Crítica | Scream: Resurrection – 3ª Temporada

Foram longos meses de espera. Depois do insosso segundo ano de Scream, o público aguardava ansiosamente a chegada da terceira temporada, repleta de novas estratégias narrativas, conforme os meios de comunicação divulgavam: a trama, recomeçaria do ponto zero, sem conexões com Emma e seus amigos, além da máscara original ser parte do traje do antagonista da trama. De tanto esperar, a pequena chama de esperança que havia tornou-se um punhado de cinzas espalhadas. A série nunca estreava, os bastidores demonstravam conflituosas negociações posteriores ao escândalo envolvendo Harvey Weinstein, produtor cinematográfico que atualmente amarga processos e falência por conta do movimento de vítimas de assédio que tiveram chances desperdiçadas em suas carreiras, dentre elas, as atrizes Mira Sorvino e Ashley Judd.

De maneira repentina, os realizadores divulgaram Queen Latifah na produção executiva e publicaram a sinopse da nova temporada, veiculada pelo canal VH1 e lançada num evento especial, de três noites, realizado nos Estados Unidos, com a exibição de dois dos seis episódios por noite. Algumas críticas começaram a circular, a sua maioria, ansiosas e precipitadas demais, textos cheios de comparações e análises descuidadas e pouco conscientes. Eu fiquei, realmente, assustado. No entanto, ao conferir o primeiro episódio, senti que havia algo estranho nas questões pontuadas por alguns fãs e “críticos” que tinham conferido o material. Durante o desfecho do primeiro episódio, o estranhamento foi ainda maior, pois não consegui compreender os motivos que fizeram determinados comentários circularem.

Foi apenas na metade da temporada que compreendi as motivações de tanto burburinho. Comparar a série com o clima dos filmes da franquia é perda de tempo. A proposta de tradução intersemiótica, focada nas trocas entre cinema e televisão desde a primeira temporada buscaram a extensão do mistério, resolvido em apenas uma hora e meia, numa saga de episódios que não sustentam a atmosfera ideal para Ghostface. A proposta de reduzir a série em seis unidades de 45 minutos também foi fundamental para o resultado não ser ainda pior. O desgaste dos anos anteriores já tinha manchado a aura de “Pânico” na “TV”.

Outro problema, por sua vez, se estabeleceu: o nada costumeiro protagonismo negro, o excesso de gírias, os personagens arquetípicos que sempre estiveram na linha de morte do slasher agora faziam parte do time protagonista, dentre outras questões. Carrego sem titubear a certeza da falta de preparo do público diante das duas propostas para a final girl gravitarem em torno de garotas negras, uma delas, cheia de gírias, movimentos com a mão e o pescoço, ao estilo Queen Latifah. A terceira opção ainda trazia uma jovem branca, mas com trajes e postura gótica, um típico personagem para Edgar Allan Poe, caso fosse um escritor contemporâneo. Dos rapazes, um não é de procedência estadunidense ou europeia, além de ser gay.

Os demais são jovens negros em suas comunidades. Assim, a terceira temporada de Scream trouxe outras propostas e mudou um pouco o rumo das ansiedades e dilemas de jovens brancos da elite estadunidense, perdidos diante de suas “crises palacianas”. Trocando em miúdos: paixões por professores, crise sobre o batom a ser usado na festa da faculdade, a virgindade da amiga como amuleto, dentre outras bobagens perto da realidade de jovens que vivem o caos da violência urbana, da criminalidade, etc. Aqui, Atlanta amplia os conflitos externos dos personagens, não inseridos na zona interiorana similar ao ambiente de Lakewood. Isso, por sua vez, não significa que a série acertou ao fixar debates caros para a juventude contemporânea.

Antes de avançar na análise, precisamos saber exatamente quem está na linha de frente da temporada. Se na primeira temporada a série emplacou com um episódio de ciberbullying, desta vez, os roteiristas desenvolveram as tensões urbanas de jovens que não ocupam os espaços exatamente privilegiados da meritocracia contemporânea. São sobreviventes do cotidiano, cada um em sua luta interna por um espaço minimamente digno de expressão na sociedade. Em seu terceiro ano, o jovem Deion Elliot (R. J. Cyler) é o alvo do antagonista, dedicado em sua vingança diante de determinadas questões do passado que ficaram mal resolvidas, motivações que no bojo do slasher, quase sempre foram motivo de piada, afinal, por qual motivo a trilha de corpos se há, em diversas ocasiões, a possibilidade de eliminar a causa central do problema?

