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Crítica | Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria

O que você faria?

por Felipe Oliveira
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Com um título chamativo quanto ao seu significado, o filme de estreia de Mary Bronstein é do tipo que convida — ou envolve — o telespectador com a sua premissa que trata de um estudo de personagem centrado em Linda (Rose Byrne), protagonista que experimenta uma constante exaustão, frustração e impaciência com sua rotina infernal: o teto do seu apartamento desmoronou, a relação tóxica com seu terapeuta e a doença complicada da filha (que nunca ficamos a par da natureza). Lidar com diferentes situações ao mesmo faz parecer que a protagonista terá um colapso a qualquer momento. Tudo parece no limite, à flor da pele, e a cineasta nos coloca nessa perspectiva logo de cara uma vez que o Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria abre com primeiro plano no rosto da personagem enquanto participa de uma sessão de aconselhamento familiar com a filha. O destaque na cena é como a câmera permanece por mais de dois minutos nas microexpressões de Byrne que vai do desconforto ao cansaço, mas sem nunca abrir o plano para mostrar a criança ou terapeuta. Assim, Bronstein estabelece a sua abordagem: claustrofóbica, focada em nos colocar na ótica de uma mulher no limite.

O título de tom lúdico evoca um sentimento que nem mesmo a protagonista consegue definir frente ao turbilhão de emoções que precisa lidar diariamente — principalmente quando a sua maternidade é questionada —, porém enquanto deixa a provocação e a busca por significado no ar, Bronstein costura sua metáfora quase de forma explícita, como se anunciasse uma tragédia inevitável: o mundo de Linda está desmoronando em sua cabeça, a medida que tenta não encarar essa realidade. Quando falo que Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria é o tipo de filme que envolve o telespectador é devido a sua carga emocional, pela maneira intensa que Bronstein aborda o tema da maternidade de uma maneira não convencional, pessimista e angustiante sobre uma personagem que não quer ser ajudada e sim deseja validação, quer ser vista em meio às tentativas falhas de fazer o certo. Mas embora a maternidade esteja em discussão, a cineasta — que também faz uma ponta no filme — fala também sobre status, aceitação de um esgotamento emocional, do colapso invisível iminente.

Sempre em plano fechado, a fotografia de Christopher Messina é eficaz em amplificar as constantes mudanças de expressões de Linda, e o momento ao qual ela mais extravasa seus sentimentos é quando está na terapia, em seguida, precisa conter as emoções porque trabalha também como terapeuta. Com uma certa ironia, acompanhamos o ruir dessa personagem em conflito com suas emoções tentando parecer bem enquanto há instantes atrás gritava por não estar sendo vista. Além da epifania e explosões da protagonista, Bronstein também consta essa história através dos cenários — a exemplo do corredor da clínica, o fato de sair da sua sessão e ter de atender pacientes — ou através de imagens que transmitem terror ou melancolia com o jogo de luzes — ou do bipe toda vez que ela precisa repor a sonda da filha —, ou quando Linda corre para encarar a imensidão do buraco do teto toda vez que sente que está perdendo o controle. As escolhas da atriz e cineasta são interessantes por compor elementos que nos colocam a sentir e observar o entorno da personagem e buscar menos símbolos e alusões visuais.

É impossível não manter a atenção fixa toda vez que Messina traz seu plano fechado a entrega crua, vulnerável e conflitante de Byrne. Histórias que abordam o turbilhão da maternidade é um tanto difícil de encontrar, e o que Bronstein faz é um drama psicológico que beira um thriller pela maneira que discute a aflição não só dessa personagem, mas de outras mulheres. A escolha de deixar a filha — que nem sabemos o nome —, o marido militar que só liga para ser atualizado, ou do responsável pela manutenção do teto fora de plano e focar na reação de Linda ao seu entorno é como a diretora evita o sentimento de empatia para a condição da criança, do vizinho que fratura o tornozelo, do hamster atropelado para como tudo recai na personagem que precisa lidar com a carga emocional, inúmeras responsabilidades e é constantemente lembrada que não é uma mãe perfeita.

Quando a finalmente Linda aceita seus limites e diz que quer melhorar, a sua fala sobre não querer a maternidade já antecipava esse sentimento ou a angústia da lembrança de quando colocaram o tubo de alimentação em sua filha. E em tudo isso, Se Eu Tivesse Pernas, Eu te Chutaria funciona pela parceria de Byrne abraça o material — tanto que lhe rendeu o prêmio de melhor atriz no Festival de Berlim 2025 — e trabalha em conjunto com a visão de Bronstein em contar essa história com intensidade, e é graças a essa performance que a narrativa toma forma e espaço para não ser um retrato convencional. O ponto alto é como a cineasta não busca saídas triviais, mas antes deixa o filme para observação de outros exemplos e vivências de mulheres levadas à exaustão por performances e papéis que precisam cumprir.

Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria (If I Had Legs, I’d Kick You – EUA, 2024)
Direção: Mary Bronstein
Roteiro: Mary Bronstein
Elenco: Rose Byrne, Delaney Quinn, Mary Bronstein, A$AP Rocky, Ivy Wolk, Christian Slater, Mark Stolzenberg, Conan O’Brien
Duração: 113 min

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