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Crítica | Scream Queens – 1ª Temporada

por Leonardo Campos
168 views (a partir de agosto de 2020)

Os filmes de terror dos anos 1980 estão com a memória resgatada com toda força ultimamente. Entre os marcos do ano passado, tivemos a estreia internacional relativamente bem sucedida de The Final Girls (comédia que satiriza filmes ao estilo Sexta-Feira13) e as estreias de duas séries situadas no universo do slasher movie: Scream (baseada em Pânico, de Wes Craven) e Scream Queens, criada pelo trio Ryan Murphy, Brad Falchuck e Ian Brennan, uma comédia carregada de exageros sobre crimes em uma universidade.

A sequência de abertura já estabelece o tom: é uma referência aos filmes de terror dos anos 1980. A série começa com uma festa em 1995, com uma integrante da universidade tendo um bebê e morrendo (assassinada) em seguida. O clima ao estilo Pânico é estabelecido e a série mostra “a sua cara”: satirizar os costumes da geração juvenil contemporânea com muito deboche e ironia, itens às vezes utilizados com um toque tão carregado que chegam a causar estranhamento.

A temporada possui o seu enredo focado numa série de assassinatos envolvendo os estudantes de um campus universitário, principalmente as integrantes da fraternidade Kappa Kappa Tau. Liderada por Chanel Oberlin (a nº 1, Emma Roberts, ótima), o local é habitado por suas seguidoras, garotas intituladas de Chanel nº 2, nº 3 e por ai vai, todas súditas e alienadas, em constante estado de adoração a sua diva maior, Chanel nº 1.

Oberlin precisa lutar contra as garras da temperamental reitora, a Sra. Cathy Munsch (Jamie Lee Curtis), uma profissional que vive em constante perseguição contra a mocinha. A “guerra civil” entre as duas alcança maior impacto depois que a reitora amplia o edital para a próxima Chanel da fraternidade, dando espaço para pessoas que saiam dos parâmetros normativos da instituição repleta de futilidades: agora, negras, latinas, obesas e deficientes de qualquer segmento podem se inscrever e tornarem-se possíveis representantes deste lar de futilidades.

Enquanto há conflitos de pais desaparecidos, filhos rebeldes, traições de namorados bonitões e outros dramas menores, as garotas tornam-se o alvo de um assassino em série, uma figura que se veste do mascote local, o Diabo Vermelho, e mata as suas vítimas através dos elementos da seguinte fórmula: arma branca + dor + humor – piedade + exageros = jovem morto esquartejado.

O mote da série, então, é estabelecido desde o começo: descobrir a identidade do assassino e as motivações para a realização de crimes tão hediondos, além de compreender como o nascimento do bebê em 1995 mudou a vida das pessoas que habitam a fraternidade, tendo em vista que o acontecimento é uma das lendas urbanas mais famosas do local. Apesar de bem dividida entre outros personagens, a centralidade da série é a fútil e divertida Chanel Oberlin, um personagem curiosamente construído para impactar de tão exagerada.

Carregando toda sorte de estereótipos imagináveis, Chanel Oberlin despreza as pessoas excluídas e é a metonímia do lado fútil da sociedade estadunidense. Mimada, boba, mandona, irritante e arrogante, principalmente pelo fato de ser filha de pais milionários. A sua prepotência não é construída com base na sagacidade de seus pensamentos, mas por deter dinheiro e poder de persuasão por seu status social no local onde vive.

Visualmente estilizada, Scream Queens conta com uma cenografia rica em cores fortes, como o vermelho, tendo como aliado um gritante trabalho de iluminação dos ambientes internos, tendo cada objeto em cena valorizado e até associado ao centro da ação dramática. A ideia do ambiente visual construído pela série é recorrer ao exagero, ao artificialismo, em suma, ao excesso, ao que grita aos nossos olhos de tão absurdo, unindo, desta maneira, exageros visuais e temáticos, haja vista que alguns diálogos são tão absurdos que só rindo mesmo.

Cabe ressaltar a montagem como outro setor de destaque da série, pois o ritmo empregado colabora com o dinamismo proposto pelos diálogos. É algo na linha do “triscou, pegou”. Ou você pega a piada de imediato e associa ao seu background ou vai ficar voando e sem entender  certas imagens dispostas nas cenas mais divertidas da série, como por exemplo, a referência ao clássico Psicose, além de um final de episódio com luz verde e uma detetive num porão, em busca do criminoso (isso te lembra algum filme sobre uma agente e um canibal numa parceria psicológica eletrizante?).

