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Crítica | Sem Licença Para Dirigir

A habilitação como busca pela redenção juvenil.

por Leonardo Campos
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Muitas pessoas dedicadas aos ideais de liberdade supostamente conquistados pela carteira de habilitação se preocupam extensivamente com o desenvolvimento adequado do exame prático, última etapa do processo para se tornar um condutor devidamente registrado, deixando de lado outra fase também muito importante, a prova teórica, eliminatória ao se ofertar para os avaliadores como uma forma de observar se o candidato possui conhecimento sobre trânsito e mobilidade, adquiridos ao longo da vida, mas organizados durante os módulos estudados na autoescola. Les Anderson, personagem de Corey Haim na comédia Sem Licença Para Dirigir, é uma ilustração didática deste tipo de perfil. Como a maioria dos adolescentes, ele é um rapaz que projeta no automóvel que ganhará dos pais e no documento de habilitação, a liberdade tão almejada para ser considerado “irado” na escola, bem como conquistar a garota dos seus sonhos, uma jovem chamada Mercedes, alguém que o roteiro convenientemente deu o nome de um carro, para atender aos requisitos temáticos desta humorada narrativa de 90 minutos, lançada em 1988.

Logo nos créditos de abertura, o filme orquestrado pelo cineasta Greg Beeman trata de nos inserir na atmosfera de uma trajetória que tem no trânsito e na mobilidade urbana, os principais espaços para a construção dos conflitos enfrentados pelos personagens. São placas, sinalizações horizontais, semáforos e outras referências ilustrativas, presentes antes da história do jovem Les Anderson ter o seu início. Na trama, ele realiza o exame de seleção para conseguir o documento de habilitação, mas infelizmente é reprovado, situação que o afasta dos sonhos almejados com tanta ansiedade. Ele e seu amigo Dean (Corey Feldman) já vivem aventuras cotidianamente na rua, em casa e na escola. Com a possibilidade de assumir a direção de um automóvel, esses momentos de diversão prometem se tornar ainda mais emocionantes. Há, no entanto, o obstáculo legal já mencionado, algo que não é impeditivo para o rapaz pegar o carro do avô, emprestado para o seu pai por um tempo determinado. Ele assume o controle do sofisticado automóvel e segue numa aventura cheia de desafios eletrizantes, colocando não apenas a sua integridade física em jogo, mas também pondo em risco tudo e todos ao seu redor.

Tudo isso é movido por sua paixão pela bela Mercedes (Heather Graham), uma garota que provavelmente não lhe daria importância se não fosse a posse de um carro pelo rapaz. Ela é atraente e desejada por outros garotos da escola, alguém que salvaguardas as devidas proporções, pode namorar o jovem que quiser. Ele, no entanto, encontra numa breve oportunidade de flerte a chance de conquistar a moça que se torna o alvo de seu coração apaixonado. É quando começam os problemas. Ansioso e chateado, Les ainda precisa enfrentar o castigo estabelecido pelos pais, casal que o confina ao descobrir que ele voltou do exame de seleção e mentiu sobre a aprovação. Acuado, ele precisa enfrentar duas semanas de reclusão, mas já na primeira noite, pega o carro da família escondido e sai para uma aventura que mudará a sua vida para sempre. Os tais momentos eletrizantes envolvem a bebedeira de Mercedes, a perda da consciência, alguns atritos com outros carros na rua, o pagamento ilegal de uma taxa “por fora” para o motorista do guincho para se livrar de uma demanda, dentre outras situações.

Para quem conhece o cinema dos anos 1980, consegue logo associar Sem Licença Para Dirigir com o estilo de produção da época, uma era cheia de especificidades, com um determinado personagem lidando com tudo e todos, além do enfrentamento do sistema, tendo o ideal estadunidense de liberdade a qualquer preço como combustível condutor de suas ações. Há um clima ao estilo Curtindo a Vida Adoidado, numa trama que observada diacronicamente, apresenta problemas que vão além dos problemas de trânsito e mobilidade segura, retratados em quase todas as cenas desta vertiginosa comédia. É de se espantar que uma trama com tantas insinuações sobre sexo na juventude não toque em um momento sequer no vocábulo “preservativo”, haja vista a ascensão do HIV e da AIDS no país ao longo de toda aquela década. Muito estranho, mas enfim, é uma narrativa de um período, com determinados maneirismos, coisa que observamos mais detidamente pelo descolamento temporal, ao olhar para algo de 1988 em pleno 2021, uma era com tantas transformações sociais a nos envolver.

