Crítica | Scream – 1ª Temporada

  • Leia a crítica dos episódios aqui.

Há determinadas produções culturais que são alvo de adoração por determinados grupos, sendo a franquia Pânico um desses objetos de culto. Traze-la para o formato televisivo foi uma aposta corajosa da MTV em 2015, afinal, com exceção de Wes Craven e Kevin Williamson nos bastidores, responsáveis pela produção executivo e suporte de algumas conexões dramáticas, respectivamente, a série não trouxe nenhum dos personagens do universo cinematográfico. O antagonista mascarado estava de volta, por sua vez, mas ainda assim não parecia suficiente, pois se não bastasse a ausência de Sidney, Dewey e Gale, a série também havia se desligado da icônica máscara original, um pecado de proporções bíblicas para os apreciadores do estilo slasher da franquia Pânico.

Foi assim que Scream se estabeleceu em seu primeiro ano, com 10 episódios que não chegam a ser desastrosos, mas sequer conseguem alcançar qualquer comparação saudável com os quatro filmes produzidos entre 1996 e 2011. Visualmente eficientes e bem conduzidos sonoramente, o passo-a-passo detetivesco dos episódios causam o prolongamento desnecessário do mistério que seria resolvido de maneira tranquila em 80 minutos de um telefilme óbvio. Exibida entre 30 de junho e 01 de setembro de 2015, a primeira temporada apresentou ao público uma abertura de sete minutos com o habitual assassinato estabelecedor do clima de horror, para logo mais, “desenvolver” o foco central do conjunto de capítulos, isto é, a trajetória de Emma Duval (Willa Fitzgerald), jovem envolvida numa redoma de segredos obscuros semelhantes ao de Sidney na franquia cinematográfica.

Crimes do passado, segredos maternos, ligações perigosas e inesperadas entre personagens, dentre tantas outras escolhas narrativas que buscaram emular alguma coisa do filme. As comparações entre Emma e Sidney param exatamente neste histórico de personagem. O que a final girl fílmica tem de forte e esférica falta na protagonista televisiva, lenta, apática, vazia e expressiva como uma folha de papel em branco. Dizem que uma folha nestas condições tem a possibilidade simbólica de designar potência, pois pode ser algo em aberto para reflexões de cada um diante do espaço disponibilizado. Se formos pensar desta maneira, Emma está mais para um rascunho ordinário de personagem, jogado na lixeira após a convicção de seu mal funcionamento dramático.

Desta maneira, não nos importamos com os personagens centrais. Talvez um ou dois consigam a nossa simpatia, mas não é preciso mais que quatro episódios para desistirmos de amá-los. São planos, pouco interessantes, com necessidades dramáticas e conflitos internos e externos sem alguma expressividade, tal como a protagonista e sua oferta de catarse anêmica. Diante do exposto, eis o grande problema da versão televisiva da história que Kevin Williamson escreveu e Wes Craven executou em 1996: falta envolvimento. Até mesmo a personagem de Drew Barrymore na abertura do filme nos cativou de alguma maneira, o que ocasiono uma torcida para que conseguisse se livrar das punhaladas de Ghostface, “monstro” que na série, ganhou voz de Mike Vaughn e desempenho físico de Alec Rayme.

Com episódios dirigidos por James Travis, Denis Widmyer, Brian Dannely, Rodman Flender e outros, guiados pelos roteiros escritos, em sua maioria, por Jay Beattie, Jill E. Blotevogel, Dan Dworking, David Coggeshall, dentre outros, Scream teve condução sonora de Jeremy Zuckerman, eficiente no trabalho de elaborar texturas musicais para as imagens captadas pela direção de fotografia de Alejandro Martinez e Yaron Levy (também colaborador da segunda temporada). O design de produção de James Hinkle, Rusty Smith e Bruton Jones apresenta similaridades com os aspectos visuais dos filmes, num trabalho cuidadoso de ornamentar ambientes como a escola, as casas e estudar os espaços cênicos externos, desertos e sombrios, mesmo em cenas diárias.

