Crítica | See – 1X01 a 1X03: Godflame / Message in a Bottle / Fresh Blood

Média dos episódios:

See é uma das séries originais de lançamento do serviço de streaming da Apple, o Apple TV+, que ingressou no mercado mundial no dia 1º de novembro de 2019. A ideia é lançar os episódios semanalmente, mas, para dar peso à estreia e volume inicial ao serviço, cada uma das obras de produção própria teve seus três primeiros episódios disponibilizados e são eles que passo a criticar em conjunto.

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Estrelada por Jason Momoa repetindo o único papel que é escalado para fazer, o do selvagem simpático, See se passa em um futuro distópico em que uma praga assolou o mundo e reduziu sua população para dois milhões de habitantes, mas todos completamente cegos. A série de oito episódios em sua primeira temporada começa centenas de anos depois da tragédia, em uma Terra repleta de tribos adaptadas às novas condições da humanidade, com até mesmo a simples menção à visão – encarada como um poder – é uma heresia capaz de levar o herege à fogueira.

A ambição da criação de Steven Knight, responsável também pela sensacional Peaky Blinders, fica evidente já nas tomadas em planos gerais e outras em contra-plongée de paisagens florestais belíssimas e silenciosas que a fotografia em locação no Canadá permitiu capturar e que imediatamente passam a necessária sensação primal de regressão civilizatória por que a humanidade atravessa nessa ficção. E, imediatamente, o espectador é arremessado no seio do minúsculo vilarejo chefiado por Baba Voss (Momoa) como um recorte micro dessa civilização com regras completamente novas.

Os pontos focais, inicialmente, são dois: o parto de Maghra (Hera Hilmar) assistido por Paris (Alfre Woodard) no aconchego de uma caverna e o confronto dos guerreiros do local liderados por Baba Voss com um grupo invasor comandado pelo sinistro Tamacti Jun (Christian Camargo), um caçador de bruxas obediente à rainha Kane (Sylvia Hoeks). Essas duas narrativa paralelas que logo se reúnem têm como objetivo principal aquilo que todo o primeiro ou primeiros episódios de uma série precisam fazer, ou seja, situar o espectador e, no caso de uma distopia dessa natureza, estabelecer a verossimilhança do ambiente e das ações e, claro, deixar as regras do jogo bem claras.

Pelo menos no caso de See, a liberação dos três episódios de uma vez é importante porque é preciso mais do que apenas um para compor a narrativa, com a trinca fechando um pequeno arco inicial que é impulsionado por elipses que fazem a história progredir por vários anos e nem sempre de maneira muito eficiente. Sem entrar no terreno pantanoso dos spoilers, basta dizer que Paris da à luz um casal de gêmeos que enxerga e são essas crianças que a rainha Kane tanto quer para si.

Mas mais interessante do que a história macro é entender a mecânica de um mundo em que todos os humanos são cegos. Longe de mim querer dizer que seria assim que a coisa funcionaria, mas a criatividade de Knight e sua equipe surpreende e captura imediatamente a imaginação do espectador a partir de simples linhas-guia pelo vilarejo, passando por armadilhas e chegando à habilidade de todos em usar os demais sentidos de maneira aguçada. Tudo é muito bem trabalhado e explorado pelas lentes de Francis Lawrence, diretor de, dentre outros, Constantine e a franquia Jogos Vorazes (com exceção do primeiro filme), que não poupa a violência gráfica em contraste com visuais belíssimos que evoluem para locações mais “urbanas” como o reino de Kane e um parque de diversões caindo aos pedaços já no terceiro episódio.

No entanto, uma vez ultrapassada a novidade da situação inusitada que a premissa exige, o que há é um épico que segue a estrutura clássica do “messias perseguido” e que economiza na ação propriamente dita pelo menos aqui nesse começo, revelando mistérios a conta-gotas e de pouco em pouco expandido o mundo que aborda. Falando em ação, apesar de raras, quando ela vem fica aquela sensação de que a espera valeu a pena, com coreografias de luta que merecem particular atenção, começando pela inicial, na forma de uma batalha campal, e terminando (até agora), com um espetacularmente violento “voo solo” de Baba Voss no terceiro episódio que deixa evidente toda sua fúria e potencial futuro de outros momentos em que Momoa volta a encarnar seu saudoso Khal Drogo.

Há muito a ser desenvolvido ainda em See e, apesar da atmosfera familiarmente bizarra no estilo Mad Max, só que bem mais verdejante e sem os carros, é perfeitamente possível permanecer sedento por mais ao longo de toda a projeção. Trocando em miúdos, esse começo da série cumpre sua função de atrair o espectador para esse estranho e angustiante mundo em que a visão não só é raríssima, como é temida. Se Knight cumprirá a promessa que faz com esses três primeiros episódios, só o tempo dirá.

See – 1X01 a 1X03: Godflame / Message in a Bottle / Fresh Blood (EUA – 1º de novembro de 2019)
Criação: Steven Knight
Direção: Francis Lawrence
Roteiro: Steven Knight
Elenco: Jason Momoa, Sylvia Hoeks, Alfre Woodard, Hera Hilmar, Christian Camargo, Archie Madekwe, Nesta Cooper, Yadira Guevara-Prip, Mojean Aria
Duração: 57 min., 56 min., 50 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.