Crítica | Segundas Intenções (1999)

Troque a fotografia ensolarada pelas nebulosas tomadas noir. Mude o estudante riquinho que se comporta como um Don Juan. Adapte o contexto da explosão da cibercultura para uso doméstico, em proximidade à virada do milênio, pelas celeumas posteriores aos conflitos da Segunda Guerra Mundial. A sociedade continua podre, mas diferente da perspectiva dos filmes noir, ainda há salvação, principalmente depois que a morte física ou social da femme fatale do enredo estiver garantida. Visto após 20 anos de seu lançamento, Segundas Intenções ganhou o meu olhar por este segmento. O sexo, a corrupção de valores, o egoísmo e o desejo de destroçar vidas alheias, motivação que chega a ganhar tons orgásticos, espalham-se como rizoma dos valores estabelecidos na vida dos personagens desta febre juvenil do final da década de 1990.

Inspirado em Ligações Perigosas, de 1982, que por sua vez, já é uma adaptação do texto homônimo de Chordelos de Laclos, Segundas Intenções traz os sádicos jogos entre dois irmãos que dividem a descendência apenas por parte do pai, um homem rico, abastado, mas distante. Temperamentais, abastados financeiramente e manipuladores, tais personagens são movidos por necessidades dramáticas semelhantes: a destruição de reputações. Com direção de Roger Kumble, também responsável pelo roteiro, o filme aborda o cinismo e a obsessão que funcionam como combustíveis as diversões do cotidiano de Sebastian (Ryan Phillipe) e Kathryn (Sarah Michelle Gellar), jovens controladores da vida social de muitos outros de Nova Iorque.

Ela é uma espécie de Messalina contemporânea, insaciável, empoderada apenas por conta do dinheiro e prestígio social, além da falsa imagem de equilibrada que passa para o corpo docente da instituição de ensino que estuda. Nem sempre age sozinha, pois na maioria das vezes faz uso de seus súditos, por meio de chantagens aniquiladoras e perverso controle. Ao longo dos 97 minutos de filme, ela viverá especificamente o mais novo jogo proposto ao meio-irmão: seduzir e destruir a imagem da novata Anette Hargrove (Reese Whiterspoon). A moça é a filha do diretor, tem ganhado as atenções.

Apontada como bom exemplo, escreveu um artigo elogiado sobre porque deveria esperar pelo casamento, para se relacionar sexualmente e estar pronta, como uma virgem, tocada pela primeira vez. É quando surge o plano diabólico de Kathryn. Ela sabe que o meio-irmão a deseja, pois é a única garota na cidade que ele pode se gabar de não conseguir levar pra cama por conta do seu charme, persuasão e dinheiro. Ciente disso, ela propõe: se ele conseguir seduzir e fazer a jovem Hargrove perder a virgindade, numa entrega total aos prazeres mundanos que a dupla tanto admira e se satisfaz, ela cede seu corpo para ele. Detalhe: ele pode “botar” onde quiser. Isso mesmo, coisas dos diálogos, insinuantes e provocativos.

Caso ele perca, ela ganha o seu invejável carro, cobiçado por muitos, além de outras coisas que de certa forma, tirariam um pouco da aura de inatingível do personagem. Sebastian entra no jogo e pede que seja organizada a destruição de outra vida: a jovem Cecile (Selma Blair). Ele quer literalmente devorá-la não apenas para sentir prazer com a imagem da moça diante das fofocas, mas também atingir outras pessoas que gravitam em torno da vida da garota. Kathryn segue com o combinado e enquanto organiza a destruição de Cecile, perturba a vida do personagem de Joshua Jackson, dentre outros. O meio-irmão, por sua vez, perde o jogo muito antes do combinado. Ele se apaixona pela jovem Hargrove.

E agora? O problema é que ele se deu conta dos seus sentimentos após o avanço dos planos. Contar é a solução? O que fazer? Perdido diante da situação tão conflituosa quando o seu psicológico perturbado, o personagem vai de encontro ao desfecho trágico. Dentro da proposta moral, o bem vence o mal no fim. E com direito a um encerramento publicamente humilhante, daqueles que nós adoramos assistir, tendo em vista vingar as maldades da antagonista ceifadora de reputações. Com algumas críticas pertinentes em relação ao selvagem ponto de partida literário, Segundas Intenções é um filme que pode gozar de sua boa reputação.

É bem executado e traz uma história envolvente, mesmo que o seu elenco ainda estivesse em começo de trajetória no cinema. Os figurinos de Denise Wingate são bem elaborados, ao contemplar cada personagem com um estilo que esteja de acordo com o seu perfil físico, psicológico e social, além de estar antenada com o design de produção de Jon Gary Steele, repleto de ambientes leves em contraste ao quase barroco apartamento dos irmãos Sebastian e Kathryn. Na direção de fotografia temos o trabalho de Theo van de Sande, profissional que segue bem a cartilha dos ângulos baixos para enaltecer e altos para subjugar. Com a câmera a passear por diversas perspectivas, inclusive em eficientes planos aéreos, o setor permite ao filme a afirmação anterior sobre ser uma trama bem executada.

De volta ao paralelo com a femme fatale realizado na abertura da reflexão, podemos incluir Kathryn no mesmo patamar das obcecadas de filmes como Fixação, Paixão Sem Limite, Atração Fatal, etc. Isso não significa que o filme seja comparável no sentido de se apresentar como melhor ou pior que os exemplos citados. É apenas parte de um estilo que dialoga, cada um a sua maneira, com obsessões responsáveis por destruir, “conscientemente” ou não, com palavras, gestos ou armas físicas perigosas. No caso dos irmãos diabólicos de Segundas Intenções, a maldade está na corrupção dos ambientes em que circulam. Não é um desejo latente que os personagens não conseguem controlar (Atração Fatal), tampouco erupções sexuais de garotas que não alcançam o botão de controle (Paixão sem Limite), nem mesmo o desejo de possuir a sua meta, isto é, o homem alheio (Fixação) por meio de ameaças seguidas de assassinatos. Aqui a obsessão traz à tona o desejo de manipular as pessoas.

Segundas Intenções (Cruel Intentions – Estados Unidos, 1999)
Direção: Roger Kumble
Roteiro: Roger Kumble
Elenco: Joshua Jackson, Louise Fletcher, Ryan Phillippe, Sarah Michelle Gellar, Sean Patrick Thomas, Selma Blair,
Duração: 97 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.