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Crítica | Se Meu Apartamento Falasse

por Roberto Honorato
563 views (a partir de agosto de 2020)

“Cale a boca e jogue”

Quando Se Meu Apartamento Falasse foi lançado, Billy Wilder já tinha uma filmografia sólida e respeitável, sem contar eclética. Não é qualquer diretor que consegue evoluir tão bem e continuar trazendo longas memoráveis depois de já ter feito obras como Crepúsculo dos Deuses e Quanto mais Quente Melhor. Felizmente, Apartamento tornou-se um dos seus filmes mais aclamados, facilmente uma das melhores comédias do cinema. Wilder utiliza temas provocantes, como fez anteriormente debatendo a indústria cinematográfica, relacionamentos e até identidade sexual. Aqui, com uma trama cheia de reviravoltas e momentos impactantes, sem deixar o humor de lado, podemos ver como o diretor / roteirista atinge um equilíbrio quase perfeito entre drama e comédia.

No filme, C.C. Baxter (Jack Lemmon) trabalha como um vendedor de seguros em um escritório na cidade, e o único consolo para aturar o trabalho puxado é a possibilidade de uma promoção. Ele é ambicioso e se esforça muito para crescer, mas também é facilmente intimidado, por isso fica difícil negar os favores que seus colegas de trabalho pedem, mesmo que envolvam usar seu apartamento como esconderijo para levar suas amantes. Obviamente, Baxter não gosta da ideia, mas todos estão elogiando seu trabalho e as horas extra no escritório (que na verdade servem apenas como um dos álibis do protagonista) parecem estar impressionando os superiores. Será que vale a pena aturar todos os inconvenientes desses favores, como ter que chegar em casa e bancar a diarista ou ver a chave do seu apartamento passando de mão em mão no escritório?

Os temas de infidelidade e chantagem corporativa não são mais nenhuma novidade, mas na Hollywood da década de 1960, a noção de um filme sobre um homem que contribui para a “destruição de famílias”, era imperdoável. E lembrar que há poucos anos a atriz Joan Bennett estava envolvida em um escândalo parecido, traindo o marido com seu agente, o que resultou em uma arma sendo disparada, mas nenhuma morte (que bom). Wilder, ao lado de I.A.L Diamond, co-roteirista de Apartamento, é esperto o suficiente para burlar as regras e não ser pego, então construiu seu longa deixando claro seu ponto de vista, sendo moral na medida, porque não dá pra deixar de lado o mais importante, que era continuar fazendo piada com as situações na qual o protagonista se envolve. E como simpatizar com um personagem como Baxter? Simples, como diz o próprio diretor: “Se eu preciso de um protagonista adorável e simpático, é só chamar Jack Lemmon”.

A escolha de Jack Lemmon, com quem Wilder ama trabalhar, para interpretar Baxter é um daqueles acertos tão grandes do cinema que você não é mais capaz de imaginar outra pessoa no mesmo lugar. Lemmon tem um ótimo ritmo para comédia, entregando cada fala de um jeito único. A honestidade e inocência transformam o personagem em uma figura tão carismática que a maioria dos seus comentários sarcásticos e até piadas “sem graça” acabam ecoando e virando referência (“That´s the way it crumbles, cookie-wise”). O humor físico também contribui para a construção do personagem, com seu jeito atrapalhado e ansioso de atender o telefone ou segurar um pedaço de frango frito, por exemplo, e a maravilhosa sequência do macarrão sendo escorrido em uma raquete de tênis, que ficou ainda melhor depois de Lemmon improvisar uma cantoria e executar a tarefa como se fosse o único jeito daquilo ser feito.

Para interagir com um personagem que entrega tantas piadas e trocadilhos em uma velocidade quase “Robin Williana”, temos a  delicada e contida Fran Kubelik (Shirley McLaine), a operadora de elevador do prédio onde Baxter trabalha, uma das poucas pessoas que se importam com o pobre vendedor. A relação dos dois pode parecer a mais comum e óbvia de primeira, mas McLaine é uma atriz muito mais sutil, entrega muito fazendo “pouco” e é responsável pela cena mais arriscada do filme, que poderia se perder se não fosse o jeito inteligente e responsável de abordar seus temas. Drama e comédia costumam se esbarrar em muitos filmes e sair dos trilhos completamente, para Wilder é tudo a mesma coisa.

Neste ponto da carreira, Wilder continua tão afiado nos diálogos quanto antes, agora muito mais confiante no que faz, consegue inserir uma piada sobre Fidel Castro em uma cena melancólica sem soar inoportuno, sem falar que aproveita a oportunidade para criar uma personagem com características bem parecidas com as de Marilyn Monroe, com quem o diretor trabalhou anteriormente e parece não ter ficado feliz, com demandas que não podiam ser cumpridas ou a falta de comprometimento com a produção dos filmes. E já que a tal personagem foi representada como uma pessoa barulhenta e extravagante, você tira sua própria conclusão (se bem que em certo momento um personagem liga para Baxter dizendo que conheceu uma mulher que “parece com Marilyn Monroe”, então acho que nem precisamos procurar muito pra entender o que o diretor queria dizer com essas alusões).