O espetáculo da morte, sabemos bem, não é mesmo? Perseguições implacáveis, mortes coreografadas, gritos sonoros e muito mais. Elliot, ciente de um segredo obscuro do passado que vem para lhe cobrar o preço, começa a entrar em desespero por conta da fila extensa de cadáveres que gravitam em torno de seu cotidiano. Ele uma hora é suspeito, depois vítima, depois incerto. Tudo dentro da cartilha Scream. O seu círculo é composto pela irritante Olivia Reynolds (Jessica Sula), a gótica cinéfila Beth (Giorgia Whigan), seu “irmão” Jamal (Tyga), o gay estiloso Manny (Giullian Yao Gioiello), o homem do “gancho” Luther (Tonny Todd), Kym (Keke Palmer), personagem que segura a série praticamente sozinha, haja vista o seu empenho e carisma, dentre outros que surgem para fazer parte da trilha de corpos de Ghostface.

Com um primeiro episódio interessante, a série despenca um pouco no segundo e terceiro, perde o rumo no quarto, ganha ritmo no quinto e termina de maneira aceitável o sexto, sem deixar, no entanto, uma série de problemas narrativos espalhados tais como os corpos ensanguentados de suas vítimas. A impressão que se tem é a de desgaste de uma fórmula narrativa. Tiveram tanto tempo para desenvolver melhor as motivações, trabalhar com mais cuidado a metalinguagem, nesta temporada, exposta de maneira nada orgânica, às vezes muito afetada e de qualquer jeito. Sabe a impressão de se ter alguém dizendo para citar Freddy, Jason ou Michael, sem ao menos contextualizar? É mais ou menos isso. A crítica social também deveria ser trabalhada de maneira menos “gritante”. A sutileza é bem mais inteligente, além do mais, no ato espúrio da revelação do assassino (ou dos assassinos), há explicações que ultrapassam os diálogos.

Entre cada tópico exposto, Ghostface é intercalado com a visualização do que é comentado. Qual a necessidade disso? Massificar demais e explicar em excesso só reforça a sensação de que os produtores consideram as suas plateias como um lote de pessoas estúpidas. Em alguns trechos a discussão sobre o protagonismo negro nos filmes de terror delineia nomes como Jordan Peele, noutros trechos, a polícia é alvo de críticas, pois conforme aponta um personagem, o sumiço de um jovem negro não causa a mesma comoção que o desaparecimento de alguém branco”, algo tácito e que ganha na série um contorno importante, pois é algo que ajuda na deglutição do indigesto plot twist + plot point (sim, isso é possível!), inserido no penúltimo episódio, “virada” que nos remete às primeiras escolhas de E. Kruger no desenvolvimento dos primeiros tratamentos do roteiro de Pânico 3.

Esteticamente, Scream não fica muito distante dos seus anos anteriores, tampouco dos filmes. As ausências de Wes Craven, Kevin Williamson, Patrick Lussier e Marco Beltrami são sentidas a cada frame exibido, não creia ser diferente, ícones que ocuparam, na franquia, o posto de diretor, roteirista, editor e compositor, respectivamente. Mas como dito anteriormente, creio que seja melhor desapegar dos filmes para curtir Scream. A voz de Roger Jackson voltou, parte integrante que faz de Ghostface ser quem ele (ou ela) é, um matador (matadora) implacável. Esse retorno também traz a icônica máscara, para o alívio dos incomodados com o traje do ceifador das temporadas anteriores.

Para a condução sonora dos conflitos internos e externos dos personagens, temos o trabalho de Jeremy Zuckerman, compositor que adorna os ambientes erguidos pelo design de produção de Tim Pope, captados pela direção de fotografia de David Daniel, todos eficientes em seus trabalhos de orquestração da linguagem audiovisual proposta por Kevin Kolsch, Dennis Widmyer, Tanya Hamilton, Darren Grant, dentre outros, guiados pelos textos de Brett Matthews, Penny Cox, Sherman Payne, Leigh Dana Jackson, Jill E. Blotevogel, Jay Beattie, Dan Dworking, estes três últimos, também criadores da série. Com movimentos de câmera, coordenação de dublês e mixagens sonoras bem organizadas, visualmente Scream não é experiência que dá conta das necessidades industriais de um produto audiovisual de terror.

Em seu desfecho, o suposto gancho narrativo é apresentado de maneira mais livre, sem deixar em aberto os conflitos caso a série seja definitivamente cancelada. Se for para investir, aconselho aos realizadores seguir o padrão antológico de Slasher, com outros personagens e novas histórias. Não há motivações suficientes para os personagens da terceira temporada de Scream.

Scream Resurrection – 3ª Temporada (Scream: Resurrection, Estados Unidos/2019).
Criação: Jill E. Blotevogel, Jay Beattie, Dan Dworking
Direção: Kevin Kolsch, Dennis Widmyer, Tanya Hamilton, Darren Grant
Roteiro: Brett Matthews, Penny Cox, Sherman Payne, Leigh Dana Jackson, Jill E. Blotevogel, Jay Beattie, Dan Dworking
Elenco:Keke Palmer, Tonny Todd, Giorgia Whigan, Giullian Yao Gioiello, Jessica Sula, 21
Duração: 45 min (cada episódio – 06 episódios no total)

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.