Crítica | Scooby-Doo, Cadê Você? – Série Completa

Scooby-Dooby-Doo, Where Are You?
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A atemporalidade de Scooby-Doo pode ser descrita em múltiplas camadas, contudo da mais fácil às mais complexas, todas permeiam o poder imagético sensorial que consta em sua primeira série oficial, Scooby-Doo, Cadê Você?, que com apenas duas temporadas iconizou os personagens para sempre na cultura pop. Revisitando-a, é nítido seu caráter despretensioso, episódico, em que as convenções eternas – como separar-se para procurar pistas, as armadilhas do Fred para prender os fantasmas, os óculos da Velma que somem e a deixam sem enxergar nada, os vários lanchinhos de Salsicha e Scooby, com ênfase nos biscoitos Scooby para dar coragem, etc. – surgem tão naturalmente que nem parece que foram planejadas para ser icônicas, elas ganham esse ar somente pela formalidade, carinho e ingenuidade como são tratadas.

Um poder surgido de início pelo impacto dos cenários, geralmente introduzidos logo nas primeiras cenas. No imaginário infantil, só aquela primeira imagem de ambientação, junto ao monstro da semana habitante daquele cenário, era suficiente para aguçar sua curiosidade, mesmo que a desenvoltura dos mistérios na prática tivesse no máximo dois suspeitos, o que de certo modo acabava sendo bem óbvio, o intuito era ser estimulante no processo, como um aprendizado. As resoluções eram didaticamente explicativas, expositivas, mas com um tratamento progressivamente educativo que, na pele de personagens carismáticos, dava prazer à criança em resolver junto, e ainda aguçava seus sentidos e entendimentos morais, tudo em uma sintonia bastante objetiva.

Esse dinamismo era criado perfeitamente entre a justaposição das imagens aos sons, que forneciam o entretenimento, as gafes de corrida, os barulhos assustadores de risadas maquiavélicas, faziam as figuras assustadoras serem ainda mais ameaçadoras que seus arquétipos mensuravam. A variedade de criaturas enfrentadas remetentes a típicos medos infantis, ou figuras clássicas da Universal, constituíam uma galeria de episódios memoráveis, tanto pela criatividade gráfica de seu design aliado aos cenários como pela forma intuitiva como esse medo era quebrado, conforme as resoluções dos mistérios apontava um direcionamento lógico realista, contudo sem impedir de abraçar a liberdade do desenho, soluções por sua vez mirabolantes numa física criativa e bem-humorada.

Caracteristicamente, isso não iria mudar ao longo das próximas séries do Scooby, o corpo se manteria firme, passando por pequenas adaptações, algumas mais perceptíveis que as outras. Na segunda temporada, por exemplo, já houve algumas dessas mudanças, como os trechos dedicados a perseguições movidas por trilhas sonoras mais leves não pertencentes aos temas clássicos que podiam ser julgados até como tenebrosos. Logo, de uma temporada para outra existe uma sutil mudança no tom para algo mais infantil, muito por se ter uma autoconsciência do roteiro no impacto anterior de sua decupagem. Isso se reflete nos monstros da temporada, voltados a figuras mais humanoides ao invés de fantasmagóricas, a dualidade entre o médico (as pessoas) e o monstro fica mais clara tematicamente. Não que isso seja um problema, afinal, no didatismo temático anterior já ficava clara essa racionalização do sobrenatural, onde os monstros na verdade escondiam sob as máscaras humanos, malvados, bandidos.

Isso foi ganhando ressignificação com o tempo; olhando hoje soa até moralmente superficial, mas não torna o desenho datado, assim como os clássicos da Disney da década de 40 não estão de um modo geral pela forma objetiva da linguagem como entretenimento, eles refletem bem sua época, e no caso de Scooby-Doo, dentro daquela autoconsciência e micro variação das soluções de mistérios, essa moralidade direta propõe mini subversões e aponta o culpado para o inocente para surpreender na resolução do mistério. Isso acontece no episódio de Mister Hygh, onde o cientista deixa pistas que apontam para a governanta, mas no final era o próprio que se fantasiava, e no episódio Fantasma Sem Cabeça, em que o mascarado queria afugentar os vizinhos perto de sua mansão para que ele conseguisse a sua fortuna de herança antes que possíveis ladrões aparecessem, a turma até o ajuda a despistar um deles, que acaba se tornando o verdadeiro vilão da história.

O sucesso de Scooby-Doo foi estrondoso num nível surreal, graças à impressionante qualidade gráfica e à fórmula basicamente imortal que não envelheceu um dia dentro do que se estipula que um desenho animado conquiste. Equilibrada em praticamente todos os episódios, com exceção talvez dos três últimos da segunda temporada, por repetirem conceitos que outros capítulos já utilizaram numa certa preguiça, mas isso não diminui em nada o valor geral da série, por todos aqueles fatores, mas principalmente pelo carisma do grupo de jovens e um cachorro enxerido, personagens que passaram por todas as gerações e são e serão lembrados para sempre por esta obra-prima dos desenhos animados.

Obs: Existe uma terceira temporada, de 1978, um revival, que não foi levada em consideração na crítica, pois naquele momento já havia outras séries do Scooby-Doo em andamento, mais especificamente O Show de Scooby-Doo!, iniciada em 1976 e finalizada na sua última temporada em 1978, em conjunto com essa terceira temporada de Cadê Você, que será devidamente comentada na crítica do show referente.

Scooby Doo, Cadê Você? (Scooby Doo, Where Are You? – EUA, 1969/1970)
Criadores: Ken Spears, Joe Ruby
Diretores: Joseph Barbera, William Hanna
Roteiristas: Joseph Barbera, William Hanna, Tom Dagenais, Larz Bourne, Ken Spears, Joe Ruby, John Strong, Bill Lutz
Elenco (vozes originais): Don Messick, Casey Kasem, Nicole Jaffe,  Vic Perrin, Hal Smith, John Stephenson, Jean Vander Pyl, Stefanianna Christopherson, Frank Welker,  Heather North, Susan Stewart, Michael Stull, Rosalinda Galli, Emanuela Fallini, Barry Richards e George A. Robertson.
Elenco (dublagem brasileira): Orlando Drummond, Mário Monjardim, Luis Manuel, Cleonir dos Santos, Juraciara Diácovo, Nair Amorim, Allan Lima (Dublasom Guanabara)
Duração: duas temporadas, 25 episódios (1ª temporada – 17 episódios / 2ª temporada – 8 episódios), 22 minutos cada episódio

IANN JELIEL . . . Um aspirante a jornalista que acabou descobrindo no cinema um refúgio para sair da engrenagem robótica da sociedade, como em "Matrix", onde tudo segue uma rotina protocolar implantada na mente. Olho a sétima arte como um quebrador desses paradigmas, capaz de nos fazer refletir sobre qualquer espectro existencialista da humanidade, e ao mesmo tempo nos encantar e entreter com suas milhares de histórias transcendentais em corpo e alma. Por isso, escrevo sobre ela, pois foi nos textos críticos que aprendi a olhá-la dessa forma libertadora, e espero libertar muitos da mesma forma.