Crítica | Segunda Chamada – 1ª Temporada

Era uma vez um dramaturgo chamado Jô Bilac. Ele escreveu Conselho de Classe. Foi premiado e ganhou projeção. Ao descobrir o texto, a dupla formada por Carla Faour e Julia Spaldaccini resolveu criar a série Segunda Chamada, uma das produções televisivas brasileiras mais surpreendentes do ano, haja vista a crueza e a emoção do conteúdo dramático, em simbiose com os seus elementos estéticos, um ponto bastante significativo na qualidade da ficção seriada televisiva produzida pela Rede Globo de Televisão. O ponto nevrálgico da narrativa é a crise na educação brasileira, tema que permite excelentes momentos de desenvolvimento de roteiristas e, respectivamente, do elenco no desempenho das situações mais aberrantes que qualquer pessoa de fora desse sistema possa imaginar.

Sob a direção de Joana Jabace, guiada pelos roteiros assinados por Giovana Moraes, Jô Abdu, Maíra Motta e Victor Atherino, acompanhamos a trajetória de vários personagens coadjuvantes importantíssimos para o desdobramento da trama central, focada em Lúcia (Deborah Bloch), professora da Educação de Jovens e Adultos que segundo alguns flashbacks e comentários, retorna de um período tenso em sua vida, algo que envolve a morte de seu filho e a invalidez de Alberto (Marcos Winter), seu marido, homem que sucumbiu após a tragédia que tomou a sua família. Ela é a protagonista da série, mas isso não a faz ser uma mulher perfeita, o que torna o personagem e a sua trajetória ainda mais intenso e brilhante.

A história conflituosa com Marcelo (Artur Volpi), seu único filho, morto num atropelamento na saída da escola, após uma discussão calorosa com o professor Paulo (Caio Blat). Descobriremos, por meio de doses homeopáticas de revelações, as motivações dessa confusão, revelada próximo ao desfecho da temporada, justamente quando Paulo retorna para substituir a personagem de Deborah Bloch durante um breve afastamento da professora. Ela tem um caso amoroso com o diretor Jaci (Pedro Gorgulho), gestor com a difícil missão de manter a escola em funcionamento, além de ter que lidar com o problemático Leonardo (Leonardo Bittencourt), seu filho, um manancial de celeumas para deixar qualquer pessoa com a sanidade em constante fase de teste. São detalhes que tornam os personagens mais críveis e pulsantes, paralelos aos esquemas da nossa realidade, algo que permite maior aproximação com o público.

No amplo panorama dos coadjuvantes, temos Eliete (Thalita Carauta), professora que em muitos trechos funciona como alívio cômico e traz um pouco de leveza para a dura realidade escolar, o que não a impede de ser consciente de seu papel nos momentos de maios aspereza, no calor da hora em que é necessário tomar decisões complexas; Sônia (Hermila Guedes) é a professora de História cheia de problemas pessoais, viciada em medicação controlada e representação cabal da situação da classe de educadores no Brasil, um grupo de pessoas doentes diante da realidade brutal de um sistema falido; Marco André (Silvio Guindane) é o professor de Artes, idealista que descobre o teatro abandonado da escola, transformado em depósito, numa postura que muda a vida das pessoas que transitam pelo local, sem antes, no entanto, ouvir constantemente que as artes não são urgentes na dura realidade dos seus alunos.

Regidos por esse time de educadores temos Solange (Carol Duarte), aluna que rouba leite da cantina para alimentar o seu recém-nascido; Natasha (Linn da Quebrada), travesti que luta diariamente contra o preconceito e opressão de um país mergulhado nas “fobias” de toda classe; Maicon Douglas (Felipe Simas), estudante exemplar que consegue bons resultados na escrita, mas por conta da sua situação complicada em casa, com mulher e filho, todos à beira da fome, resolve realizar um assalto na sala de aula, o que deságua numa de tantas tragédias vivenciadas pelos alunos que circulam pela Escola Carolina Maria de Jesus; Gislaine (Mariana Nunes), estudante exemplar que trabalha como garota de programa e sofre assédio depois que sua profissão é exposta numa situação específica da escola; Silvio (José Dumont), idoso “morador” de rua, homem com brilhante desempenho na matemática e com sonhos para realizar, segundo algumas declarações em diálogos pontuais; Jurema (Teca Pereira), idosa que sonha em terminar os estudantes, mesmo que o marido machista não goste nada de sua atitude “avançada”.

