A Disney dos anos 70 vivia uma espécie de crise existencial. Sem Walt Disney (falecido em 1966) para ditar os rumos, e com a animação em baixa, o estúdio se agarrava a qualquer coisa que pudesse emplacar nos cinemas — e geralmente eram comédias familiares meio bobinhas com Dean Jones ou Kurt Russell. Foi nesse contexto que Mary Rodgers, filha do Richard Rodgers (sim, o dos musicais da Broadway), decidiu adaptar seu próprio livro de 1972. O enredo era simples e divertido: mãe e filha trocam de corpo numa sexta-feira 13 e descobrem como a vida da outra não é tão fácil quanto parecia. Gary Nelson, que dirigia muito mais TV do que cinema, pegou o projeto e fez algo que tivesse apelo para todos os públicos. Se Eu Fosse a Minha Mãe (Freaky Friday — aliás, essa versão de 76 também é conhecida como Um Dia Muito Louco aqui no Brasil) não reinventou a roda da Disney, mas fez seu trabalho sem perder a mão. E considerando os padrões do estúdio naquele período, isso já era considerável.
O roteiro de Rodgers tem uma vantagem óbvia: ela conhece muito bem a história. A troca de corpos vira pretexto para explorar algo mais interessante, ou seja, como mãe e filha se veem mutuamente e, principalmente, como estão erradas em suas suposições. Annabel acha que ser adulta é moleza. Ellen imagina que a adolescência seja só diversão e irresponsabilidade. Quando acordam uma no corpo da outra, a realidade bate forte dos dois lados. A garota descobre que administrar uma casa é um inferno logístico e a mãe redescobre que ser adolescente nos anos 70 também tinha lá suas complicações. O diretor filma tudo isso com uma competência televisiva que raramente impressiona, mas que cumpre tranquilamente o seu propósito. Ele entende que o filme depende das duas atrizes principais e dá espaço para elas brilharem, mesmo quando o roteiro insiste em gags físicas que já eram ultrapassadas na época.
Barbara Harris carrega o filme com muita naturalidade. Vê-la tentando navegar pelo mundo adolescente é genuinamente divertido, especialmente quando precisa lidar com situações que uma mulher de 35 anos jamais enfrentaria. A atriz tem um timing cômico preciso que transforma até as situações mais previsíveis em algo palatável. Jodie Foster, com seus 14 anos, mostra por que já era considerada uma atriz promissora, embora sua performance seja inevitavelmente menos consistente — afinal, interpretar uma adulta quando se é criança exige um esforço considerável. A dinâmica entre as protagonistas funciona mesmo quando estão separadas, porque ambas conseguem incorporar maneirismos uma da outra de forma convincente. Cotton Warburton mantém uma montagem ágil ao longo de todo o processo, exceto na sequência final de perseguição que se arrasta mais do que deveria — aliás, por que filmes Disney sempre precisavam terminar com perseguições? O elenco coadjuvante cumpre tabela, com John Astin sendo particularmente eficaz como o pai que mal entende o que está acontecendo.
Se Eu Fosse a Minha Mãe convence a gente porque não tenta ser mais inteligente do que é. Numa década em que os movimentos feministas questionavam papéis tradicionais, a Disney encontrou uma forma curiosa de abordar esses temas sem assustar ninguém. O filme tem seus momentos de esperteza, especialmente quando explora as pequenas descobertas cotidianas das protagonistas, mas tropeça quando força situações cômicas que funcionariam melhor numa sitcom ou na literatura. É um bom entretenimento familiar, sem grandes ambições artísticas — e talvez seja melhor assim. No final, o filme entrega exatamente o que promete (o que não é muito), e a magia da troca de corpos serve mais como metáfora para algo bem simples: julgar a vida alheia é fácil… até você ter que vivê-la.
Se eu Fosse a Minha Mãe (Freaky Friday) — EUA, 1976
Direção: Gary Nelson
Roteiro: Mary Rodgers
Elenco: Barbara Harris, Jodie Foster, John Astin, Patsy Kelly, Dick Van Patten, Vicki Schreck, Sorrell Booke, Alan Oppenheimer, Ruth Buzzi, Kaye Ballard, Marc McClure, Marie Windsor, Sparky Marcus
Duração: 98 min.
