Crítica | Se Joga, Charlie – 1ª Temporada

Idris Elba é uma incógnita dramática. Ele já mostrou-se um ótimo ator em The WireLuther, excelente séries que ajudaram a lançar sua carreira e, a partir daí, tornou-se “figurinha fácil” como coadjuvante em diversos filmes, da trilogia Thor a Star Trek: Sem Fronteiras, passando por Círculo de Fogo, Prometheus e Zootopia, dentre outros. Como protagonista em obras cinematográficas, ele, porém, teve bem menos sorte, valendo especial destaque para seu papel de Roland Deschain no desapontador A Torre Negra. E, com isso, misteriosamente, o ator até hoje nunca alcançou o tipo de estrelato que talvez merecesse, permanecendo ali presente na periferia da mente de todos, mas sem galgar os degraus que se esperava.

Se Joga, Charlie, uma tradução inexplicável de Turn Up Charlie, é a mais recente exploração televisiva do ator, que não só é o protagonista aqui, mas também co-criador – juntamente com Gary Reich – e produtor. E, novamente, Elba arrisca ficar esquecido por aí, considerando que a série até tem seus momentos meigos e divertidos, mas ela em momento algum consegue fazer mais do que uma costura de clichês narrativos e personagens estereotípicos em uma produção que, se não tem exatamente problemas sérios, nunca realmente empolga ou consegue elevar-se nem que seja um degrau acima do lugar-comum.

O Charlie do título, vivido, claro, por Elba, é um DJ e solteirão convicto que teve um único sucesso nos anos 90 que ele não soube aproveitar, vivendo hoje com a tia em uma casa em Londres e fingindo para seus pais nigerianos, com quem tem frequentes ligações em vídeo, que é um magnata da música, casado com uma namorada com quem, na realidade, não se relaciona há muito tempo. Em outras palavras, ele é um acomodado que vive a vida com os pouquíssimos royalties do passado, que ele manda para os pais e trabalhos esparsos aqui e ali, sem que ele tente se dedicar de verdade a absolutamente nada. Mas tudo muda quando David (JJ Feild), seu amigo de infância e astro hollywoodiano, volta para Londres com sua esposa Sara (Piper Perabo), uma DJ do momento, para focar na criação de sua filha Gabrielle (Frankie Hervey). Claro que as vidas glamourosas dos dois, porém, imediatamente frustram seus planos e, conversa vai, conversa vem, Charlie acaba como babá da simpática pestinha.

Em linhas gerais, o tema responsabilidade – em suas diversas iterações – perpassa toda a breve temporada de oito curtos episódios, no estilo sitcom.  No entanto, esse tema é trabalhado de maneira preguiçosa e óbvia, o único verdadeiro diferencial sendo a pegada mais adulta que os roteiros têm mesmo considerando a presença constante da menina e, depois, de seu amigo Hunter (Cameron King). Há muito palavrão, situações embaraçosas e impróprias para a idade da jovem, além de um certo nível de escatologia que é desconcertante até para os adultos. Ou seja, o choque do texto repleto de sexo, drogas e música eletrônica (ah, como eu detesto música eletrônica…) só funciona porque há crianças ao redor e participando dessa narrativa adulta, como quando Gabrielle pega em um vibrador ou quando Hunter dá um beijo em outro garoto (ele se auto-proclama como gay no momento em que primeiro o vemos).

De resto, a série sobrevive mesmo é da absoluta simpatia de Elba e da pequena Hervey, com os atores criando química imediata e funcionando bem na rotina cômica da garota difícil e “do” babá de coração mole. Mas mesmo a rotina só mantém o frescor por relativo pouco tempo, logo tornando-se apenas ok e, depois, cansando mesmo. E o mesmo vale para os papeis de David e Sara como os pais mais irresponsáveis do mundo, vivendo a vida como se Gabrielle fosse um apêndice que eles só sabem que está lá quando algo grave acontece. O próprio Charlie tem seu arco de desenvolvimento atrapalhado pelos textos que estão mais preocupados em elogiar sua virilidade e beleza, do que efetivamente fazer o personagem sair do ponto A e chegar ao ponto B.

Se Joga, Charlie é, no final das contas, uma série tão morna, mas tão morna, que ela será esquecida no momento em que o último episódio acabar, não dando a menor vontade de ver o que acontecerá com os personagens em eventual segunda temporada. Idris Elba definitivamente precisa repensar sua carreira se ele quiser realizar o potencial que muitos – inclusive eu – acham que ele tem.

Se Joga, Charlie – 1ª Temporada (Turn Up Charlie, 15 de março de 2019)
Criação: Idris Elba, Gary Reich
Direção: Tristram Shapeero, Matt Lipsey
Roteiro: Georgia Lester, Victoria Asare-Archer, Laura Neal, Femi Oyeniran
Elenco: Idris Elba, Piper Perabo, JJ Feild, Frankie Hervey, Angela Griffin, Guz Khan, Jocelyn Jee Esien, Jade Anouka, Rina Sawayama, Cameron King, Dustin Demri-Burns, Joan G., Dan Brown
Duração: 24 a 28 min. por episódio (8 episódios no total)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.