavor Moore, Lee Broker, Adam Ludwig, Sonny Forbes.
Duração: 103 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.