Crítica | Scooby-Doo 2: Monstros à Solta

É muito raro uma continuação manter a quase integralidade da equipe original à frente e atrás das câmeras, mas Scooby-Doo 2: Monstros à Solta traz de volta não só Freddie Prinze Jr. como Fred, Sarah Michelle Gellar como Daphne, Linda Cardellini como Velma, Matthew Lillard como Salsicha e Neil Fanning como a voz de Scooby, como também novamente conta com Raja Gosnell na direção, James Gunn no roteiro, além David Newman na trilha sonora, Kent Beyda na montagem, Bill Boes no design de produção e Leesa Evans no  figurino, com a única ausência de relevo sendo a de David Eggby na direção de fotografia, aqui substituído por Oliver Wood. E é mais raro ainda quando o resultado consegue pelo menos manter a qualidade do original, para o mal ou para o bem.

Com isso, a sequência do sucesso de bilheteria de dois anos antes é bem-sucedida em entregar outra dose da mesma coisa, novamente partindo de uma premissa interessante, mas desenvolvendo-a de maneira repetitiva e cansativa. Aqui, a história remexe ainda mais profundamente com a nostalgia dos fãs das duas séries originais do Scooby-Doo, com a gangue deparando-se, na inauguração de um museu em Coolsville em sua homenagem repleto das fantasias de todas as (não)assombrações que enfrentaram ao longo dos anos, com um misterioso homem mascarado que dá vida aos monstros clássicos e que passam a assombrar a cidade. Paralelamente, os heróis têm que enfrentar a campanha difamatória da repórter Heather Jasper Howe (Alicia Silverstone), que destrói sua fama manipulando as informações e as entrevistas com Fred.

Com isso, o roteiro de Gunn desenterra vilões das duas séries clássicas animadas, com ótimas releituras em computação gráfica do Cavaleiro Negro (o primeiro vilão da Mistério S.A.!), Fantasma do Capitão Cutler, Mineiro de 49 e Zumbi das duas temporadas que foram ao ar entre 1969 e 1970 e Pterodátilo Fantasma, Fantasma de 10.000 Volts, Monstro de Piche e Homens-Esqueleto do revival da ABC de 1976 a 1978, com apenas um monstro criado exclusivamente para o filme, o Bolha de Algodão Doce. Por outro lado, exatamente como no filme anterior, a estrutura é de episódio estendido para muito além do tamanho necessário, com uma interminável sucessão de gags que, como artifício da vez, coloca Salsicha e Scooby tendo que provar para o restante da Mistério S.A. que eles não são apenas obstáculos ao sucesso do grupo que só acertam sem querer.

Apesar de irônico, é justamente o foco exagerado na dupla de comilões atrapalhados que torna a continuação cansativa. No lugar de trabalhar Salsicha e Scooby de maneira orgânica, o roteiro de Gunn retira os personagens do seio narrativo, colocando-os em side quests que são apenas desculpas esfarrapadas para números musicais, disfarces absurdos e sequências de ação turbulentas e muitas vezes escuras demais que não acrescentam em absolutamente nada aos personagens que começam e acabam rigorosamente do mesmo jeito. E antes que alguém venha com reclamações do tipo “como assim o crítico quer desenvolvimento de personagem em um filme do Scooby-Doo?”, basta lembrar que a primeira incursão live-action da franquia, por mais rasa que fosse, continha exatamente isso no que se refere a Fred, Daphne e Velma. Infelizmente, o mesmo não acontece com Salsicha e Scooby.

Por outro lado, os efeitos especiais da continuação são bem melhores. Scooby continua essencialmente o mesmo, ainda bem, já que sua versão em CGI é, sem dúvida alguma, um vitória do primeiro filme. Apesar de o orçamento ter sido bem mais baixo na continuação, o investimento na computação gráfica merece destaque. Mesmo que não seja a melhor coisa do mundo, os clássicos monstros com novas roupagens e as pancadarias virtuais que decorrem da presença maciça deles se saem bem melhor do que as bobagens genéricas do primeiro capítulo. E, em termos de roteiro, a “solução do crime” é infinitamente superior à forma amadora como o grande vilão é introduzido na obra de 2002.

A direção de Raja Gosnell é burocrática ao extremo, com uma decupagem por vezes até quebradiça demais, sem que as sequências decorram logicamente umas das outras todo o tempo, o que não é nada muito sério considerando o ritmo frenético que ele consegue manter por grande parte da projeção. Até mesmo as inserções publicitárias carecem de cuidado, com momentos de obviedade com o patrocínio do Burger King e uma cena pós-créditos de inspiração zero para passar um código do jogo de Game Boy Advance baseado no filme. Mas talvez o pensamento geral seja na equivocada linha de que, como é uma obra feita para crianças, sofisticação é um luxo desnecessário.

Scooby-Doo 2: Monstros à Solta tem o duvidoso mérito de manter a qualidade do original, ainda que o esforço para trazer um público saudosista pelas animações clássicas seja visível e aplaudível. Uma pena que o resultado seja outro desperdício de premissa boa e personagens memoráveis.

Scooby-Doo 2: Monstros à Solta (Scooby-Doo 2: Monsters Unleashed, EUA/Canadá – 2004)
Direção: Raja Gosnell
Roteiro: James Gunn (baseado em personagens criados por Joe Ruby e Ken Spears)
Elenco: FreddieS Prinze Jr., Sarah Michelle Gellar, Matthew Lillard, Neil Fanning, Linda Cardellini, Seth Green, Peter Boyle, Tim Blake Nelson, Alicia Silverstone, Pat O’Brien, Bill Meilen, Zahf Paroo
Duração: 93 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.