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Crítica | Scooby-Doo: Episódios Especiais – Parte 1

por Iann Jeliel
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  • Leia, aqui, as críticas de todo nosso material de Scooby-Doo. E aqui, todos os compilados de curtas especiais.

No seguinte compilado, passearemos por diferentes episódios de Scooby-Doo que não se encaixam cronologicamente em nenhuma das séries oficiais do desenho. Entraram aqui os especiais de TV de curta ou média duração, os filmstrips educativos, web episodes ou episódios crossover do personagem em alguma outra série animada. Vale destacar que ao longo da minha pesquisa, não foi possível encontrar todos os episódios para assistir. Logo, esses não serão criticados, mas serão mencionados seguindo a ordem cronológica de lançamento desses episódios.
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Crossover com Dinamite, o Bionicão

Dinamite, o Bionicão foi uma aposta grande da Hanna-Barbera, que queria que o desenho fizesse sucesso. Tanto que para isso, usou Scooby-Doo como apoio de audiência, dividindo o horário nobre de exibição com sua terceira encarnação do desenho (O Show do Scooby-Doo), e ainda convidou os personagens a participarem de alguns episódios importantes. No caso, foram três, incluindo aí os dois primeiros episódios do programa, denominados Everyone Hyde! e What Now, Lowbrow?

A intenção da dupla Ken Spears e Joe Ruby (também criadores de Scooby-Doo) era utilizar o crossover como alavanque para o sucesso de um novo desenho de fórmula, mas que acabou não engatando muito e durou apenas uma temporada, limitada pelo fator paródia feito em clara alusão à dupla dinâmica Batman e Robin em sua era de ouro. Além dos dois episódios mencionados, o décimo, denominado The Wizard of Ooze, também conta com a participação da Mistério S.A, a participação mais relevante dentre elas, diga-se de passagem. Nesse episódio, Scooby e Salsicha se vestem de Bionicão e Falcão Azul para ajudarem a verdadeira dupla, no clímax do episódio, no plano final para pegar os bandidos da semana. Já nos outros dois, a ajuda se limita a denominar o paradeiro deles.

Sobre os episódios em si, estruturalmente não há muitas mudanças entre eles. A dupla precisa combater planos megalomaníacos aleatórios que parecem ser muito facilmente resolvíveis, se não fossem as divertidas trapalhadas do Bionicão atrapalhando as resoluções das missões. É preciso que o Falcão Azul esteja do seu lado como voz da razão para que aconteça a fácil captura, uma vez que os vilões não são muito inteligentes, como o próprio cão androide. Parece um tipo de humor cansativo baseado em “burrices” inocentes dos personagens, mas funciona não só pela questão da paródia como, principalmente, pelo espírito infantil muito natural que os desenhos clássicos de Joe e Ken possuem. Traz aconchego ao telespectador, ganhando-o por isso e por seus carismáticos personagens.

Dinamite, o Bionicão (Dynomutt Dog Wonder) – 1X01: Everybody Hyde; 1X02: What Now, Lowbrow; 1X10: The Wizard of Ooze | EUA, 11/09/1976 – 18/09/1976 – 13/11/1976
Criação: Joe Ruby, Ken Spears
Direção: Charles A. Nichols
Roteiro: Jeffrey Scott
Elenco: Frank Welker, Gary Owens, Casey Kasem, Henry Corden, Heather North, Patricia Stevens, Nicole Jaffe, Bob Holt, Larry McCormick, John Stephenson, Lennie Weinrib
Duração: 22 minutos cada episódio
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Filmstrips

Entre 1978 e 1980, a divisão educacional da Hanna Barbera lançou uma série de curtas em formato filmstrip (tiras de filme, imagens estáticas, técnica geralmente usada até o fim dos anos 70 para filmes educativos) visando essencialmente educar o público infantil através da voz de seus personagens queridos. No todo, foram 7 episódios nesse formato, trazendo os mais diversos ensinamentos, desde matérias básicas do colégio até conhecimentos gerais para a vida em sociedade. Dois desses episódios ficaram perdidos no limbo, Black Explorers e Let’s Go to Press (ambos de 1978). Os outros falaram especificamente de gramática, matemática, mercado de trabalho, acne (espinhas) e placas de trânsito.

