Crítica | Scooby-Doo na Ilha dos Zumbis

Uma das coisas mais interessantes que pode acontecer com um personagem ou equipe totalmente focada na ciência, na lógica, na explicação racional da realidade, é a possibilidade de um dia encontrarem uma situação que não só desafia essa visão, como também muda a opinião desses indivíduos para sempre. Aqui em Scooby-Doo na Ilha dos Zumbis (1998), a equipe de investigadores do sobrenatural deparam-se “pela primeira vez” com um mistério que a lógica e a racionalidade não podem resolver, e é maravilhoso vê-los numa tentativa desesperada de provar, negar e finalmente aceitar a inexplicável realidade diante de seus olhos.

Escrito por Glenn Leopold, o roteiro tem um ponto de partida uma separação anterior do time. Este é um daqueles inícios que nos chamam imensamente a atenção, pela novidade que traz. Quando acompanhamos aventuras de equipes por um longo tempo (nos quadrinhos, em franquias como Scooby-Doo e em tantos outros exemplos), não imaginamos o que será de cada uma das partes quando o grupo, enfim, se separar. Aqui, porém, isso acontece, e a primeira parte da trama lida justamente com essa vida pós-Mistério S/A, com cada um dos ex-integrantes fazendo o trabalho que gosta, mas não estando plenamente feliz com isso.

É coerente vermos Daphne e Fred trabalhando na TV, Velma administrando uma loja de livros de terror e mistério e Salsicha e Scooby trabalhando como fiscais de bagagem num aeroporto, confiscando toda a comida contrabandeada que conseguem identificar nas malas. Trata-se de um começo engraçado e de aura realista, mas o impacto dessa separação se dissipa rápido, poque uma certa necessidade e uma boa ocasião aparecem para juntar novamente o grupo, que segue para a região pantanosa do Estado da Louisiana, onde vão à procura de casas assombradas para um novo programa de Daphne.

O elemento mais importante desta animação é a sua direção de arte e fotografia. Os desenhos aqui são maravilhosos, especialmente as paisagens, com belíssimos planos abertos pelo pântano em diversos momentos do dia; a propriedade de Simone (que tem esse nome por fazer referência à personagem-gato de Simone Simon no filme Sangue de Pantera), com sua plantação de pimentas; e o mistério da casa, que ao que tudo indica, é “verdadeiramente assombrada“. A beleza da direção de arte aqui se mistura com o estilo simples da animação e a comicidade macabra do enredo, tornando a aventura um retorno e tanto para a equipe. Aqui eles se deparam com uma ameaça que desafia o que imaginavam da ocorrência do sobrenatural, cada um lidando com essa novidade a seu modo.

É evidente que um conjunto de exageros, bobagens meio fofas, conveniências e resoluções absurdas do roteiro aparecem aqui, o que não deve ser uma novidade para um espectador da franquia ou de produções endereçadas a uma baixa faixa etária. O quanto isso é aceitável ou é interessante depende de cada espectador, mas penso que o roteiro não é beneficiado, mesmo dentro de sua proposta, por parte dessas decisões, especialmente no ato final da história. O desfecho e a partida da equipe sem um documento que prove a experiência que viram é uma daquelas fatalidades esperadas diante de um tema inacreditável. Um aprendizado curioso, meio traumático e hilário, à sua maneira, servindo de mudança de perspectiva para os medrosos, valentes, crentes e céticos. Nada como zumbis em cena para ensinarem uma boa lição a todos.

Scooby-Doo na Ilha dos Zumbis (Scooby-Doo on Zombie Island) — EUA, 1998
Direção: Hiroshi Aoyama, Kazumi Fukushima, Jim Stenstrum
Roteiro: Glenn Leopold
Elenco: Scott Innes, Billy West, Mary Kay Bergman, Frank Welker, B.J. Ward, Adrienne Barbeau, Tara Strong, Cam Clarke, Jim Cummings, Mark Hamill, Jennifer Leigh Warren, Ed Gilbert
Duração: 77 min.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.