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Crítica | Schmigadoon! – 1ª Temporada

por Roberto Honorato
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Assim que o elenco e a equipe criativa de Schmigadoon! foi confirmada, minha expectativa estava bem alta. Primeiro, quase todo o elenco é formado por comediantes que adoro, a maioria deles sendo ex-membros do programa Saturday Night Live, como Cecily Strong e Fred Armisen, sem contar que a série tem produção executiva de Lorne Michaels, o criador do clássico programa que continua de pé há mais de quatro décadas. Além disso, alguns veteranos que continuam hilários, como Martin Short e Alan Cumming fazem participações especiais. E como se não fosse suficiente, para conquistar o meu lado apaixonado por musicais, a série traz Kristin Chenoweth e Dove Cameron. Essa equipe já é suficiente para chamar atenção, mas valeu a pena?

Depois de anos juntos, o casal Josh Skinner (Keegan-Michael Key) e Melissa Gimble (Cecily Strong) sentem que a relação está estagnada, então decidem fazer algo inesperado e participam de uma trilha, com mochila e tudo. Mas logo se perdem por conta de um temporal, então atravessam uma ponte misteriosa que os transporta para um lugar completamente diferente, a cidade de Schimigadoon, onde o tempo é sempre ensolarado e as pessoas cantam aleatoriamente, o que deixa Melissa animada, mas é o maior pesadelo de Josh, que odeia musicais. 

Schmigadoon! é tudo o que um fã de musicais e comédias poderia pedir, com o típico humor das produções de Lorne Michaels, misturando diálogos absurdos e inesperados de ótimos comediantes com um timing impecável, e diversas referências à clássicas peças da Broadway, como Oklahoma!, Guys and Dools ou My Fair Lady. Se por um lado a série é basicamente uma carta de amor ao gênero, também é uma forma arriscada de limitar bastante o seu público, como se ter a série produzida pelo serviço de streaming Apple TV+ não fosse pouca visibilidade suficiente. Não que o streaming da Apple seja ruim, na verdade tem algumas séries incríveis (Ted Lasso, Mythic Quest e For All Mankind tem uma enorme qualidade técnica e de enredo), mas ela não tem a melhor divulgação do mundo, então a série acabou em uma plataforma sem o mesmo alcance de gigantes como Netflix ou HBO MAX, e com uma proposta que explora musicais, um dos formatos mais divisivos entre o público.

Em questão de elenco, nem preciso repetir o que disse no parágrafo inicial, essa série é um espetáculo de comediantes de peso emprestando seu carisma para alguns personagens que infelizmente aparecem apenas por alguns minutos, e isso faz com que eles não sejam impactantes o suficiente para ter influência nos arcos dramáticos principais, no caso, do casal protagonista. Keegan-Michael Key tem uma experiência em produções de diversos gêneros, alternando facilmente entre ação, drama e comédia, que é onde se destaca. Aqui ele passa a temporada, de apenas seis episódios (falarei disso em breve), servindo como o agitador desse novo ambiente que sequer tem paciência para compreender, então o ator está na sua zona de conforto, sendo a personagem impaciente e sem noção de quando está sendo mais inconveniente do que o necessário. Quando penso na Cecily Strong, é muito bom ver que ela está conseguindo papéis fora dos estereótipos que costumava interpretar no SNL, e por tentar algo diferente, sua personagem consegue ter uma evolução envolvente, uma vez que o arco de Key segue uma linha quase previsível, enquanto a de Strong tem maiores oportunidades para viradas na trama e um drama mais significativo. 

Sequer tive tempo de falar do resto do elenco, e nem vou ter como mencionar todos, porque são muitas pessoas, mas ainda que seja ótimo ter esses comediantes e estrelas da Broadway preenchendo as ruas de Schmigadoon, a série não os aproveita de verdade na trama, o que os faz servir mais como coadjuvantes muito bem pagos. Até aí tudo bem, mas o problema é que o enredo não parece saber o que fazer com alguns deles. Fred Armisen é o padre da cidade, mas não tem espaço para usar seu improviso porque divide as cenas com Kristin Chenoweth, provavelmente o maior nome do elenco para qualquer um interessado em musicais (ela fez “Glinda” em Wicked), e ela interpreta a esposa do padre, uma mulher reprimida na missão de manter os costumes conservadores da cidade. Tirando seu número musical (excelente, à propósito), a personagem não possui qualquer real desenvolvimento, mesmo avançando a trama, por mais conveniente que seja.

Isso acontece com quase todos, como Jane Krakowski e Alan Cumming, com enorme presença “de palco”, mas participações curtas demais. A personagem de Krakowski só aparece no penúltimo episódio e não tem tempo para brilhar como merece, mais uma vez se limitando a um número musical muito bem montado, mas incapaz de criar ligações mais fortes com o espectador, servindo o único propósito de cantar uma música que avança a trama. Talvez a única personagem secundária bem aproveitada seja a professora da escola, Emma Tate, interpretada por Ariana DeBose – ela tem um arco claro e bem definido, que é explorado com mais calma ao longo da temporada, mas chega a ser apressado desnecessariamente na reta final.

Isso evidencia o maior problema da série, que se apresenta como uma paródia das narrativas de musicais clássicos, porém começa tentando levantar críticas pertinentes com observações sobre as letras e tramas conservadoras, mas termina seguindo a mesma ideia. Algumas coisas mudam com a passagem do casal por aquele mundo, embora elas continuem acontecendo da mesma forma, começando com um espetáculo extravagante, seguindo para a introdução dos personagens, o drama principal, o conflito de separação, uma reviravolta, e por fim, uma conclusão apressada e conveniente. A série oferece apenas seis episódios, o que seria suficiente se todo o verdadeiro desenvolvimento de personagens não acontecesse apenas no episódio final, criando uma narrativa apressada, mudanças drásticas mal estabelecidas e uma conclusão abrupta que deixa o espectador confuso, ainda que não seja nem um pouco ambígua. 

Schmigadoon! começa promissora, até demais. Elenco e equipe criativa de peso, com direção de Barry Sonnenfeld e um design de produção chamativo que consegue emular um enorme palco, com árvores falsas de papelão e casas de madeira frágil. Mas essa superfície bonita não sustenta a série, e assim ficamos com uma comédia decente, com altos e baixos, diversas personagens mal aproveitadas, e números musicais de enorme impacto visual, mas mais por conta das coreografias, porque tirando uma ou outra, a maioria das canções podem ser esquecidas assim que o episódio acaba (pelo menos foi o meu caso), o que é péssimo para uma produção que se apoia tanto no formato musical. Essa série tinha a faca e o queijo para explorar de forma inteligente a narrativa de musicais, mas se apaixonou demais pela própria premissa que acabou se perdendo e virando uma homenagem sem identidade. 

Schmigadoon! – 1ª Temporada (EUA, 2021)
Criadores: Ken Daurio, Cinco Paul
Direção: Barry Sonnenfeld
Roteiro: Ken Daurio, Cinco Paul, Julie Klausner, Kate Gersten, Allison Silverman, Bowen Yang
Elenco: Cecily Strong, Keegan-Michael Key, Fred Armisen, Dove Cameron, Jaime Camil, Kristin Chenoweth, Alan Cumming, Ariana DeBose, Ann Harada, Jane Krakowski, Martin Short, Aaron Tveit, Liam Quiring-Nkindi, Amitau Marmorstein, Amanda Cleghorn
Duração: 6 episódios, aprox. 26 min.

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