A estruturação dos curtas-médias segue o mesmo formato padrão para esse tipo de conteúdo: um personagem inteligente (Velma, na função de professora) vai ensinar a personagens leigos (Salsicha e Scooby, na função de alunos) conceitos básicos do assunto para ir aprofundando conforme a delimitação de perguntas e dúvidas surgidas pelo caminho das explicações. Tudo bem que a intenção é explicitamente ser didático, mas os curtas sofrem de poucos recursos visuais para chamar atenção. Além do formato filmstrip ser cansativo para esse tipo de revés – troca-se as imagens, como slides, com um mesmo barulhinho que enjoa -, podia-se criar alguma sitcom ali entre os personagens para que tornasse mais orgânicas as explicações. Fica bem forçado e desinteressante, mesmo que exista bastante valor conteudista, especialmente no tratamento de conhecimentos gerais (como cuidar de espinhas, prudências na hora de dirigir, estratégias para entrar no mercado, entre outras).

Scooby Doo Filmstrips (EUA, 1978-1980)
Contendo os curtas: The Great Grammar Hunt (1978), Scooby-Doo Locates the Locus (1978), Black Explorers (1978), The Signs of the Times (1978), Let’s Go to Press (1978), Help Wanted (1979), Skin Deep (1980)
Duração: 15 minutos em média cada episódio.
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Crossover com Johnny Bravo

Já no seu terceiro episódio, Johnny Bravo conta com um curta com participação especial de Scooby-Doo e da Mistério S.A, em uma das primeiras das várias participações especiais de outros programas presentes no desenho. O personagem-título em questão pede carona para a equipe até a casa de sua tia, que não coincidentemente é assombrada por um fantasma que quer afugentá-los dali. O fantasma em questão – e isso é bem óbvio – é a própria tia, portanto, a brincadeira do crossover não está no fator “mistério” da coisa, onde o Johnny ajudaria, dentro de uma estrutura padrão e curta já manjada de Scooby-Doo, a turma a resolvê-lo. Não, o intuito aqui, assim como nos demais episódios do desenho em questão, está em criar uma nova jornada de explicitação à personalidade problemática do protagonista.

Johnny Bravo nunca exaltou o caráter narcisista e masculino tóxico de seu personagem sem uma via crítica muito forte no humor autodepreciativo. A série sempre foi muito hábil em transitar entre esse território dentro da brincadeira de estereótipos – no caso, nesse episódio, muito direcionados à reação de Daphne e Velma à figura de Bravo – como forma de desconstrução ou didatização de uma masculinidade problemática. E aí, Daphne, a “patricinha”, como várias outras ignoram suas paqueras quase assediadoras, enquanto Velma, a “inteligente”, sente-se atraída por elas, para não ser correspondida e expor a visão objetificadora que ele tem das mulheres, somente interessado no parâmetro da beleza física e nem interessado em conhecer a possível beleza intelectual, até porque o personagem propositalmente não tem intelectualidade, justamente para reforçar que seu estereótipo de “hétero top” e convenções usadas por eles são de fato burras.

É um crossover bem interessante, até para desconstruir um pouco essas próprias figuras femininas de Scooby de seus estigmas, mesmo que posicione Fred gratuitamente no mesmo estigma de Johnny quando a personagem segura Daphne no colo e dá uma piscadinha para a câmera, além de sua tia, interessada no Salsicha ao fim do episódio, mostrando que a problemática pode ultrapassar figuras masculinas e se faz presente em outros gêneros e idades. Enfim, mas aí pode ser até viagem da minha parte porque existe também no desenho um aspecto nonsense encaixado ali para fazer a cíclica da piada funcionar enquanto entretenimento. E sim, é deveras muito divertido.