Há algumas críticas sociais que podem soar dispersivas ou desnecessárias, como as piadas com o Tinder e a Black Friday, mas Scream Queens é isso: uma baita sátira ao consumismo, ao vazio de algumas narrativas hollywoodianas situadas em faculdades e escolas de ensino médio, ao protagonismo excessivo de certos cidadãos, ao modo de encarar a competitividade, dentre outras questões que fazem parte da pauta diária da cultura estadunidense.

Entre os episódios mais interessantes destaco “Serra Elétrica”, o terceiro da temporada. Na trama o professor exibe o filme O Massacre da Serra Elétrica numa sala de aula e depois promove um debate sobre a produção. Da aula, os temas do filme “ganham” vida, sendo o objeto de Leatherface a arma para a realização dos crimes durante o episódio, numa exibição audiovisual com 42 minutos de membros cortados, gritos, sangue e muito, mas muito humor. É nesse mesmo episódio que uma das integrantes da fraternidade descobre que o seu pai biológico é ninguém menos que Charles Manson, um dos maiores assassinos em série de história recente.

Diante do exposto e da observação de outras opiniões em nosso campo crítico, posso inferir que Scream Queens é uma série pouco compreendida. Fraca? Não. Boba? Depende do ponto de vista. Sem nexo? Não se observarmos com base no conceito de nonsense. Exagerada? Sim, excessivamente, mas de forma proposital. Uma das questões que circundam a recepção desta série está na codificação da mensagem. Se o espectador não possui o código, provavelmente não conseguirá ir muito longe. É preciso dar conta da boa e velha metalinguagem: os diálogos acelerados disparam piadas como metralhadoras, referenciando filmes e nomes caros ao campo dos filmes de terror.

A audiência inicialmente não foi das melhores e a série vai precisar se esforçar para conseguir manter-se em exibição. As campanhas publicitárias foram massacrantes na mídia estadunidense e em outros países, como o Brasil, por exemplo. Celebridades do mundo jovem foram convidados a fazer participações especiais, como Ariana Grande e Nick Jonas, além da série dispor da maior scream queen da história do cinema: Jamie Lee Curtis, atriz indicada ao Globo de Ouro de Melhor Atriz por Série de Comédia.

A série estreou dia 22 de setembro de 2015 e inicialmente entregaria quinze episódios de 42 minutos ao público, mas teve o seu número reduzido para o cabalístico 13. Com segunda temporada garantida pelos produtores, Scream Queens segue o estilo American Horror Story: a cada temporada os personagens deslocam-se para temas diferentes. A primeira teve o foco nos filmes de terror com assassinos mascarados. De acordo com as notas oficiais, a próxima temporada será num hospital psiquiátrico, espaço onde os médicos realização experiências com os pacientes.

Scream Queens – 1ª Temporada (EUA, 2015)
Principais diretores: Bradley Buecker, Michael Uppendahl, Brad Falchuck e Ryan Murphy.
Roteiro: Brad Falchuck, Ian Brennan e Ryan Murphy.
Elenco: Jamie Lee Curtis, Emma Roberts, Anna Grace Barlow, Abigail Breslin, Anna Margaret, Evan Paley, Diego Boneta, Glen Powell, Jan Hoag, Jim Klock, Gleen Moore, Julian Morris, Lea Michelle, Nick Jonas, Oliver Hudson,  Keke Palmer.
Duração: 42 min (cada episódio).

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12 comentários

Giuseppe Verdi 24 de novembro de 2016 - 15:30

Nossa que crítica maravilhosa, a melhor crítica que já vi da primeira temporada. Acompanho ele desde a estréia da primeira temporada e viciei. No primeiro episódio eu tive que dar pausa, pois não estava aguentando rir tanto. Estava literalmente chorando de rir. Pensei que a segunda temporada iria cair o nível, mas me enganei feio. Sinceramente, até agora to achando ela tão boa ou quem sabe mlhr do que a primeira. Adorei que você ressaltou as referências. Vai ter crítica da segunda temporada quando ela acabar, né?

Responder
Giuseppe Verdi 24 de novembro de 2016 - 15:30

Nossa que crítica maravilhosa, a melhor crítica que já vi da primeira temporada. Acompanho ele desde a estréia da primeira temporada e viciei. No primeiro episódio eu tive que dar pausa, pois não estava aguentando rir tanto. Estava literalmente chorando de rir. Pensei que a segunda temporada iria cair o nível, mas me enganei feio. Sinceramente, até agora to achando ela tão boa ou quem sabe mlhr do que a primeira. Adorei que você ressaltou as referências. Vai ter crítica da segunda temporada quando ela acabar, né?

