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Crítica | Sem Pistas (2002)

Um bom desfecho para um suspense genérico.

por Leonardo Campos
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Sem Pistas

Há filmes que se apoiam em suas reviravoltas finais para assegurar, junto aos espectadores, o mínimo de aceitação positiva. Há casos que dão certo, mas no desenvolvimento de Sem Pistas, as surpresas de seu desfecho não conseguem dar conta de resolver todos os problemas narrativos dispostos ao longo dos 93 minutos deste suspense psicológico que é puro marasmo. Sob a direção e roteiro de Stephen Gaghan, realizador inspirado no romance de Sean Desmond, acompanhamos a trajetória de Catherine Burke (Katie Holmes), uma pesquisadora universitária envolvida profundamente em sua tese, imersão associada ao desejo de conquistar uma vaga numa corporação que garante a execução de muitos de seus planos para o futuro. Katie pensa grande e prospecta alto, mas a sua trajetória rumo ao ideal desejado de uma vida estruturada em bases profissionais sólidas parece começar a ruir quando uma história do passado retorna para tirá-la de sua zona de conforto. Diante do exposto, será a hora da garota reagir.

Catherine é desafiada após a chegada do Detetive Wade Handler (Benjamin Bratt), investigador que reabriu o caso do namorado da moça, Embry Larkin (Charlie Hunnam), misteriosamente desaparecido há dois anos. Ele tinha passagens para a Grécia que não foram utilizadas, o seu saldo bancário e finanças mantiveram-se estagnados desde então, algo que levanta suspeitas acerca do seu paradeiro. Qual o mistério? Ele morreu? Cometeu algum crime e sumiu? Por que após as buscas do detetive a enigmática Catherine começou a revê-lo em situações que não sabemos exatamente ser confusão mental ou realidade? Sem Pistas abraça esses elementos narrativos para continuar a saga que mescla suspense e policial em doses equilibradas, mas num ritmo letárgico, capaz de deixar qualquer espectador demasiadamente otimista bastante irritado. O detetive, cabe ressaltar, é um homem com passado recente problemático, envolto nas penumbras do alcoolismo e diante da moça que é um enigma a ser decifrado, encontra gatilhos que podem pavimentar um novo caminho para a sua derrocada, algo bem próximo ao “noir”.

A participação dos coadjuvantes Samantha (Zooey Deschanel) e Harrison (Gabriel Mann) não ajuda em muita coisa, a não ser preencher os momentos em que já passamos por uma superexposição de Catherine e precisamos de outros breve assunto para continuar a travessia da moça em sua jornada tão conflituosa. Trajada pelos figurinos de Louise Frogley, a personagem de Katie Holmes nunca se excede em cena, mantendo-se constantemente com roupas e adereços que transmitem a sua aura de garota comum, sem peças ousadas ou uso de cores que pudessem fazê-la adentrar no clichê da mulher fatal cinematográfica. Em suas passagens pelos cenários concebidos pelo design de produção de Gideon Ponte, ambientação interessante, um ponto positivo para o filme, ela flerta com uma possível presença sobrenatural, mas todo o mistério se resolve nos minutos finais e ficamos agradecidos pelo desfecho, algo que próximo aos 90 minutos, já era ansiosamente esperado.

Ao que parece, Catherine é uma jovem com histórico de abandono traumático por parte de seu pai, situação que a fez desenvolver um comportamento psicótico, colocado em prática no momento em que seu namorado decide terminar o relacionamento e cancelar a viagem que ambos tinham marcado para a Grécia. Ela o ataca e com um golpe na cabeça, ceifa a vida do coitado, da mesma maneira que faz com o detetive, após as pistas levarem o representante da lei para o mesmo local onde se encontra o esqueleto de Embry, mergulhado em águas relativamente rasas de uma caverna. E, para mostrar que Catherine não está para brincadeira, o seu olhar no desfecho do filme indica que a sua postura reativa parece não ter findado com o namorado e o detetive. Seu atual relacionamento, Robert Hanson (Mark Feurstein), conta que foi promovido e que o namorado talvez seja algo para se projetar mais adiante. Pelo que tudo indica, o “não” parece uma expressão vocabular indesejada por essa garota que vive perigosamente.

No enredo confuso e cheio de justaposição de acontecimentos desarticulados, temos uma trama que aspira o tema da mulher fatal e diabolicamente dúbia, tópico aproveitado indevidamente, haja vista a superficialidade da abordagem, tratada com descaso pela direção de Stephen Gaghan, em sua história interessante em tese, mas desenvolvida erroneamente. Katie Holmes é carismática, mas funciona melhor em comédias românticas, incapaz de abraçar aqui o seu personagem e dar ao seu desempenho dramático a carga necessária para nos convencermos de sua habilidade em ser mortal. Esteticamente, a direção de fotografia de Matthew Libatique cumpre a sua função com algumas imagens bonitas e assertivas para construção de uma atmosfera envolvente, da mesma forma que Clint Mansell na condução da trilha sonora, setor que funciona melhor sozinho que associado ao filme, anticlimático, lento, dramaticamente frágil e nada memorável.

Sem Pistas (Abandon | Austrália/Canadá – 2002)
Direção: Stephen Gaghan
Roteiro: Stephen Gaghan
Elenco: Katie Holmes, Benjamin Bratt, Charlie Hunnam, Zooey Deschanel, Fred Ward, Mark Feuerstein, Melanie Lynskey, Philip Bosco, Gabriel Mann, Will McCormack, Gabrielle Union, Greg Kramer
Duração: 99 minutos

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