Crítica | Selvagem (2018)

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Existem pessoas que não querem ser salvas.

Em Selvagem (2018), o diretor e roteirista Camille Vidal-Naquet apresenta esse conceito de não-salvação uma maneira bastante ousada, realista e triste, contando-nos a história de Leo, um jovem de 22 anos que mora na rua e se prostitui para viver. Entregue aos perigos que essa atividade pode trazer, Leo passa noites na casa de clientes, em baladas com os amigos michês, dormindo nas calçadas e parques, se drogando… Sem perspectiva de futuro, o jovem percorre o ciclo de sua vida desregrada e constantemente paga, com a saúde, com o corpo e a dignidade, os preços que essa existência sem regras lhe cobra.

O roteiro de Vidal-Naquet traz um pouco da libido à toda prova que temos em filmes do naipe conceitual de Um Estranho no Lago, por conta do desejo e realização do desejo num drama que exige o olhar para além de corpos nus e sexo entre homens. Mas o tecido que sustenta essa premissa erótica é outo. Não o suspense, mas o drama misto de caráter social, existencialista e emocional. E isso faz de Selvagem uma viagem pelo desejo desregulado, onde toda a vontade é realizada, todo prazer é conseguido, mas não há um único momento de satisfação. O protagonista, vivido de maneira apluadível por Félix Maritaud (120 Batimentos por Minuto), ao mesmo tempo que tem uma enorme fome por carinho e afeto, não consegue se desvencilhar de seu impulso maior de estar nas ruas, de se sentir inteiramente “livre”, longe de qualquer compromisso que não seja aquele que ele elegeu para si mesmo.

Ao longo do filme, vemos que o texto mergulha não apenas na vida sexual do personagem, mas na profundidade ou vício que envolve os seus laços. Como destaque, temos Ahd (Eric Bernard), também michê e por quem Leo nutre um sentimento amoroso que não é correspondido, o que contribuiu para uma série de outras escolhas erradas de Leo do meio da fita para frente, em parte, para sublimar esse desejo que ele sente por Ahd e que não lhe é permitido realizar. Já a relação de amizade entre os michês é algo que nos faz pensar duas vezes antes de construir um conceito fixo a respeito deles. Entre brigas e ajuda de um ao outro, vemos que todos eles estão mergulhados no mesmo caldeirão de carência que ora combinam com o que querem, ora é apenas algo que eles precisam para para não morrer, para não passar fome ou porque não conseguem ver nada mais além daquele mundo.

Na reta final, a obra dá uma gigantesca desacelerada e isso freia um pouco a força que a obra tinha. O motivo disso é claro, porém. Era necessário um momento de “espaço social certinho e limpo” para dar a Leo o caráter de selvageria que o título do filme promete. Se isso vem como uma lombada para o filme, não é daquelas que derruba inteiramente a qualidade, apenas diminui muito o passo para algo o tempo inteiro insano e acelerado. Até a fotografia entra na jogada, partindo das saturações e filtros que ajudam a compor esse mundo o tempo inteiro cercado ao redor de Leo (como um aquário de luz e cor para cada ocasião) e adota o formato de limpeza e claridade que também nos parece estranho à primeira vista. Mas ao atravessar essa ponte, chegamos ao núcleo da obra. O momento onde nós entendemos — embora não gostando — que tipo de pessoa Leo é.

Selvagem (Sauvage) — França, 2018
Direção: Camille Vidal-Naquet
Roteiro: Camille Vidal-Naquet
Elenco: Félix Maritaud, Eric Bernard, Nicolas Dibla, Philippe Ohrel, Pavle Dragas, Mehdi Boudina, Azir Mustafic
Duração: 99 min.

LUIZ SANTIAGO (Membro da OFCS) . . . . Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.