E assim como o roteiro, a narrativa visual do filme fala bastante, como o escritório que parece desaparecer no horizonte de tantas mesas e funcionários trabalhando tristemente. A direção de arte de Alexandre Trauner (ao lado da cenografia de Edgard Boyle) foi responsável pelo efeito quase hipnotizante do lugar, e foi tudo feito sem técnicas mirabolantes, foi só perspectiva forçada usando adultos na frente e crianças ao fundo. Gosto ainda mais de um filme quando ideias simples como essa tem um resultado tão bom. Pequenos detalhes, como a revelação do dono do espelho quebrado ou a fotografia da família de Sheldrake (Fred MacMurray) na mesa de Baxter são o que evidencia o excelente desenvolvimento natural de todos os elementos do filme.

Com Apartamento, Wilder se tornou a primeira pessoa a receber os três prêmio principais da Academia (um de Melhor Filme, e os outros dois para Direção e Roteiro), e não me impressiona como o filme continua tão engraçado e envolvente. Com uma história tão divertida e elenco impecável, só um louco para não se apaixonar por essa comédia.

Se Meu Apartamento Falasse (The Apartment) – EUA, 1960
Direção: Billy Wilder
Roteiro: Billy Wilder, I.A.L. Diamond
Elenco: Jack Lemmon, Shirley McLaine, Fred MacMurray, Ray Walston, Jack Kruschen, David Lewis, Hope Holiday, Joan Shawlee, Johnny Seven.
Duração: 125 min.

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7 comentários

Cristiano Leal 23 de maio de 2018 - 12:19

Prezado Roberto, bom dia! Excelente crítica, resgatando esse clássico. Como você comentou que estava com vontade de rever a filmografia do Wilder, aproveito e deixo aqui minha contribuição: o livro “Entretenimento Inteligente. O Cinema de Billy Wilder”, de Ana Lúcia Andrade, 290p, publicado
em 2005 pela editora UFMG (e que ainda pode ser encontrado em livrarias online). Nesse livro ela produz uma análise de toda a obra dele, e cerca de 22 páginas são dedicadas um estudo detalhado deste filme, quase que cena após cena, discorrendo sobre o uso da sonoplastia, música, montagem, enquadramentos e a estrutura narrativa. É um livro indispensável a qualquer estudioso de cinema. Grande abraço!

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Roberto Honorato 24 de maio de 2018 - 11:51

Muito obrigado pela indicação, @disqus_jeXt4Rlyl9:disqus. Vou procurar sim, ainda pretendo terminar a filmografia dele, é um dos poucos diretores que me faz querer estudar tudo que fez.

E obrigado pelo elogio, um grande abraço pra você também!

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Roberto Honorato 17 de maio de 2018 - 13:48

Não sabia que esteve em cartaz esse ano, perdi a oportunidade de assistir.

Obrigado pelo comentário.

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Cesar Cesar 17 de maio de 2018 - 14:22

Teatro Santander… de janeiro a fevereiro de 2018.

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Cesar Cesar 17 de maio de 2018 - 09:04

Quem ja namorou dentro de um Fusca sabe que, a não ser que você seja contorcionista de circo, não vai adiantar nada o Fusca falar por que não vai acontecer muita coisa. Entretanto, dentro de 4 paredes em um apartamento, muitas coisas podem ser ditas por ele!
Esse filme fala sobre um “matadouro”, um abatedouro daquilo que Carlos Imperial chamava de “lebres”. Tratava-se de um apartamento que era cedido para encontros libidinosos. Como não visava lucro, mas apenas interesses pessoais do proprietário do imóvel, tal empréstimo não poderia ser considerado crime.
Como as vagab… digo, mulheres, que eram levadas para o apartamento não cobravam pelos encontros amorosos, o filme acabou sendo visto por toda a família na sala de estar, o que o fez famoso.
Curiosamente, essa peça teatral – Se Meu Apartamento Falasse – esteve em cartaz recentemente em São Paulo, no início de 2018.

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Luiz Santiago 16 de maio de 2018 - 06:01

Esse filme é absurdamente delicioso de se assistir. Aliás, Wilder é um diretor que tem esse poder de nos prender e nos fazer gostar de suas obras. A fineza e excelência do cara são incríveis. Excelente crítica para um excelente filme!

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Roberto Honorato 16 de maio de 2018 - 20:41

Sim, eu sou apaixonado pelo cinema dele, deu vontade de ver a filmografia toda depois de escrever os últimos dois textos.

E obrigado <3

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