Crítica | See – 1X05: Plastic

  • Há spoilers. Leiam, aqui, as críticas dos demais episódios. 

Não sei quanto a vocês, mas a revelação da verdadeira identidade de Maghra nos últimos segundos de Plastic, quinto episódio da 1ª temporada de See, pareceu ter sido construída como uma incrivelmente surpreendente reviravolta, enquanto que, na verdade, a possibilidade de ela ser irmã da rainha louca era extremamente óbvia, daquelas telegrafadas desde o primeiro segundo em que vemos as personagens tão afastadas espacialmente, mas também tão cheia de mistérios. Na verdade, essa obviedade era tão grande, mas tão grande, que confesso que já estava aguardando algum tipo de reviravolta para justamente evitar esse caminho.

Afinal de contas, se Maghra é uma princesa e bastava ela balançar aquele anel que ela protege obsessivamente, porque afinal ela não fez exatamente isso lá no vilarejo dos Alkenny, antes que todos fossem massacrados? Para que fazer suas crianças passarem por mais perigos se ela tinha o poder de parar Tamacti Jun de maneira tão dramática e eficiente? Sei que sempre haverá aquela resposta espertinha do tipo “senão não tinha história”, mas não é disso que falo. Espero muito fortemente que Steven Knight consiga explicar essa inconsistência de algum jeito minimamente convincente, caso contrário See poderá ser ferida de morte sob o ponto de vista narrativo, abrindo caminho para literalmente qualquer coisa, por mais ilógica que possa ser.

No entanto, se esquecermos esse momento completamente WTF?, Plastic consegue ser um episódio mediano que acrescenta mais um filho desgarrado de Jerlamarel – faz todo sentido ele distribuir suas sementes da visão por aí, mas nenhum sentido ele abandoná-los – e uma boa história de conexão familiar que começa com uma fortíssima desconfiança de Paris sobre Maghra, desconfiança essa que, convenientemente, só vemos agora em mais um problema de construção de narrativa que temos que glosar se quisermos ter a chance mínima de apreciar a série. O passo do episódio é, possivelmente, o mais apertado até agora, com boas elipses que evitam duplicação de esforços como quando Boots é revelado como alguém que também enxerga e, depois, Kofun e Haniwa já explicando quem ele é para os demais. Funciona, mas por pouco.

Mais uma vez, as cenas de combate são muito boas, estabelecendo uma atmosfera e uma técnica que torna verossímil esse mundo em que todos são cegos. A fotografia de Brian Pearson continua sendo o grande destaque técnico juntamente com a trilha sonora sutil, mas sempre presente de Bear McCreary. No entanto, esses dois elementos, sozinhos, não são suficientes para fazer da série o que ela tem o potencial de ser. Knight precisa ir além do visual para contar sua história e trabalhar roteiros que parem de introduzir novos elementos importantes na medida do necessário para impulsionar a história. Afinal, o tal saquinho com o anel de princesa de Maghra só ganhou existência em The River e, em Plastic, tornou-se o centro das atenções e o artifício de virada.

O único ponto não-técnico de See até agora que merece destaque é a performance de Sylvia Hoeks como a rainha Kane. A modelo e atriz holandesa, que fez a replicante Luv em Blade Runner 2049, constrói um ser perturbado, vaidoso e completamente desconectado da realidade da vida fora de sua fortaleza/represa que a leva ao completo isolamento depois de matar sei-lá-quantos súditos por puro hubris e, provavelmente, à escravidão fabricando seda na City of Worms. Tenho certeza que isso não durará muito tempo e que ela logo dará um jeito de virar o jogo completamente, mas será interessante ver o processo desde que o showrunner não decida sair correndo com esse desenvolvimento também.

See começou bem, mas agora chegou no ponto de realmente mostrar a que veio, e, ao contrário, o que tenho percebido é uma acomodação maior e uma paralisia criativa repleta de conveniências que não demonstra um caminho realmente interessante para seu futuro próximo. A rainha Kane, por mais fascinante que possa ser, não conseguirá compensar o que o lado da agora princesa Maghra parece ter a oferecer.

See – 1X05: Plastic (EUA – 15 de novembro de 2019)
Criação: Steven Knight
Direção: Anders Engström
Roteiro: Steven Knight, Soo Hugh
Elenco: Jason Momoa, Sylvia Hoeks, Alfre Woodard, Hera Hilmar, Christian Camargo, Archie Madekwe, Nesta Cooper, Yadira Guevara-Prip, Mojean Aria
Duração: 52 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.