Crítica | Sedução Fatal (1999)

Lançado em 1999 nos Estados Unidos, a história desenvolvida em Sedução Fatal já havia sido filmada pelo cineasta Claude Miller em 1983, tendo Isabela Adjani como a mulher fatal que ocupa o centro da narrativa. Dirigido por Stephen Elliot, também responsável por comandar o próprio roteiro, inspirado num romance de Marc Behn, o filme nos apresenta ao personagem de Ewan McGregor, chamado de Eye. Ele trabalha como investigador e uma de suas funções é ser a pessoa por detrás da janela indiscreta que observa a misteriosa Joanna (Ashley Judd).

Logo na cena de abertura, depois de algumas imagens de sexo, nós o observamos em ação. Inicialmente não sabemos se tratar de um fotógrafo. Na verdade, o filme é cheio de imprecisões e será preciso algum esforço do espectador para compreender as tentativas dos realizadores em transformar uma história trivial sobre uma viúva negra contemporânea em algo além do que já foi realizado exaustivamente. A postura mescla o detetivesco e o atirador. Só depois é que descobrimos a sua função na narrativa.

Logo mais, ele é contratado para investigar os motivos que levam o filho de um membro importante do governo a gastar tanto dinheiro. Isso acaba levando-o até a “mulher fatal”. Joanna, como apontado em algumas passagens, é uma figura camaleônica que durante um ato sexual inspirado, mata o seu parceiro. Ao invés de comunicar o crime para as autoridades, Eye começa uma cruzada rumo ao paradeiro da moça que desliza de maneira bem sórdida pelos lugares que passa, uma criatura de difícil comportamento.

Ao longo dos 109 minutos, Sedução Fatal nos oferta como entretenimento a perseguição de Eye, com seus aparatos tecnológicos, rumo à compreensão acerca daquela figura que tanto o atiça. Apaixonado pela garota, Eye idealiza situações, imagina coisas, vive outras em realidade, tornando-se, em sua visão, um protetor à distância para Joanna que na verdade, pode nem ser uma mulher com esse nome. Em seu caminho, Joanna faz alguns estragos. Homens são mortos por necessidade patológica, outros são burocracias que ocupam o seu caminho e a impedem de continuar em seus deslizes pelo mapa estadunidense.

Curioso observar que mesmo não havendo obrigações lógicas no bojo do desenvolvimento da história, há algumas passagens que pedem ao espectador uma suspensão absurda da crença. A morte de um homem no vagão de um trem, algo que deveria ser assustador, acaba por se tornar hilariante quando o corpo no chuveiro é transformado numa espécie de cadáver dentro de um aquário. Por qual motivo, dentro de um mecanismo do vagão, aquela água não escorreu? São bobagens que nos pegam por conta da dispersão narrativa cheia de momentos de fuga da objetividade realista, ausente, por sinal.

Interessante é o estudo de personagem. Desolado, abandonado pela esposa, observamos a sua relação com a filha, Lucy (Anne Marie Brown). Mais adiante, compreenderemos ser alguém imaginário, presente apenas nas elucubrações do personagem. Ela está por todos os lados, conversa o tempo todo com ele e parece tão real que ficamos de fato na dúvida de se tratar de ilusão ou realidade. Ademais, se o roteiro é impreciso e confuso, os aparatos estéticos também não fazem muita coisa pra transformar o filme numa experiência inesquecível. A condução sonora de Marius De Vries e a edição de Sue Blainey são apenas corretas, a direção de fotografia de Guy Dufaux é adequada ao roteiro e os figurinos de Lizzy Gardiner transformam Ashley Judd numa mulher fatal, mas sem nada de espetacular. Em suma, um filme curioso, mas confuso. Assista e tire as suas próprias conclusões.

Sedução Fatal (Eye Of The Beholder/Estados Unidos, 1999)
Direção: Stephan Elliott
Roteiro: Stephan Elliott, Marc Behm
Elenco: Ashley Judd, Ewan McGregor, Patrick Bergin, Geneviève Bujold, K.d. lang, Jason Priestley, Anne-Marie Brown, Kaitlin Brown, Steven McCarthy, David Nerman
Duração: 109 min

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.