Home TVTemporadas Crítica | Scooby-Doo e Scooby-Loo – A Série Completa

Crítica | Scooby-Doo e Scooby-Loo – A Série Completa

por Iann Jeliel
600 views (a partir de agosto de 2020)

“Tio Scooby! Tio Scooby! Deixa-me pegá-lo, deixa comigo!”

Leia, aqui, as críticas de todo nosso material de Scooby-Doo.

Entre três séries que seguiam uma mesma e mágica fórmula e uma outra crossover, Scooby-Doo precisava – ao olhar dos produtores – de uma renovação, especialmente para novos personagens. A abertura foi dada em O Show de Scooby-Doo com a introdução de Scooby-Dão que deu muito certo, dentre outros personagens que não tinham uma constância de aparições. A Hanna-Barbera buscava alguém para realmente dividir o protagonismo, e assim se dá a criação do ilustre e insuportável sobrinho de Scooby, o Scooby-Loo, como fonte principal para esse novo vigor à fórmula e a porta de entrada explícita para um rótulo mais infantil ao desenho. A priori esse não é o problema, afinal, especialmente na fase clássica, o clima nunca foi adulto, apenas alegavam que imagética e sonoramente a construção das criaturas, cenários e barulhos passavam um caráter sombrio e até mesmo perturbador demais para as crianças.

Ao longo de uma maratona, é bem perceptível essa transformação de tom. Se compararmos Cadê Você com O Show, vemos que é basicamente a mesma identidade, só que pegando mais leve na elaboração visual do mistério. Em Scooby-Doo e Scooby-Loo, ao menos na primeira temporada, onde os episódios ainda eram no formato tradicional, esse tom mais leve de O Show se manteve, sem a mesma criatividade, mas com lampejos de divertimento bem consideráveis. O tom pastel e relaxadamente mais cômico permitiu algumas subversões interessantes não vistas ainda, por exemplo, direcionar Daphne como uma suspeita de ser a vilã mascarada. Isso de colocar um dos membros como suspeito não havia sido feito antes, e o resultado é bem satisfatório. A primeira leva de 16 episódios com 22 minutos, de um modo geral, apresenta monstros mais borrachudos e assumidamente mais fakes, mas ainda sabem articular bem os mistérios envolvidos por trás deles, e o protagonismo ainda consegue ser bem dividido entre todos os membros.

Se a série fosse só ela – como em algumas classificações é, mas considere oficialmente que não (entro em mais detalhes num futuro Entenda Melhor) -, a criação de Scooby-Loo não seria um erro tão grotesco, afinal, sua chatice é ignorada até mesmo pelos próprios membros da Mistério inicialmente, porque era muito um teste de como iria sair no vigor da fórmula. Aparentemente, as crianças – e confesso que em algum dia devo ter sido uma delas – gostaram do personagem e do inevitável contraste que ele fazia com o tio. Era como se fosse a representação delas ali, que já sabiam que os monstros eram de mentira e queriam lutar contra eles para atiçar a imaginação, mas naquela realidade não teriam muita chance devido ao tamanho. Acho bacana pensar a criação dele nessa perspectiva, mas acontece que daí pra frente, pelo menos nessa série ela não seria pensada dessa maneira.

O último capítulo dos tais 16 iniciais criou uma armadilha que a série iria demorar para desapegar, apostando num capítulo solo com Scooby-Doo, Salsicha e Scooby-Loo enfrentando bandidos comuns sem a ajuda de Fred, Daphne e Velma. E a partir dali, as novas temporadas não contariam mais com a turma do mistério, aliás, não teria mais nenhum mistério à frente. A segunda, a terceira e a quarta temporada (onde a série é oficialmente finalizada) são um compilado de 99 curtas divididos em 33 episódios (13 na segunda e quarta temporadas, 7 na terceira) com 3 curtas para formar um episódio, de desventuras aleatórias e completamente sem noção ou unidade da tríade mencionada. E sem brincadeira, não há absolutamente nenhum que funciona, em qualquer nível. Eles estão divididos entre suportáveis, ruins e ofensivos à essência do desenho.

