Crítica | Scooby-Doo (2002)

Depois de Os Flintstones ganharem dois longas live-action em 1994 e 2000 pela Universal Studios, foi a vez de a Warner arriscar uma nova adaptação de personagens originais da Hanna-Barbera e Scooby-Doo foi a escolha mais óbvia entre todas as propriedades da empresa dada sua merecidíssima e imortal fama desde que a primeira animação do hilário e guloso personagem canino e sua turma de investigadores humanos surgiu nas telinhas americanas em 1969. Entra em cena, então, James Gunn em apenas seu terceiro roteiro de longa cinematográfico (creditado), muito antes de sequer chegar perto da cadeira de diretor, algo que só viria a acontecer em 2010, com base em história criada por ele e também por Craig Titley.

O resultado é um esforço sem dúvida cheio de coração e apelo nostálgico, mas que não é muito mais do que um episódio da série animada esticado para 86 minutos com o agravante de trair a premissa de que as ameaças enfrentadas pela turma do Mystery Inc. nunca é efetivamente sobrenatural. O filme sem dúvida ganha pontos por caracterizar muito bem os personagens principais e por usar uma exacerbação de suas características pessoais para separar a equipe logo no início, transformando o restante da projeção, que se passa dois anos depois de cada um seguir para seu lado, em uma narrativa que tem como objetivo juntá-los mais uma vez, obviamente.

O elenco foi bem escalado e a direção de arte, aí incluídos figurinos e maquiagem e cabelo, fez todo o esforço possível para transformar Freddie Prinze Jr. em Fred, Sarah Michelle Gellar em Daphne, Linda Cardellini em Velma e Matthew Lillard em Salsicha, com os atores trabalhando personificações exageradíssimas e cartunescas de seus personagens que, apesar de nem sempre funcionar bem, captura a atmosfera das animações clássicas, de certa forma revelando receio por parte de Gunn e do diretor Raja Gosnell em desviar-se sequer um milímetro do material fonte. A computação gráfica que torna o próprio Scooby-Doo possível é também muito eficiente, sem tentar fazer uma versão realista do simpático e falante dogue alemão, com a voz do australiano Neil Fanning acertando na mosca em sua interpretação da criação original de Don Messick.

Todo esse cuidado com os personagens e uma premissa simples, mas que funciona para impulsionar a narrativa, serve para deixar os espectadores em um ambiente confortável e facilmente reconhecível, mas ela falha em qualquer tentativa de desenvolver os personagens, resultando em uma mímica live-action de um episódio da série, o que é uma pena considerando o potencial do material. Com isso, a duração do filme, que coloca os heróis, separadamente, na Spooky Island, um parque de diversões temático comandado pelo excêntrico Emile Mondavarious (Rowan Atkinson sendo Mr. Bean, claro), nada mais é do que uma interminável sucessão de gags e esquetes não muito inspiradas que leva o grupo a enfrentar uma ameaça conhecida deles (e que é introduzida a marteladas em um tenebrosamente deslocado flashback) que quer Scooby para um ritual sobrenatural que simplesmente não precisava existir e que, existindo, não tem maiores consequências do que ser uma versão enlouquecida e frenética (no mal sentido) da ação final de um episódio da série animada, algo que é muito mais eficientemente oferecido no preâmbulo da obra.

Com exceção de Scooby, a computação gráfica é no máximo mediana e os efeitos práticos, assim como os cenários, são extremamente artificiais, sem nenhuma vergonha de aproximar talvez demais o live-action das animações. Se o tom cartunesco era de certa forma até necessário em Os Flintstones, em Scooby-Doo ele poderia ter sido mais polido e cuidadoso ao longo de toda a minutagem e não só quando a produção encara uma sequência bem construída, algo raro, mas que existe, como o já citado preâmbulo. E não, de forma alguma esperaria algo realista – afinal, aplaudi logo acima a renderização não realista de Scooby-Doo -, mas teria sido muito mais interessante que as pedras de isopor não parecessem de isopor ou que o CGI não fosse uma mera repetição de padrões pouco criativos.

Mesmo com seus graves problemas, Scooby-Doo acaba divertindo daquela maneira descompromissada de ser e por conseguir criar versões live-action fieis e eficientes para seus clássicos personagens, com o elenco, especialmente Matthew Lillard, claramente divertindo-se em seus papeis. Não é uma história particularmente inspirada ou uma produção cuidadosa, mas ver essa turminha do barulho ganhar vida nas telonas até que tem seu valor. No mínimo dá vontade de correr para os desenhos novamente!

Scooby-Doo (Idem, EUA/Austrália – 2002)
Direção: Raja Gosnell
Roteiro: James Gunn (baseado em história de Craig Titley e James Gunn e personagens criados por Joe Ruby e Ken Spears)
Elenco: FreddieS Prinze Jr., Sarah Michelle Gellar, Matthew Lillard, Neil Fanning, Linda Cardellini, Rowan Atkinson, Isla Fisher, Miguel A. Núñez Jr., Steven Grives, Charles Stan Frazier, Craig Bullock, Matthew Murphy, Mark McGrath, Rodney Sheppard, Sam Greco, Charlie Cousins, Kristian Schmid, Nicholas Hope, Scott Innes, Sugar Ray, Pamela Anderson
Duração: 86 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.