Johnny Bravo – 1X03: Bravo Dooby Doo | EUA, 21 de julho de 1997
Criação:
Van Partible
Direção: John McIntyre
Roteiro: Michael Ryan
Elenco: Jeff Bennett, Hadley Kay, Casey Kasem, Frank Welker, Heather North, B.J. Ward, Greg Burson
Duração: 11 minutos
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Scooby-Doo: Atrás das Cenas

Consta de uma série de 8 curtas promocionais da Cartoon Network de 1 minuto cada, em que se parodia uma entrevista com a turminha do mistério, rememorando suas aventuras na série mais clássica, Scooby-Doo: Cadê Você. O mais divertido aqui é como a estrutura extremamente dinâmica da montagem dos episódios consegue traçar piadas em timing perfeito para o tom de cada assunto que se leva. O primeiro episódio brinca com a percepção de origem da Mistério S.A, algo que nunca é mencionado na primeira série, nem nas outras mais antigas. Eles já começam como turma formada, ou seja, material é o que não falta para brincar com a motivação canônica do surgimento da turma, e é incrível como em apenas um minuto o curta consegue dar uma percepção completa e adequada dentro dos parâmetros das antigas animações.

Os episódios posteriores são tão bons quanto pois vão em cada personagem em específico, desmistificando suas personalidades em cada origem particular. O formato de entrevista ajuda a tornar mais engraçado porque é o próprio personagem narrando a história enquanto a turma vai se inserindo para fazer piadas dentro de sua química tradicional, tornando muito saudável e natural a zoação com seus estereótipos. Os dois últimos não são tão excelentes quanto os seis primeiros, mas ainda muito bons. O penúltimo é um episódio sobre os vilões que não é tão bom em termos pastelões pelas redublagens, mas é inteligente por fazer piada com as armadilhas em que todos caem para serem impedidos pelas “crianças enxeridas” e por fazer um compilado legal de melhores momentos de Cadê Você. Já o último faz uma piada com a perspectiva cíclica infinita do desenho, quando os personagens são perguntados sobre o que irão fazer no futuro. Enfim, no balanço geral, é uma minissérie de curtas promocionais fantástica que humoriza inteligentemente as convenções do desenho clássico para enaltecê-lo como merece.

Scooby-Doo: Atrás das Cenas (Scooby-Doo: Behind The Scenes | EUA, 1998)
Material promocional da Cartoon Network
Contendo os Curtas: Case One: How They Got Started;  Case Two: That Meddling Dog, Scooby-Doo; Case Three: That Meddling Hippee, Shaggy; Case Four: That Meddling Kid, Daphne; Case Five: Velma, That Meddling Brain; Case Six: Fred and That Meddling Ascot; Case Seven: Those Finger-Pointing Villains e Case Eight: Those Meddling Kids, Together Again
Duração:
1 minuto e meio cada, aproximadamente.
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O Projeto Scooby-Doo

Clara paródia ao filme A Bruxa de Blair – tanto que o curta saiu no mesmo ano –, mas que não se resume a isso. O formato de sobreposição do cartoon a imagens reais reconstruídas e semelhantes aos cenários do filme criam um efeito dúbio à referência, que não só se comporta como comédia de Scooby-Doo, dentro do mesmo mistério do filme original, como captura a atmosfera do filme original para aplicar num episódio de Scooby-Doo. Em outras palavras, preserva-se a estética found footage não só como uma piada, mas também para níveis de tensão.

O que incrivelmente funciona, porque é literalmente a turma do Scooby lidando com a realidade fora do desenho, o que pode trazer efeitos imprevisíveis para o curta. Fora que as reconstruções das cenas do original são excelentes. Os personagens escolhidos para reproduzir as falas em um outro contexto, que pensa como seria se fosse em um episódio da série, são cirúrgicos para valorizar a paródia em um terreno não gratuito. Parece um filme de terror onde os personagens se meteram, é engraçado e nervoso em proporções semelhantes, além de ser uma jogada de aproveitamento de marketing não igualmente espetacular, mas tão boa quanto a que foi feita para vender A Bruxa de Blair original, mas nesse caso, vender a imagem de Scooby-Doo.

O Projeto Scooby-Doo (The Scooby-Doo Project | EUA, 1999)
Direção: Chris Kelly, Larry Morris, Steve Patrick
Roteiro: Chris Kelly, Larry Morris, Steve Patrick
Elenco: Scott Innes, Frank Welker, Mary Kay Bergman, B.J. Ward
Duração: 9 minutos
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Crossover com Coragem, o Cão Covarde?

