Crítica | Seis Vezes Confusão

“Talvez um deles trocou o seu nome para Idris Elba.”

O cineasta Michael Tiddes nunca dirigiu uma boa comédia até o momento. A sua contínua parceria com Marlon Wayans é uma incógnita criativa: Inatividade Paranormal e Cinquenta Tons de Preto não conquistaram recepções positivas, mostrando um esvaziamento imaginativo para se pensar piadas sem se repetir. O interesse dos dois em paródias, no caso, exemplifica uma inaptidão em se construir pretextos cômicos mais complexos, uma inconstância em sustentar uma coesão dentro de uma premissa específica e até uma gigantesca disparidade entre os seus nomes e o de Mel Brooks, um dos mais bem sucedidos diretores de comédias deste sub-gênero. Em contrapartida, apesar de bastante questionáveis criticamente, esses trabalhos formulaicos são economicamente recompensadores. Por isso, a “caridosa” Netflix passou a distribuir os projetos da dupla, como Nu, uma paródia ruim de filmes com loop temporal, e, agora, Seis Vezes Confusão. Dessa vez, Marlon interpreta Alan, um homem que está prestes a se tornar pai, mas guarda cicatrizes internas por nunca ter conhecido a sua verdadeira família. O personagem, que foi colocado para adoção ao nascer, então descobre ser um entre seis irmãos gêmeos, o que o colocará em uma roadtrip a procura de conhecer cada um deles. Quem se destaca nisso tudo é Wayans, “ousando” interpretar vários personagens e, portanto, almejar ser uma versão lançada direto em vídeo de Eddie Murphy.

Eddie Murphy, contudo, tem um passado de prós e contras em vista desse humor multi-facetado. Enquanto Um Príncipe em Nova Iorque é uma das melhores comédias norte-americanas dos anos 80, Norbit: Uma Comédia de Peso é um dos estrondosos desastres de sua carreira, que ajudou a acarretar o seu exílio artístico durante grande parte dos anos 2010. Nesse sentido, comparar Seis Vezes Confusão com o péssimo trabalho de Murphy em 2007 é mais seguro que estabelecer uma conexão com o trabalho de John Landis no clássico deste gênero, especialmente porque o próprio Marlon participou de Norbit. Mas o ator, ao invés de usar as inspirações como meio a criar algo novo, produz derivações extremamente genéricas de piadas de um passado. Ao menos, os temas familiares, por sua vez, aproximam o projeto de O Professor Aloprado, o remake protagonizado por Murphy. E, nesse sentido, o longa-metragem revela possuir uma moral muito específica: família é família, mesmo querendo ou não. Pois, independente dos seus recém-descobertos irmãos serem completos sanguessugas – e essa é a piada -, Alan se sentirá melhor tendo-os por perto. Porém, se brincar com estereótipos é uma constante do seu cinema, cria-se, em paralelo, caricaturas sem personalidade ou, às vezes, problemáticas. Da descoberta agradável de que o protagonista tem uma mãe à conclusão conciliadora, desventuras surgirão para provar tal comédia como impessoal.

Por se importar mais com um humor automático e vazio que o costurar à trama familiar, a obra recorre a personagens unidimensionais, que não servem para concretizar sequer um menor laço dramático – ou, por outro lado, permitir que certas resoluções sejam críveis. Pensamentos simples como o porquê da mãe de Alan ter aberto mão dos seus filhos são ignorados integralmente, para dar margem a um roteiro que não é bem pensado. Apesar de tantos personagens interpretados por Marlon estarem em cena ao mesmo tempo, a química é simplesmente inexistente. A computação gráfica até que torna as interações visualmente críveis – existe, ademais, um segmento com um touro que não causa muitas desconfianças ao olhar. Mas, mesmo assim, a humanidade em cena desaparece ao passo que nem o roteiro e nem as performances se importam em construir uma sintonia. Apesar disso, Russel consegue ter algum elemento a mais de confraternização com o seu irmão, por ambos estarem mais tempos juntos. Já outros, como Dawn e Jaspar, são superficiais, enquanto Ethan é avulso ao enredo. Os personagens, contudo, têm suas características repetidas tão exaustivamente que em pouco tempo tornam-se paródias deles mesmos. As más intenções escritas aos demais coadjuvantes, os arcos subjacentes rasamente orquestrados e a reiteração interminável de aspectos notáveis de cada um argumentam em oposição ao sucesso da comédia.

No mais, comprova-se a pequenez da criatividade de Wayans justamente por seu roteiro ter que se ater a tantas referências para encontrar uma relação com o espectador, para consolidar um mínimo de carisma. Com os seus ídolos não mais presentes no cotidiano dos amantes de cinema – Eddie Murphy já antecipa um retorno há anos -, surge um espaço só seu para protagonizar comédias e tornar-se o mesmo astro que aqueles do seu passado eram para um pequeno Marlon. Enquanto outros projetos continham combinações distintas para funcionar, o ator, por si só, não demonstra o mesmo tato para o gênero que os seus mestres, em contrapartida, apresentaram. Pelo contrário, Wayans parece estar mais interessado em surfar na onda da nostalgia ou do interesse comercial – as paródias que seguem sucessos cinematográficos do momento – que reinventar algo ou inventar algo. Russel, por exemplo, é um personagem construído inteiramente em uma anacronia curiosa, mas sintomática de uma enorme pobreza imaginativa, que apenas traz a nostalgia em um estado puro como ferramenta narrativa, sem novidades. Ora, Baby Pete é uma versão um pouquinho mais crescida do personagem de Marlon em O Pequenino. O cenário é tão claro que Alan só consegue se conectar com Russel através de momentos em que cantam canções de seriados antigos. O ator quer ser Eddie Murphy, mas está se esquecendo, antes de qualquer coisa, de ser Marlon Wayans.

Seis Vezes Confusão (Sextuplets) – EUA, 2019
Direção: Michael Tiddes
Roteiro: Marlon Wayans, Rick Alvarez, Mike Glock
Elenco: Marlon Wayans, Marlon Wayans, Marlon Wayans, Marlon Wayans, Marlon Wayans, Marlon Wayans, Marlon Wayans, Michael Ian Black, Molly Shannon, Glynn Turman, Bresha Webb, Debbi Morgan, Robert Pralgo, Patti Schellhaas, Jwaundace Candece, Jason Graham, Ruben Vidal, Casey Hendershot
Duração: 99 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.