Crítica | Sem Proteção

estrelas 3Em seu filme anterior, Conspiração Americana (2010), Robert Redford apresentou uma história política dotada de críticas a um grupo específico de pessoas e a instituições específicas de seu país, o que também fizera anteriormente, em Leões e Cordeiros (2007). Em seu novo filme, Sem Proteção, o diretor não trouxe à tona conflitos seculares ou mais conhecidos do grande público, mas sim um roteiro de Lem Dobbs baseado no romance de Neil Gordon sobre o grupo radical de esquerda e anti-Guerra do Vietnã chamado Weather Underground.

O filme começa com reportagens sobre ações do grupo e outros protestos nacionais – que não foram poucos – sobre a atuação dos Estados Unidos no sudeste da Ásia, uma atitude geopolítica que gera debates calorosos ainda hoje, especialmente se for levado em conta o motivo para as intervenções. De pronto, o Weather Underground é exposto como uma espécie de grupo terrorista, porém, do modo mais neutro possível. Esse prólogo de atualidades acaba servindo de contexto histórico para o espectador e traz as primeiras luzes do que seriam as motivações ou justificativas para a ação dos estudantes e outros jovens que compunham o grupo.

Redford nos entrega um produto cujo objetivo não é biografar o Weather Underground ou tornar sua causa conhecida. O tema é apenas a porta de entrada do diretor na crítica ao comodismo político e à renúncia de um passado considerado “incômodo” ou “vergonhoso” para quem, anos depois de lutar contra qualquer Estado, vê-se trabalhando para ele ou seguindo as regras que sempre desprezou e criticou.

Aliadas a essa questão, a justiça e a mídia fazem parte de toda a história, como uma espécie de falso cenário ou mesmo fantasmas – depende do momento do filme e do ponto de vista de quem assiste – para os fatos que se desenrolam na tela. É evidente que as relações familiares e o aflorar de sentimentos ou histórias pessoais aparecem no enredo. É interessante que ao final de toda e pouco emocionante caçada, o caso se resolve da maneira menos politizada possível, vindo à tona a voz do coração de uma ex-ativista “viciada” em liberdade.

O caminho percorrido em Sem Proteção é bastante sinuoso. O roteiro cambaleia entre a aparência policial e a política, mas acaba sendo um híbrido das duas. Sem essa definição específica, o espaço aberto acaba sendo demasiado e a história se espalha aos poucos em pequenos pedaços dramáticos que ou não são bem agrupados e resolvidos ao final do filme ou simplesmente se perdem na história.

Mais de 30 anos depois de atividades políticas, os antigos jovens agora são velhos com lembranças vívidas do passado. Para alguns isso é uma benção, já para outros, uma prova da “insanidade da juventude”. Não seria despropositado falar sobre a memória histórica como componente da vida cotidiana desses indivíduos, mesmo que se procure esquecer dela. A prova máxima dessa sentença é que a “História” encontra os antigos jovens Undergrounds e o resultado desse encontro vem da pior forma possível: acusações anacrônicas de uma potente força policial nacional, o FBI.

O espectador se pergunta como e por quê a polícia enfim encontrou ou prendeu uma componente do grupo, mas esse não é o único e nem o maior problema do filme. Sua reta final é cada vez menos palatável, cedendo o espaço de um drama político ou de uma intricada investigação policial para a lavagem de roupa suja, expiação de pecados e deveres do passado.

O elenco poderoso do filme chama muitíssimo a atenção, mas não conseguem evitar o desfecho insosso. Sem Proteção é um filme com dois ritmos e praticamente duas formas diferentes de se levar uma trama, algo pouco aconselhável no cinema. No presente caso, o resultado é bom, mas abaixo do que se esperava.

Alguns enigmas permanecem e o tom que coroa o término se assemelha muito às críticas que costumavam a aparecer no filme em relação ao sossegar em algum lugar e viver uma vida de trabalhador e pai ou mãe de família. Segundo Redford, estaria morto o espírito de contestação política? Teria ele se domesticado inteiramente? Provavelmente não. Mas é certo que padece das vidas mais sedentárias da história.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.