Crítica | Scooby-Doo e o Lobisomem

Quando foi estabelecido, já nos primeiros minutos desta animação, que Salsicha estava de namoradinha, eu imaginei que algo de muito errado iria acontecer aqui. Esse tipo de interesse amoroso para personagens concebidos como solteirões quase sempre terminam com elementos problemáticos acumulados no decorrer do roteiro, e isso muitas vezes tem a ver com o fato de que esses enredos não sabem lidar com a novidade amorosa na vida dos solteirões (lembrem-se da assediadora do Salsicha em Irmãos do Pavor e em como já foi difícil marcar o humor em relação a ela a longo prazo… e nem era uma namorada fixa!).

Jim Ryan já inicia demonstrando o que este filme realmente será: uma paródia de Corrida Maluca, outro sucesso da Hanna-Barbera. E desde que isso fica claro para o público, o texto faz questão de não largar mais o osso, centrando toda a ação de terror justamente nesse ambiente, o de uma corrida que acontece em dois lugares: primeiro nos Estados Unidos, onde Salsicha, Scooby e Scrappy guiam o Double-Dyno Turbo Blaster, um dos carros mais loucos e mais legais em uma importante corrida, com Googie, a namoradinha, fazendo uma vergonhosa torcida; e segundo na Transilvânia, onde Drácula discute os termos de uma corrida dos monstros e se dá conta de que o lobisomem não estará lá para disputar. Então surge a “incrível” ideia de se “fazer” um novo lobisomem… e um certo livro da biblioteca de Drácula mostra a foto de Salsicha como sendo o candidato perfeito para isso.

É nesse ponto que a descida de qualidade da obra começa, e como acontece muitas vezes nas versões fílmicas da franquia Scooby-Doo, não é nem tanto o conteúdo específico do roteiro que incomoda, mas a insistência em coisas estúpidas que fazem a história simplesmente travar e se tornar enjoativa. Por mais bizarro que seja pensar que um livro teria a foto de Salsicha como um “candidato perfeito para lobisomem“, o espectador dá um bom desconto pensando que “é um livro do Drácula! Tudo é possível!“. Mas são tantas ações estranhas e tanta coisa intragável que aparece no meio do caminho que o espectar vai paulatinamente se afastando da obra, sendo novamente puxado a cada gracinha ou cena realmente elogiável que se apresenta adiante. Chega a ser cansativo.

De certa forma há uma boa semelhança na escolha do elenco monstruoso dessa animação com aquele que tivemos em A Escola Assombrada. Em ambos os filmes há uma reunião de monstros clássicos do cinema ou do imaginário do terror como um todo convivendo num mesmo espaço. Aqui, porém, não há o fator-fofura e nem a elegância com que o roteiro de Glenn Leopold trabalhara as Garotas-Assombração em Ghoul School. As ações neste Scooby-Doo e o Lobisomem estão bem mais isoladas, os atos não são encadeados de maneira orgânica e cenas como a festa dos monstros ou as missões de Brunch e Crunch (que possuem dublagem hilária) simplesmente não funcionam bem em todo o seu desenvolvimento.

Salsicha transformado em lobisomem é uma fofura só, e como ele não precisa resolver nenhum mistério aqui, ‘apenas’ dirigir a sua Werewolf Wagon numa corrida absurda para poder voltar à forma huamana, podemos aproveitar todo o período em que ele disputa contra as seguintes carrancas: Freaky Frankenwagon (dirigida pelo casal Frankenstein e Repulsa), Slime Speedster (dirigido pelo Monstro do Pântano), Couldron Coupé (dirigido pelas irmãs bruxas), Bone Bomber (dirigido pelo esqueleto Bonejangles — não pude evitar me lembrar de Mr. Bojangles na hora em que ouvi esse nome), Mummymobile (dirigido por uma múmia, claro), Split-Personality Special (dirigido pelo Médico e o Monstro) e finalmente Dragon Dragster (dirigido por uma monstruosa libélula).

A grande Monster Road Rally é divertida até certo ponto, mas cai na mesma armadilha de Irmãos do Pavor, repetindo ângulos e dinâmicas de gags de desastre ou fuga de Salsicha e Scooby (com sua namoradinha, que tem um importante papel durante a corrida, juntamente com Scrappy) dos mais diversos perigos. O mesmo vale para a burrice do Conde Drácula, de seus minions e a estranha presença de Vanna Pira, sua parceira. Em relação ao vampiro, porém, devo dizer que a dublagem do britânico Hamilton Camp é simplesmente sensacional, com seu sotaque à la Bela Lugosi que me fazia sorrir toda vez que pronunciava Shaggy como “Xáaa-Guíii“. Scooby-Doo e o Lobisomem é um filme fora da curva (hehehe) na franquia, mas tem a sua graça e é capaz de divertir em uma porção de cenas, até com seu final que sugere um “caso aberto”, de uma ameaça não necessariamente finalizada para os pobres Scooby e Salsicha.

Scooby-Doo e o Lobisomem (Scooby-Doo and the Reluctant Werewolf) — EUA, 1988
Direção: Ray Patterson
Roteiro: Jim Ryan
Elenco: Don Messick, Casey Kasem, Hamilton Camp, Jim Cummings, Joan Gerber, Ed Gilbert, Brian Stokes Mitchell, Pat Musick, Alan Oppenheimer, Rob Paulsen, Mimi Seaton, B.J. Ward, Frank Welker
Duração: 92 min.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.