Para um programa com 10 episódios, o desenvolvimento de Scream ficou a desejar, algo que infelizmente anula os desempenhos da equipe técnica, pois a produção não é um documentário sobre como fazer trilhas e cenografia de séries e filmes de terror. Assim, criamos algum laço com Brooke Maddox (Carlson Young), a “patricinha” filha do prefeito Quinn Maddox (Bryan Batt), garota meio rebelde e desenvolvida com alto teor sexual, alguém que pelo arquétipo slasher da mulher desinibida sexualmente, jamais teria a chance de sobreviver. Noah Foster (John Karma) representa uma versão nerd de Randy (Jammie Kennedy), morto em Pânico 2, algo que inclusive falta em Scream: a aniquilação de personagens importantes, tendo em prol o desenvolvimento catártico da relação entre público e série.

Neste quesito, os realizadores deveriam inspirar-se mais em Game of Thrones e esquecer qualquer relação de piedade, tal como faz a tediosa The Walking Dead há temporadas. De volta aos personagens, o jovem Foster funciona bem nos primeiros episódios, mas depois se torna uma versão antipática e verborrágica de Randy, arauto da metalinguagem e da ironia, marcas do estilo Pânico de narrar. Temos ainda Kieron Wilcox (Amadeus Serafini) e alguns personagens adultos, em especial, a Sra. Maggie Duval (Tracy Miadendorf), mãe de Emma, alvo central da ira do psicopata mascarado e encapuzado. Nada, no entanto, torna-se mais hediondo narrativamente que a presença de Audrey Jensen (Bex Taylor-Klaus), garota que também é alvo e pode ser a próxima vítima, mesmo que no encerramento da temporada deixe a entender que possui alguma responsabilidade diante dos acontecimentos criminosos locais.

Irritante, mal desenvolvida e com métodos de atuação que precisam de revisão urgente, vide a sua participação no slasher Parque do Inferno, desempenho dramático ainda pior, cheio de caretas e diálogos horríveis, Klaus não teve a sorte de pegar um personagem bem desenvolvido, algo que acaba por prejudicar a sua presença na série e impedir que a moça encene algo que não seja um conjunto de caretas, falas apressadas e vagas ou antipatia diante das péssimas escolhas enquanto personagem. No desfecho, descobrimos que a responsabilidade pela onda de crimes é da repórter Piper Shaw (Amelia Rose Blaine), obcecada por vingança em nome de Brandon James, o mito urbano de Lakewood. A jornalista chega ao local para realizar o seu programa Autopsy of a Crime, mas na verdade quer destruir vidas, divertindo-se sadicamente ao dizimar as pessoas que gravitam em torno do cotidiano de Emma. Importante observar, por sua vez, que a amiga de Emma resolve os problemas em seu encerramento, mas há um gancho que prometeu ser a alavanca para a temporada seguinte: a motivação da troca de cartas entre Audrey e Piper, além de outros elementos que ficaram nebulosos e no aguardo para resolução.

Scream 1ª Temporada (idem, Estados Unidos)
Criadores: Jill E. Blotevogel, Jay Beattie, Dan Dworkin
Direção: James Travis, Denis Widmyer, Brian Dannely, Rodman Flender
Roteiro: Jay Beattie, Jill E. Blotevogel, Dan Dworking, David Coggeshall, Kevin Williamson
Elenco: Willa Fitzgerald, Bex Taylor-Klaus, John Karna, Amadeus Serafini, Connor Weil, Carlson Young, Jason Wiles, Tracy Middendorf, Bella Thorne, Bobby Campo, Tom Maden, Brianne Tju, Sosie Bacon, Max Lloyd-Jones, Sharisse Baker-Bernard
Duração: 43 min/10 episódios no total.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.