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Kelvin Moreira 27 de junho de 2016 - 17:47

Eu adoro como à primeira vista parece superficial e inverossímil, sendo que é justamente essa a intenção: retratar a quantas anda a modernidade. Sua crítica captura essa metalinguagem irônica e os vários intertextos, e é uma pena que não seja toda a audiência capaz disso. É bem provável, pelas críticas, que a segunda temporada caia de nível nesses aspectos, tentando se tornar mais polida e “séria” só para agradar a crítica. Espero sinceramente que não.

Responder
leodeletras 1 de julho de 2016 - 02:04

Vamos aguardar Kelvin. Percebeu que a temática SLASHER está com tudo este ano? Confira as nossas críticas sobre os filmes citados em Scream Queens. Assim que sair a critica da Segunda Temporada, retorna, tá?

Responder
leodeletras 1 de julho de 2016 - 02:04

Vamos aguardar Kelvin. Percebeu que a temática SLASHER está com tudo este ano? Confira as nossas críticas sobre os filmes citados em Scream Queens. Assim que sair a critica da Segunda Temporada, retorna, tá?

Responder
Kelvin Moreira 27 de junho de 2016 - 17:47

Eu adoro como à primeira vista parece superficial e inverossímil, sendo que é justamente essa a intenção: retratar a quantas anda a modernidade. Sua crítica captura essa metalinguagem irônica e os vários intertextos, e é uma pena que não seja toda a audiência capaz disso. É bem provável, pelas críticas, que a segunda temporada caia de nível nesses aspectos, tentando se tornar mais polida e “séria” só para agradar a crítica. Espero sinceramente que não.

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Samara Luz 18 de janeiro de 2016 - 18:10

Nossa,excelente crítica!
quando comecei a assistir scream queens confesso que me irritei um pouco e meio que me frustei com o enredo que parecia tão fraco e visto que parecia ter sido feita em olhos do cancelamento,mas no desenrolar da série eu comecei a perceber o quão divertido e coerente foi se demonstrando o enredo,e claro uma das melhores partes de sua crítica foi ressaltar as referências.
Abraços.

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leodeletras 21 de janeiro de 2016 - 23:54

Tinha episódios irritantes, mas depois do terceiro começamos a entender a proposta da série. Foi muito divertido e eu espero ver a segunda logo. Como andam os filmes Samara? O que tem assistido na seara dos “gritos”? Acompanhou nosso especial Evil Dead?

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Gabriel 17 de janeiro de 2016 - 19:03

UOOUUUU!

Amei sua crítica Leonardo!

Que série, né?

Eu daria 4,5 estrelas pra série. Ri muito e pirei com todas as referências a grandes filmes de terror. Episódios extremamente empolgantes e o mistério… AMEI!

Ansioso pra 2° temporada!

Abraço

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leodeletras 21 de janeiro de 2016 - 23:55

Obrigado Gabriel, bom saber que se divertiu…as narrativas metalinguísticas são sempre legais, mas é preciso saber fazer. Scream Queens soube e por isso estamos ansiosos pela 2ª temporada.

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Oscar 17 de janeiro de 2016 - 02:16

Essa é realmente um programa bem esforçado, não digo bom, mas sim esforçado.
Entendi as criticas que ela quis fazer e a proposta de junção de comedia e terror que foi feita, no entanto, me pareceu que ela ficou tão presa a seu tema original que se auto prejudicou.
Certo que os exageros foram propositais e deixar os personagens rasos e caricatos também pode ter sido, a série simplesmente não soube escolher bons momentos para a comedia. Como foi visto no outro programa de terror recente baseado nos filmes da franquia Morte do Demônio é possível juntar piadas e sangue sem que um prejudique o outro, ainda que os focos das séries fossem diferentes compartilhavam elementos iguais.
Scream Queens acertou em muitas coisas, principalmente nos assassinatos, mas deixou a desejar fazendo com que a premissa de uma série onde os personagens não levavam nem a morte a sério fizesse o roteiro ser preguiçoso.
Para finalizar: depois de uma temporada onde a maior parte da historia foi em uma casa de onde todos morriam e ninguém se mudava, agora vai para um hospício? Não lembra muito outro programa?

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leodeletras 21 de janeiro de 2016 - 23:56

Sim Oscar, os produtores de American Horror Story. Acho que talvez 10 episódios fossem suficientes para Scream Queens, além de 30 minutos de duração, ao invés de 42, correto?

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