Ademais, como narrativa de entretenimento, Sem Licença Para Dirigir funciona adequadamente. É um filme com momentos bobos, mas que nos permite compreender o que está por detrás da ânsia do público jovem por um automóvel. O que podemos perceber nitidamente é a ausência de um carro como sinal de fraqueza para o jovem que não o detém ou precisa dos pais para realizar deslocamentos em eventos e demais situações especificas de mobilidade. Como paquerar, ser autêntico e conquistador sem um automóvel, de preferência, sofisticado e veloz? Esse é o ideal que logo nos primeiros minutos de filme, a irmã do protagonista Les Anderson debate na mesa do jantar com a família. Indignada, a moça aponta a opressão que um carro representa para determinadas pessoas, debate aparentemente simples, mas que embasa algumas possibilidades de reflexão expostas pelo discurso de um filme que para muitos, poderia ser apenas uma narrativa de entretenimento mediano para o público.

Com direção de fotografia de Bruce Surtees e acompanhamento musical agitado de Jay Ferguson, Sem Licença Para Dirigir é burocrático em sua construção estética, sem grandes momentos memoráveis nos requisitos visuais e sonoros que o definem como filme. Isso, no entanto, não desmerece a produção enquanto narrativa que ainda funcione para os espectadores contemporâneos. Lançada há três décadas, a comédia brinca com o que a psicóloga clínica Maria Eduarda Cardoso Guedes, especialista em Terapia Cognitiva Comportamental, fala sobre os jovens e as suas ideias acerca da suposta liberdade adquirida com a habilitação, documento que representa para muitos deles, o passaporte para a vida adulta, o alcance da independência e a dissociação do contato obediente diante dos pais/responsáveis. O roteiro assinado por Neil Tolkin insere na trama, situações que impediriam um jovem brasileiro, regido por nosso Código de Trânsito, de atender ao que se pede no artigo 147, trecho que reforça a necessidade de realização das etapas de um processo de formação, isto é, a autoescola, para garantir o documento que lhe permite ser condutor.

Les Anderson é muito autoconfiante, mas não possui suporte emocional para ser um bom motorista, algo que a produção divertidamente celebra no desfecho, sem a habitual busca pelo reestabelecimento da ordem após tanto caos. O jovem, agora no carro da namorada, ganha as ruas da cidade de maneira aventureira sem ter conseguido a habilitação tão almejada. Essa é uma manobra diferente para os filmes hollywoodianos que geralmente gostam de manter tudo em ordem e conforme as regras sociais. Ele acena para a família, corre para o carro da garota, assume o volante e mesmo sem cinto de segurança, sai a cortar a rua feliz e radiante, tendo no carro a representação da sua vitalidade e autoconfiança, mesmo após uma exaustiva noite de trapalhadas de trânsito. É um final irônico, divertido, mas uma manobra bastante perigosa, tal como as ações realizadas na noitada com o amigo Dean e a namorada dos seus sonhos, a garota bêbada que lembra vagamente de tudo que viveu na saga que domina mais da metade da narrativa. Recentemente, um grupo de produtores anunciou o interesse por uma refilmagem desta história, agora, protagonizada por uma garota. Agora é aguardar para conferir os resultados.

Sem Licença Para Dirigir (License to Drive, Estados Unidos/1988)
Direção: Greg Beeman
Roteiro: Neil Tolkin
Elenco: Corey Haim, Corey Feldman, Richard Masur, Carol Kane, Heather Graham, Michael Manasseri, Nina Siemaszko, James Avery
Duração: 90 min.

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