Crítica | See – 1X08: House of Enlightenment

  • Há spoilers. Leiam, aqui, as críticas dos demais episódios. 

Cliffhangers não são essenciais para carregar uma série de uma temporada para outra, mas eles estão tão embrenhados na forma de se produzir televisão, que são raros os exemplos em que eles não são usados abertamente e não há nada substancialmente de errado nisso. No entanto, cliffhangers bons são aqueles que até podem surpreender o espectador, mas que precisam necessariamente decorrer da história contada até o ponto em que ele é usado. E, infelizmente, esse não é o caso da 1ª temporada de See, série comandada por Steven Knight, o mesmo showrunner da sensacional Peaky Blinders.

Na verdade, no afã de criar um cliffhanger inesperado, o roteiro que Knight co-escreveu com Jonathan Tropper atropela o próprio episódio, esvaziando-o de qualquer significado e retirando qualquer possibilidade de “iluminação” na tal House of Enlightenment, uma prisão com energia elétrica e uma vasta biblioteca onde o misterioso Jerlamarel coleciona filhos (e netos) com o poder da visão. Até visualmente o local é pouco inspirado e, ironicamente, mais escuro do que as tomadas exteriores da série, com o patriarca pouco falando de suas intenções, mas deixando evidente que ele deixou sua hubris  subir à cabeça, levando-o a comparar-se com um deus ou pelo menos equiparar-se a um messias.

Era nesse ponto que o episódio precisava explorar mais as intenções de Jerlamarel e não simplesmente fazer um tour pelo local. Claro, sem dúvida foi interessante ver Haniwa e Kofun lutando para adaptarem-se na única noite que têm lá dentro, mas tudo passa muito rapidamente, logo abrindo espaço para uma trama que cai de para-quedas na série e que envolve o desejo do irmão nunca antes mencionado de Baba Voss de ter para si os filhos de Baba. A conexão entre Jerlamarel e Evo Voss, que não apareceu ainda, é no máximo tênue, ainda que a dependência do “reprodutor de filhos com visão” em relação ao general fique clara. Por outro lado, o porquê de Evo Voss querer os filhos do irmão – e, ainda por cima, aparentemente realmente achar que aqueles são os filhos biológicos de Baba Voss – fica para o futuro da série.

E, no meio dessa trama completamente aleatória que resulta no sequestro de Haniwa e no desespero de Kofun, o retorno de Baba Voss era mais do que evidente e esperado, novamente demonstrando uma pressa grande demais no roteiro em basicamente retornar ao status quo anterior de jornada da família pelo mundo selvagem. Sim, sem dúvida a luta entre Baba e Jerlamarel foi muito boa, como sempre são as lutas na série, mas o personagem de Jason Momoa está começando a ficar imortal demais. Ele já estava todo arrebentado e, mesmo depois de mais uma facada e um tiro, ele continua andando como se nada tivesse acontecido. Pelo menos o mais do que óbvio final de Jerlamarel foi catártico, mas não tenho dúvidas de que ele voltará com força total na próxima temporada para vingar-se.

No outro lado da história, minha previsão de que a rainha Kane seria morta ou banida foi completamente frustrada em uma reviravolta que elimina Tamacti Jun, um dos melhores personagens na série e que ainda tinha muito espaço para ser trabalhado. Considerando a sensibilidade do caçador de bruxas, ele ser pego de surpresa por Boot pareceu-me forçado demais, mesmo considerando que ele estava concentrado em sua missão ingrata de matar Kane. Seja como for, presumo que, agora, as irmãs, governando juntas, dirão que o reino delas foi destruído por intervenção divina. Aliás, Kane e Maghra são rainhas do que mesmo agora? De uma centena de soldados? Pelo menos aqui a construção dos acontecimentos teve mais lógica e peso do que no lado de Haniwa e Kofun.

A 1ª temporada de See acabou e ela já havia sido renovada. House of Enlightenment desaponta demais por ser, todo ele, um enorme cliffhanger aleatório que estabelece um novo, mas velho, status quo e uma nova jornada para a família Voss. Será que o que teremos será simplesmente mais do mesmo?

See – 1X08: House of Enlightenment (EUA – 06 de dezembro de 2019)
Criação: Steven Knight
Direção: Salli Richardson-Whitfield
Roteiro: Steven Knight, Jonathan Tropper
Elenco: Jason Momoa, Sylvia Hoeks, Alfre Woodard, Hera Hilmar, Christian Camargo, Archie Madekwe, Nesta Cooper, Yadira Guevara-Prip, Mojean Aria
Duração: 54 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.