No ano 2000, a Cartoon Network fez vários curtas promocionais que juntavam Scooby-DooCoragem, o Cão Covarde. À época, especulava-se sobre um episódio crossover entre os dois desenhos para um especial de Halloween. O episódio em si, infelizmente, nunca ganhou a luz do dia, e nem pode ser encontrado, mas existem provas de que ele foi sim feito e tinha 20 minutos de duração. Então sobre o que é este mini comentário crítico? Justamente sobre os curtas promocionais desse episódio que juntos formam 14 minutos de conteúdo em 16 curtas. Apesar de não conseguir assistir a todo esse material (nem metade na verdade), e muitos deles terem um caráter basicamente de sneakpeak, há pelo menos 3 deles vistos que valem a menção, principalmente por cumprirem precisamente o papel de vender essa especial surpresa – que até hoje se fala que vai acontecer, até mesmo em formato de filme.

A ideia de juntar esses dois desenhos parece uma combinação perfeita, não só pelos dois cachorros medrosos, mas pela ambientação assustadora e tênue entre o sobrenatural e o conspiratório. Dois dos curtas que menciono trazem à tona exatamente essa ideia. O primeiro se inicia com a máquina de mistério quase sendo abduzida por ET’s, mas que a turma achava que se tratava da falta de gasolina. E então, eles acham a icônica cabana abandonada no deserto com Estácio e Muriel para pedirem gasolina emprestada. Não encontram a gasolina, mas encontram o casal de velhinhos afim de contar umas histórias para eles sobre o que acontece naquele local. O segundo curta é justamente eles contando essas histórias, desacreditadas pelos personagens de Scooby-Doo, mas obviamente deixando os cachorros completamente amedrontados. O último que vale uma menção envolve Coragem sonhando com monstros que são na verdade Salsicha e Scooby mascarados, o que também reforça o potencial do crossover nessa noção de real vs. imaginário. Torceremos para que um dia isso de verdade ocorra.

Scooby-Doo/Coragem o Cão Covarde (Scooby-Doo/Courage the Cowardly Dog | EUA, 2000)
Material promocional da Cartoon Network
Duração: Aproximadamente 14 minutos
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A Noite dos Doo Vivos

Mais um curta paródia, mas diferente do O Projeto Scooby-Doo, não se trata de uma homenagem ao filme de Romero, A Noite dos Mortos-Vivos, a não ser a brincadeira do nome. É uma piada mais abrangente com todo o formato do desenho, mais especificamente aquele da fase crossover na série Os Novos Filmes de Scooby-Doo. A turma encontra dois personagens do stand-up, Gary Coleman e David Cross, então o tom de comédia já é estabelecido a partir disso. Logo na primeira cena, o episódio já faz piada com o fato de a Máquina de Mistério sempre parar/quebrar nos lugares mais inapropriados, o que faz as crianças bisbilhotarem por lá. Gary conserta o carro duas vezes antes de Fred propositalmente bater de novo para eles finalmente pararem e se depararem com um mistério. E é esse tipo de humor que se estenderá pelo episódio.

Piadas sobre olhos em quadros que ficam observando a turma, sobre o fato de Salsicha e Scooby sempre encontrarem o monstro, sobre a divisão para procurarem por pistas. Enfim, o episódio vai em todos os lugares para tentar brincar com as percepções tradicionais da turma em um típico humor autodepreciativo. Embora esse tipo de comédia me incomode, aqui parece ter um direcionamento saudável, tanto que é utilizado o mesmo formato de cartoon antigo, justamente para trazer esse jogo de contrastes do efeito mágico que aquelas tradições trazem. Não parece espertinho, mas ciente da linha tênue em que a comédia deseja chegar. Um carnavalesco – e aí entra a participação da banda Big Bad Voodoo Daddy, como terceiro crossover -, mas direcionado saudavelmente a um espectro de homenagem ao legado deixado por tal fase do desenho.

A Noite dos Doo Vivos (Night of the Living Doo | EUA, 2001)
Direção: Chris ‘Casper’ Kelly, Jeffrey G. Olsen
Roteiro: Chris ‘Casper’ Kelly, Jeffrey G. Olsen
Elenco: Frank Welker, B.J. Ward, Grey DeLisle, Scott Innes, Gary Coleman, David Cross, Big Bad Voodoo Daddy, Mark Hamill
Duração: 16 minutos

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