Crítica | Scarface (1983)

“Deem um alô para o meu amiguinho.”

Contém spoilers.

“O mundo é seu”, contempla o globo terrestre sobre a fonte em que o corpo de Tony Montana (Al Pacino) cai morto, após um último ato suficientemente digno para o perecimento de um dos grandes criminosos do cinema norte-americano, protagonista de uma das obras mais cultuadas dentro do seu espaço de nicho, o cinema de gângsters. Scarface é um filme sobre possessão, sobre querer mais e mais, acerca de uma ganância imensurável, assim como um controle das coisas que encontram-se rodeando o seu personagem principal, seja uma mulher cobiçada, seja uma irmã enormemente protegida. A conclusão do filme “celebra” esse sonho americano – sonhado por um cubano, que, mais do que qualquer político estadunidense, odeia comunistas -, um sonho, enfim, resumido na derradeira carnificina. Os anti-heróis não se redimem, contudo, se esganam em seus próprios demônios, não por salvadores que eliminam ameaças, porém, seres ainda mais criminosos que os anti-heróis, os mesmos que se divertem matando comunistas. Onde que se encontra o muro que separa os sonhadores dos ambiciosos? Onde que se encontra o muro que separa os sonhadores dos materialistas, dos possessivos? O mal é ambivalente nesse filme que é considerado, por muitos, a magnum opus de Brian De Palma, refilmagem do, em contrapartida ao senso comum, superior clássico homônimo de 1932, dirigido por Howard Hawks.

Scarface é conhecido por uma brutalidade – duramente criticada na época. Brian De Palma não demonstra ser consciente dessa ser uma característica embutida essencialmente em seu longa-metragem, um ambicioso projeto de épico sobre o crime, entretanto, sem explorar a violência de uma maneira tão insensível como muitos preveem conceitualmente. O questionamento à obra ser envolvente – o que é – é outro assunto. Os espectadores do cinema norte-americano já haviam presenciado conteúdo muito mais visualmente chocante quanto os tiroteios do longa-metragem – também um enforcamento, mas enxergado à distância, através de um binóculo. Uma das cenas iniciais, envolvendo uma serra elétrica, não mostra corpo esquartejado, nem qualquer outra situação gráfica. Scarface, porém, é um filme impactante nesse sentido desesperançoso que reside no seu intrínseco. Bonnie e Clyde, do clássico Uma Rajada de Balas, foram mortos por policiais. Tony Montana é morto por pessoas ainda mais cruéis – o sujeito apático, com óculos escuros, que desfere o último golpe -, mais descomprometidas moralmente que o personagem, criaturas de um núcleo da ilegalidade com a capacidade de assassinar crianças caso seja necessário para o sucesso da missão. Scarface não glorifica o crime, muito pelo contrário – os ternos cortados pelas balas -, nos permitindo enxergamos como o universo pode ser muito mais corrosivo do que aparenta em um cinema de pura estética.

O roteiro possui problemas discursivos. Scarface não saboreia cuidadosamente essa tênue oscilação entre a ganância a qualquer custo e a ganância controlada, com regras postas em pauta e que devem ser obedecidas. Montana, por exemplo, é um personagem que se atém a certos preceitos morais, como lealdade, porém, uma cisão interessante é originada pelo texto – escrito pelo conhecido Oliver Stone -, confundindo a mentalidade do protagonista, enquanto trai certas pessoas, contudo, nunca no sentido cru da palavra, mas com um cinismo menos óbvio. Um confrontamento moral, entretanto, nunca é posto em prática, até que a narrativa precise dessa reviravolta, enfim brincando com as questões éticas presentes. A derrocada de um homem é um dos seus atos de misericórdia. Quando Tony Montana precisa decidir se vai assassinar uma mulher e seus filhos, assim como o seu marido – que era o alvo inicial -, em decorrência de uma situação extremamente conflituosa, De Palma constrói um momento de visceral confusão, perdição diante um cenário que propicia a destruição da barreira que separa o “herói” – de um “sonhador”, um refugiado político, para um sociopata, um criminoso. A cena funciona especialmente pela competência de Al Pacino enquanto encara o pânico, o estresse – mais para frente, a desolação irremediável comprova uma performance muito mais que caricatural.

A subvertida ascensão de carreira profissional – criminosa, contudo -, o sonho que está sendo percorrido é subitamente transformado em realidade após o assassinato de Frank Lopez (Robert Loggia). Brian De Palma, em um momento de transição um pouco aleatório na maneira como a constrói, pela metade do filme, decide expor o novo mundo do homem com a cicatriz em seu rosto de um modo demasiadamente apressado, como se não soubesse contrapor onde que termina a jornada de seu crescimento e onde começa a jornada de seu decaimento. O segmento não agrega às dinâmicas, sugerindo uma equivocada condução de agilidade – uma montagem dinâmica, com trilha sonora envolvente -, como se as interações estivessem se desenvolvendo e ganhando novas camadas. O contexto desse momento no clímax hierárquico é o mesmo de quando Montana era um mero trabalhador, enganando o público da existência de uma suposta reformulação, desenvoltura, para um status quo que, no entanto, se mostra quase intocado. Gina (Mary Elizabeth Mastrantonio) permanece interessada em seu amigo Manny (Steven Bauer). O romance entre o protagonista e Elvira Hancock, interpretada pela estonteante Michelle Pfeiffer, continua o mesmo – um encantamento que perde força ao passo que o incansável Tony se “aproxima” cada vez mais da mulher, nunca permitida a um crível entendimento pelo roteiro.

O icônico Scarface, quando pensado em linhas menos embriagadas com o seu término estrondoso e doloroso, não é um dos grandes estudos de personagem dentro do sub-gênero. O “herói” não se corrompe, a exemplo. Oliver Stone possibilita uma coesão com o arco paralelo de Gina Montana – em interpretação, na cena de sua morte, assustadora, contrapondo o nauseado protagonista -, que contribui para uma segunda intenção discursiva, de mera posse, não corrupção. Os maneirismos do diretor, frente aos momentos de ciúmes de Montana, aproximando a câmera do olhar possesso do personagem, esclarecem esse objetivo. O protagonista é, portanto, mesmo sugestionando um controle ético, muito mais uma máquina de fúria – como a cena conclusiva evidencia -, do que um gângster à moda antiga. O cineasta não procura traçar uma complexidade, reviravoltas e questionamentos construídos com profundidade, na sua mentalidade conturbada. Um longa-metragem grande – não cansa necessariamente, mas a duração é desnecessária -, Scarface claramente renega uma narrativa complexa, porém, não preenche o tempo com densidade ao protagonista. As problemáticas são simples. Os antagonistas são conhecidos desde sempre. Os coadjuvantes são poucos. Já a interpretação magnética de Al Pacino move o interesse do espectador, criando um personagem verdadeiramente instigante e memorável, quase que por si só.

Scarface – EUA, 1983
Direção: Brian De Palma
Roteiro: Oliver Stone
Elenco: Al Pacino, Michelle Pfeiffer, Steven Bauer, Mary Elizabeth Mastrantonio, Robert Loggia, Miriam Colón, F. Murray Abraham, Paul Shenar, Harris Yulin, Ángel Salazar, Arnaldo Santana, Pepe Serna
Duração: 170 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.