Nada contra as mudanças, mas elas precisam vir aderidas de uma proposta clara que simplesmente não existe nesses curtas. Parece que os produtores não sabiam como renovar e decidiram apelar atirando para todos os lados, e quando eu falo isso, leve da forma mais literal possível, porque acontece de TUDO nesses curtas. Eles vão ao espaço, à pré-história, ao mundo Alice no País das Maravilhas, ao mundo de O Mágico de Oz, ao futuro high-tech de carros voadores, a Atlantis, ao céu com pé de feijão gigante… Transformam-se em lobisomens, vampiros, robôs, super-heróis, encolhem de tamanho, bebês… Poderia passar horas citando exemplos, mas o que importa é que em todas as exemplificações, os personagens reagem a tudo de forma absolutamente comum, sendo que o universo de Scooby-Doo sempre pregou na essência o realismo, livre pelas vontades do desenho, mas verossímil dentro de uma perspectiva que o fantasioso era tratado com ceticismo de que havia um humano ali por trás.

Os humanos são vilões aqui também, mas ao invés de monstros disfarçados, são bullies ou bandidos completamente genéricos e/ou bizarros (há um que é vestido de uma gata humanoide tipo Cats que não fica claro se é humano ou não). Há uma grande parcela de episódios onde o único objetivo de Salsicha e os Scoobys é fugir ou apostar corrida contra alguns desses estereótipos malucos – cito o segmento de um dono de restaurante que não aceitava cachorros por lá, mas eles entram mesmo assim, e ao invés de simplesmente expulsá-los, o dono começa a persegui-los (??). Outra parcela é dedicada à nunca estabelecida agência de detetives criada por eles – algo completamente surreal se tratando de Salsicha e Scooby –, teoricamente dedicando os episódios investigativos que mais se aproximam da fórmula clássica, mas neles não há qualquer tesão em articular uma situação interessante, no mais é só o trio dinâmico tentando capturar quem quer roubar dinheiro.

Antes que me esqueça, importante mencionar que dos 99 curtas, 13 dos 39 da última temporada são destinados a um outro novo personagem: Yabba-Doo e o deputado Dusty, que junto a Scooby-Loo protagoniza aventuras completamente separadas num velho oeste absolutamente sem graça. Pois bem, todos os curtas são muito repetitivos com a mesma historiazinha de capturar bandido, com o agravante de não ter Salsicha e Scooby – coitados, ainda nos divertiam por mais que várias de suas características dentro da lógica de mistérios fossem abandonadas – que ainda são personagens divertidos apesar dos absurdos ao seu redor, diferente da nova dupla, simplesmente sem qualquer personalidade marcante e junto ao Scooby-Loo, então, é que fica mais difícil ainda de gostar deles.

Sem dúvidas, o conglomerado episódico desse período representa a mais baixa qualidade criativa do desenho, embora tenha sido o auge de sucesso mercadológico por não apresentar mais riscos de limitação da classificação indicativa. Ainda assim, foi um preço alto cobrado, e aos poucos foi manchando e delimitando o fim da fase Hanna-Barbera. Uma mancha quando o Scooby-Loo é relembrado em outras oportunidades é sempre em tom traumático, especialmente porque foi difícil desapegar desse personagem inegavelmente problemático, mas que circunstancialmente mais trouxe o problema pela exigência da mudança de forma do que por si só é o principal vilão na degradação da fórmula, até porque teoricamente ele deveria ser a solução de renovação. Infelizmente, não foi assim que rolou, e mesmo que guarde algum carinho pelo personagem na infância, fato é que sua criação foi a pior escolha que o desenho tomou em toda a sua história.

Scooby-Doo e Scooby-Loo – A Série Completa (Scooby Doo and Scrappy-Doo, 1979-1982)
Criadores: Joe Ruby, Ken Spears
Principais Diretores: Oscar Dufau, George Gordon, Ray Patterson, Carl Urbano, Charles A. Nichols
Principais Roteiristas: Glenn Leopold, Mark Evanier, Diane Duane, Willie Gilbert, Duane Poole, Tom Swale, David Villaire
Elenco (Dublagem Original): Casey Kasem, Don Messick, Heather North, Frank Welker, Lennie Weinrib, Patricia Stevens, Jack Angel, Marla Frumkin, John Stephenson, Nicole Jaffe, Phil Hartman
Elenco (Dublagem Brasileira): Orlando Drummond, Cleonir dos Santos, Mário Monjardim, Carlos Marques, Juraciara Diácovo, Aldamária Mesquita, Ricardo Mariano (Estudio: Hebert Richards)
Duração: 4 temporadas – 1ª temporada (16 episódios de 22 minutos) – 2ª e 4ª temporadas (13 episódios, 39 curtas de 8 minutos) – 3ª temporada (7 episódios, 21 curtas de 8 minutos)

Você Também pode curtir

Este site usa cookies para melhorar sua experiência. Presumimos que esteja de acordo com a prática, mas você poderá eleger não permitir esse uso. Aceito Leia Mais