Crítica | Sede de Vingança (2009)

Sede de Vingança (2009) é um filme enervante e, ao mesmo tempo, extremamente prazeroso. Adaptação de um conto Stephen King, a obra se desenvolve em torno do casal Elizabeth (Emmanuelle Vaugier) e Robinson (Wes Bentley), que têm suas vidas mudadas após a mulher testemunhar um assassinato ligado a Dolan (Christian Slater) e sua máfia de tráfico de pessoas para prostituição. A partir dessa premissa, temos uma série de coisas que Stephen King gosta de trabalhar em suas obras, como o jogo de gato e rato envolvendo indivíduos com diferentes forças e uma aura de maldade que parece crescer e dominar os personagens principais a cada instante.

Sob direção de Jeff Beesley, o longa pode ser dividido em duas partes, uma ruim, que vai do início até o momento em que Robinson tem uma fantástica ideia e decide que é chegado o momento de “enterrar o passado” e outra boa, que vai da preparação da vingança à execução da vingança em si. Embora nem esse ato esteja livre de questionamentos mais lógicos (como o personagem de Wes Bentley conseguir realmente fazer tudo aquilo sem chamar atenção, por exemplo), a satisfação e o requinte de justificada maldade aí é tão interessante, tão prazerosa e tão bem executada em termos morais e emocionais no que concerne à palavra vingança, que dá tranquilamente para relevar as lombadas do roteiro de Richard Dooling até nessa melhor parte da obra.

Quando eu disse que o filme é enervante, é porque para avançar, o roteiro se apoia naquilo que boa parte dos filmes de terror utilizam modicamente — se não for uma sátira ou um completo desastre, claro –, que é a estupidez humana diante de um perigo anunciado. Até o momento em que Elizabeth descobre os assassinatos, o filme não tinha entregue nada de interessante e então quando vem o ingrediente violento e problemático da fita, o espectador começa a crescer expectativas, já que essa temática de perseguição de cidadãos comuns por mafiosos poderosos rendem bons filmes. Só que não foi o caso aqui.

Se a gente tirar a ótima fotografia saturada de Gerald Packer (o destaque para o amarelo e o verde dão uma estranha e sufocante impressão de ambiente muito quente e muito doente, opressivo) e a atuação de Wes Bentley e Christian Slater, que crescem em qualidade à medida que o filme avança, o que fica para o público é uma coletânea de decisões absolutamente impossíveis de se engolir (a mulher está sob proteção policial intensa e sai de madrugada para comprar teste de gravidez? Como é que é?) e que para o roteiro servem como o único trampolim possível, sem nenhuma linha de justificativa que pudesse amenizar a ação estúpida. O mesmo vale para o período de estranho luto e depressão de Robinson, que passa a ter estranhas visões e não tem muita perspectiva para a vida, ao menos no momento. A direção de Beesley aproveita o máximo da atuação de Bentley, mas como não dá para tirar muita coisa de uma trama depressiva isolada, que não vai para lugar nenhum, o filme mais uma vez clama para si a marca de enervante. E talvez seja por todo esse trajeto meio sem pé nem cabeça que passamos a sorrir com gosto no momento em que Robinson vê o caminhão enterrado e tem uma grande ideia de vingança.

Eu sou da opinião de que se você não pretende se vingar de maneira épica, nem se dê o trabalho de tentar vingança. E acredite: se você não fizer, o Universo fará por você, é só esperar. Mas se você for assumir esse papel, que faça-o de modo espetacular, inesquecível, com elegância e inteligência que suguem absolutamente tudo o que for possível da vítima, deixando apenas o desespero dentro dela (não, eu não sou psicopata, eu tenho laudo!). E daí vocês podem imaginar qual não foi a minha alegria na parte final da obra. Mas não é só uma questão de preferência vingativa aqui. Notem como a atuação de Bentley e Slater se engrandece neste bloco. Como a direção consegue contrastar a posição dos indivíduos frente à visão de mundo e poder de cada um deles em jogo; e como o roteiro, até que fim, entrega linhas de diálogos que valem a pena. A progressiva passagem do arrependimento ao puro desespero da vítima é guiada de modo que nos entretém e que dá imenso prazer diante da vingança, ainda mais quando descobrimos qual era o novo “item” do tráfico humano para prostituição em que Dolan estaria envolvido: crianças.

Quando eu vi Sede de Vingança pela primeira vez a única coisa que realmente me chamou a atenção foi o final, e a exata sensação volta aqui, na minha revisão do filme para a crítica. A despeito da má estrutura narrativa de metade da obra, o seu verdadeiro foco é executado de maneira inesquecível e só por isso, vale a sessão inteira. A gente termina o filme com um sorriso de felicidade que só uma boa vingança executada pode trazer. E isso não tem preço.

Sede de Vingança (Dolan’s Cadillac) — Canadá, Reino Unido, 2009
Direção: Jeff Beesley
Roteiro: Richard Dooling (baseado em um conto de Stephen King)
Elenco: Christian Slater, Emmanuelle Vaugier, Wes Bentley, Greg Bryk, Aidan Devine, Al Sapienza, Karen LeBlanc, Cory Generoux, Vivian Ng, Patrick Bird, Eugene Clark, Max Keene, Robert Benz, Tim Allen, Amy Matysio
Duração: 90 min.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.