Crítica | Sem Anestesia

A Segunda Guerra Mundial foi determinante para a história moderna da Polônia. Ocupada pelos nazistas entre 1939 até 1945; e dominada pelos soviéticos até 1990, findada após a derrocada do comunismo na Europa. Tendo sido palco de diversas atrocidades, como o campo de concentração de Auschwitz, a Polônia teve uma geração marcada pela destruição. O povo polonês até hoje sofre com traumas passados dentro das inúmeras ocupações.

Dentro desse cenário bélico e violento, conhecidos nomes da cinefilia nascem e/ou constroem sua adolescência. Andrzej Żuławski e Krzysztof Kieslowski são dois futuros diretores que viveram durante o período da tomada hitlerista de seu país. No entanto, anos antes, nascia Andrzej Wajda, o grande expoente do cinema polonês ao longo do século XX. Diferente dos outros realizadores compatriotas, Wajda vivenciou os horrores da Segunda Guerra Mundial com maior proximidade: lutando ao lado da resistência francesa. Construindo um vasto imaginário de imagens perturbadoras, Wajda desenvolve um olhar pessimista perante o futuro da humanidade.

Sem Anestesia versa sobre um jornalista, Jerzy Michalowski, que após dias fora de casa devido a um compromisso profissional, volta para sua cidade natal, enquanto sua entrevista a um talk show é exibida em rede nacional. Nessa gravação, Jerzy expõe ideais políticos e segredos de matérias que havia realizado anos antes. Em seu retorno à casa, Michalowski descobre que era constantemente traído por sua esposa e que ela havia entrado com um pedido para o divórcio. Vendo sua vida pessoal e profissional desmoronar subitamente, o protagonista encara seus maiores medos e angústias.

Wajda nunca teve receio de subverter completamente os valores da indústria hollywoodiana. Além de não seguir paradigmas narrativos e convenções de gênero, o diretor destrói o conceito da audiovisualidade perfeita pregada por Hollywood. Enquanto as grandes produções prezam por uma visualidade límpida e um dispositivo auditivo primoroso, sem qualquer ruptura nesse padrão, Wajda vai de encontro. Sem medo algum de deixar a imagem desfocada e criar ruídos sonoros entre os planos, o diretor concilia diretamente sua narrativa da perturbação da mente humana com sua estética ruidosa e disforme.

Ainda dentro da linguagem adotada por Andrzej Wajda, é importante sinalizar que, dentro de sua filmografia, o diretor escolhe uma abordagem grotesca em cima de seus roteiros. Da mesma maneira que o teatrólogo Jerzy Grotowski buscava fugir das formalidades naturalistas, faz o diretor polonês. Em uma espécie de tentativa de criar um monólogo interior de Michalowski por meio da mise en scène, Wajda constrói isso de maneira exemplar.

Como exemplo, o limiar entre a vida normal do protagonista e sua devastação é marcado por uma sutil, mas poderosa mudança na mise en scène. No princípio da obra – nas cenas em que Michalowski é entrevistado, mais especificamente – a encenação adota um caráter muito mais convidativo ao espectador. O protagonista está em um lugar de conforto, próximo à câmera, em foco e com uma imagem límpida. Então, no momento em que ocorre a cena no dentista, há a mudança: a imagem passa a maior parte do tempo fora de foco e a forte iluminação fere os olhos do espectador; além disso, o som torna-se completamente antinatural e forte. Aqui, então, é configurada a ideia de um monólogo interior criado a partir da mise en scène.

Em nenhuma sequência da película Wajda concede sossego ao seu protagonista. Após inúmeras e falhas tentativas de volta à normalidade, Michalowski acumula fracassos e a derrocada de sua vida parece mais constante. Aqui, dessa maneira, é introduzida uma visão um tanto quanto pessimista em relação ao homem. Tendo como ambiente os nebulosos anos 1960, o ápice da Guerra Fria e das tensão por uma Terceira Guerra Mundial, nada parece mais adequado que o pessimismo de Andrzej Wajda. Em Sem Anestesia, por mais que Michalowski tente consertar sua vida, instâncias superiores não o permitem completar essa vira de tom.

A ida à corte é uma das cenas finais e centrais da trama. Aqui, em um momento de claro desconforto, a estética do grotesco e do antinatural é deixada de lado, contradizendo aquilo que Wajda vinha colocando na tela. Neste momento, Sem Anestesia fica próximo de filmes como Kramer vs Kramer (Robert Benton, 1979), tornando esta parte da película um tanto quanto distante do restante do filme, fator que empobrece a obra como um todo.

Contudo, em questão de poucos minutos, o filme retorna à sua linguagem anteriormente adotada. A mise en scène torna-se, novamente, angustiante, criando momentos de confusão visual e histeria. A última sequência, construída a partir do choque, é arrebatadora e confirma o pensamento negativista de Wajda. O grotesco, aqui, é levado a outros patamares. 

Andrzej Wajda atinge, com total êxito, uma ressignificação do gênero dramático. Sua capacidade de transformar uma trama cotidiana em um denso filme que explora à exaustão a mente do protagonista é invejável. Sem anestesia alguma, o espectador é introduzido à pesada existência de Michalowski e, junto dele, sente suas dores. 

Sem Anestesia (Bez znieczulenia) – Polônia e França, 1978
Direção: Andrzej Wajda
Roteiro: Andrzej Wajda e Agnieszka Holland
Elenco: Zbigniew Zapasiewicz, Ewa Dalkowska, Andrzej Seweryn, Krystyna Janda, Emilia Krakowska, Roman Wilhelmi, Kazimierz Kaczor
Duração: 131 min.

FREDERICO FRANCO . . . Estudante de cinema de Porto Alegre, RS, que pretende ser professor de cinema. Ocupo meu tempo com literatura, música e cinema. No mundo da literatura, Borges é meu padrinho; na música, sou regido pelo sintetizador de Charly García; e, junto de Michael Snow e Michelangelo Antonioni, caminho pelo mundo do cinema.