Crítica | Scream – The Inside Story

Um documentário de retrospectiva crítica do clássico moderno Pânico, exibido em 2011, na ocasião do lançamento de quarto filme da franquia, lançado mais de uma década depois do fechamento da trilogia que se expandiu. Com direção de Daniel Farrands, realizador guiado pelo roteiro de Thommy Huston, o telefilme documental fez um interessante exercício retrospectivo, dedicado ao primeiro filme da franquia, lançado em 1996.  Ao longo de seus 90 minutos, membros da equipe técnica, do elenco, produtores e demais envolvidos no filme depõem com base em suas experiências e lembranças dos momentos que consideraram mais marcantes.

Preocupado com a contextualização, o narrador expõe que na época de surgimento de Ghostface, a televisão vivia a era Plantão Médico, o cinema entrega as superproduções sobre desastres e invasões alienígenas, tal como o grandioso, mas dramaticamente frágil Independence Day, e, num tom irônico e divertido, apontava que as pessoas comuns estavam envolvidas com a febre da Macarena, faixa musical executada em escala mundial. Com divisão justa dos créditos, algo que acontece muito pouco numa cultura crítica que alça o diretor ao posto de único intelectual de uma construção narrativa cinematográfica, Scream: The Inside Story divide adequadamente o espaço de Kevin Williamson e Wes Craven, dando a cada um a sua importância.

Inicialmente o filme iria se chamar “Scary Movie”, modificado para “Scream” mais adiante, algo semelhante aos bastidores de Halloween, clássico que nos primeiros textos, trazia o nome de O Assassino de Babás. Entre curiosidades e dados de análise reflexiva da própria condição do cinema enquanto arte nos anos 1990, somos informados que Gale Wheaters quase foi interpretada por Brooke Shields; Wes Craven delimitou o contato entre Roger L. Jackson, o dono da voz do ceifador de Woodsboro, tendo em vista criar tensão e melhor desempenho de seus atores com o “desconhecido”; filmado em Santa Rosa, região vinícola da Califórnia que apareceu mais uma vez no mapa depois da produção do filme, Pânico ainda enfrentou a desastrosa briga com os códigos de censura da MPAA, órgão que exigiu classificação alta por conta da contagem de corpos e excesso de sangue.

Ainda no bojo das curiosidades, acompanhamos as opiniões sobre o processo de contratação de Neve Campbell para interpretar Sidney Prescott, bem como o exercício de criação exaustivo da máscara do antagonista, trabalhada diversas vezes até encontrar a forma definitiva que a tornou um símbolo do cinema de terror contemporâneo. Dividido de maneira didática, esta crítica genética do sucesso que revitalizou o subgênero slasher na metade dos anos 1990 traz os momentos prévios, as reuniões para a compra dos direitos do roteiro. Somos informados do interesse de Oliver Stone, cineasta de ponta que negociou para adquirir os direitos como produtor e faturar em cima do filme que parecia um provável sucesso comercial, o que de fato foi comprovado. Quem ficou com o “sim” da oferta final foi a dupla Bob e Harvey Weinstein, donos de um conglomerado cinematográfico na contemporaneidade amarga os dissabores das denúncias de abuso de Harvey, algo que inclusive prejudicou o lançamento da terceira temporada da série televisiva oriunda do universo de Ghostface.

Logo mais, há informações sobre a contratação de luxo da atriz Drew Barrymore, pensada como protagonista, mas incerta do sucesso, preferiu ficar com o papel de Casey, a garota morta na cena de abertura, numa escolha narrativa semelhante ao que Alfred Hitchcock fez em Psicose. Se a provável protagonista morre logo na cena de abertura e os clichês do slasher são satirizados em demasia, o que será do destino desta narrativa? Foi mais ou menos esse o questionamento dos críticos e do público que no desfecho, ovacionaram o filme por sua coragem em estabelecer novos rumos para os filmes de terror, decadentes depois de tantas sequências conduzidas no marasmo por seus antagonistas Freddy, Jason, Michael, dentre outros.

O único do grupo de entrevistados que não faz parte da produção é o cineasta Eli Roth, responsável por traçar alguns comentários pertinentes sobre o legado de Pânico, além da sua linguagem criativa, dinâmica e bastante metalinguística. Com imagens captadas de maneira tradicional pela direção de fotografia de Buz Wallick, o documentário traz os tradicionais planos médios, juntamente com o uso do primeiro-plano, acompanhados por fotos, vídeos de bastidores e trechos explicativos do filme, editados de maneira expositiva e cuidadosamente simbiótica com os depoimentos relevantes dos envolvidos no filme, trabalho da dupla formada por Andrew Kasch e Michael Benni Pierce. A captação de imagens dos entrevistados ganhou cenografias similares como plano de fundo, mas cada um foi fotografado de um ponto diferente, algo que deu dinamismo e trouxe mais ritmo ao documentário televisivo.

Responsável pelo design de produção, C. J. Strawn não deixou de expor elementos remissivos ao clima de Woodsboro: armários escolares com manchas de sangue, iluminação sombria de fundo, com uma placa da cidade fictícia e uma imagem do antagonista próximo ao entrevistado, em suma, um exercício menos engessado para o formato documentário, exaustivamente explorador da estética das cabeças falantes. Por meio da condução sonora de Sean Schafer Henessy, Scream: The Inside Story nos faz voltar no tempo para refletirmos não apenas um filme, mas um “culto”. Se observado num viés comparativo, o documentário soa como um preâmbulo para Still Screaming: The Ultimate Scary Movie Retrospective, mais amplo por abordar participantes das sequências e analisar o universo Pânico de maneira mais abrangente.

Scream – The Inside History (Estados Unidos – 2011)
Direção:Daniel Farrands
Roteiro: Thommy Huston
Elenco: Wes Craven, Neve Campbell, Courteney Cox, Robert Englud, Rose McGowan, David Arquette, Kevin Williamson, Matthew Lillard, Jamie Kennedy, Patrick Lussier, Marco Beltrami, Howard Berger, Roger Jackson, Marianne Maddalena, Bob Weinstein
Duração: 93 min

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.