Também são regidos pelo grupo de professores: Aline (Ingrid Gaigher), jovem ameaçada pelo antigo namorado tóxico; Joelma (Ariane Souza), a garota que vive constantemente na defensiva, sempre desconfiada; Jiraya (José Trassi), responsável pela circulação de medicação tarja preta nas dependências da escola, sendo o fornecedor oficial da professora Sônia; Valquíria (Georgette Fadel), aluna nova que sofre preconceito por ser ex-presidiária; Javier (Gabriel Diaz) e Alejandra (Rosalva Vanessa), estudantes venezuelanos que também são atacados constantemente pelos colegas, principalmente depois que seus lanches vendidos no pátio ganham maior destaque que os vendedores locais, alegoria para as tensas relações entre Brasil e Venezuela nos últimos acontecimentos geopolíticos sul-americanos; Pedro (Vinicius de Oliveira), marido de Marcia (Sara Antunes), casal evangélico que passa por algumas situações de complexidade no que tange aos relacionamentos com alguns alunos da escola, haja vista as crenças religiosas de ambos, bem como o fato de Márcia ter um recém-nascido e precisar amamentar no espaço escolar, motivo para polêmica, assédio de alunos imaturos, ciúmes do marido, etc.

Gravada na antiga escola do Jockey Clube de São Paulo, Segunda Chamada é uma série com traços estéticos bem-sucedidos. A direção de fotografia da dupla formada por Glauco Firpo e Marcelo Trotta atua para que os elementos dramáticos na produção sejam encenados da melhor maneira possível. Quadros e ângulos trabalhem numa simbiose perfeita para a exposição dos tópicos temáticos abordados, em especial o uso do zenital, angulação ideal para a extração dos anseios dramáticos de determinadas passagens. A direção de arte assinada por Dina Salem Levy age com eficiência na construção dos espaços por onde os transeuntes do programa interagem. As salas são sujas, as paredes urram por reformas, a arquitetura pede socorro diante de qualquer menção de chuva, o que designa alagamento e cancelamento das aulas. Os figurinos de Bia Salgado não permitem que a série saia dos trilhos do realismo, com personagens trajados dentro dos padrões urbanos que conhecemos, isto é, o básico jeans junto às combinações que dialogam com o poder de compra de pessoas sem grandes privilégios na sociedade de consumo contemporânea. A condução musical de Sacha Amback é outro setor que trabalha com eficiência, pois evita a inserção de qualquer composição carregada da costumeira musicalidade excessivamente intrusiva, geralmente em busca das lágrimas dos espectadores.

No desenvolvimento dos 11 episódios de 45 minutos da Primeira Temporada, o tema de abertura é a canção Comportamento Geral, de Elza Soares. Com cenas envelhecidas entre as caóticas dependências da escola e o prédio onde habita a protagonista, é um dos traços estéticos da série que permitem a nossa aproximação, pois dialoga bastante com os temas e situações desenvolvidas ao longo dos episódios. A emoção é extraída dos desempenhos dramáticos de um elenco forte, guiado por um texto idem, comandado por diretores competentes na execução de seus respectivos trabalhos. O resultado disso tudo é uma série exemplar, demonstração das possibilidades narrativas do audiovisual no Brasil, quando guiado por realizadores interessados na qualidade estética e dramática.

Segunda Chamada – 1ª Temporada (Brasil, 2019)
Criador: Carla Faour, Julia Spaldaccini,
Direção: Joana Jabace
Roteiro: Giovana Moraes, Jô Abdu, Maíra Motta, Victor Atherino
Elenco: Deborah Bloch, Paulo Gorgulho, Sara Antunes, Rosalva Vanessa, Gabriel Diaz, Sara Antunes, Vinicius de Oliveira, José Trassi, Ingrid Gaigher, Georgette Fadel, Linn da Quebrada, Linn da Quebrada, Thalita Carauta, Teca Pereira, Mariana Nunes, Silvio Guindane, Carol Duarte, Artur Volpi, José Dumont, Caio Blat, Marcos Winter, Leonardo Bittencourt, Hermila Guedes, Thalita Carauta
Duração: 11 episódios de 45 minutos

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.