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Crítica | Sem Remorso, de Tom Clancy

por Kevin Rick
882 views (a partir de agosto de 2020)

  • Há leves spoilers.

Tom Clancy conseguiu um curioso status transmídia entre suas obras literárias, jogos e adaptações cinematográficas, com seu nome sendo, de certa forma, uma referência de ação militarista e de espionagem no meio do entretenimento, seja videogames, filmes ou livros. É aquele tipo de situação no qual o autor se torna mais importante no imaginário coletivo que o seu próprio trabalho artístico, criando uma determinada expectativa ou símbolo de qualidade onde seu nome esteja estampado. Sendo um assíduo fã dos jogos que levam sua marca e de algumas adaptações do Jack Ryan, eu iniciei minha jornada em sua bibliografia com Sem Remorso com uma ideia do que seria a experiência de leitura baseada no meu contato prévio com outras formas de arte do escritor, apenas para vê-la desconstruída e reformulada da melhor maneira possível.

Apesar de ser parte do Ryanverso, o livro de 1993 conta a história de origem do ex-SEAL John Kelly, recorrente personagem secundário na série literária de Jack Ryan, sob o codinome de John Clark. Cronologicamente, a narrativa é a primeira do Ryanverso, a despeito de seu lançamento tardio, e acompanha a trágica história do protagonista que perdeu sua esposa em um acidente de carro, e alguns meses depois viu sua nova parceira romântica, Pam, ser violentada sexualmente e brutalmente assassinada por um grupo de traficantes que a usavam como prostituta e “mula”. Tom Clancy não limita a violência da obra, algo corriqueiro na experiência graficamente desconfortante proporcionada pela escrita detalhista do autor, mas, de início, a trama aparentava ser sua típica história de vingança do soldado atormentando contra os bandidos que desafiaram o inimigo errado.

Todavia, Clancy utiliza o contexto histórico do estágio final da Guerra do Vietnã nos anos 70, além de toda a tensão da Guerra Fria, para criar uma mesclada e multifacetada narrativa sobre o trauma e a falha em diferentes frontes, no qual a vingança é tema recorrente, mas a obra nunca é verdadeiramente sobre o revide. A narrativa ganha dois núcleos principais, sendo o primeiro da já citada retaliação contra os traficantes que assassinaram Pam, mas como pano de fundo Clancy lentamente desenvolve uma situação militar que exige o retorno de Kelly ao Vietnã, compondo uma estratégica prosa sobre a ação urbana e a militar.

É interessantíssimo a maneira como Clancy expande os dois ambientes, com temáticas extremamente opostas, mantendo o humano como elemento comum. Se de um lado temos a realidade cruel do mundo das drogas, prostituição e abuso de poder, do outro lado somos inseridos na zona da tortura e tormento da guerra. Para isso, o autor constitui dois períodos de conhecimento introspectivo dos personagens antes de desencadear a ação: o treinamento de Kelly para retornar à forma física e mental, e o cárcere de Robin Zacharias no Vietnã, constantemente torturado no campo prisional por vietnamitas e interrogado pelo afável coronel russo Nikolay Grishanov. Antes da vingança, da ação e do ritmo frenético, Clancy toma seu tempo na falha humana, tanto de Kelly pela culpa do assassinato de Pam, como de Zacharias na sua captura e receio de entregar informações ao inimigo, no contínuo estudo de auto decepção do livro.

É a partir do remorso que a narrativa vai sendo destrinchada em infinitos núcleos e gêneros na saladona temática que é Sem Remorso. À medida que John Kelly inicia sua vendetta, Clancy utiliza o esperado desencadeamento genérico para dar um inesperado espaço para as consequências do mundo do tráfico, puxando o vício e a prostituição para além do superficial, numa atmosfera de máfia com o inimigo e detetivesca com os dois policiais que investigam o rastro de violência deixado por Kelly. Enquanto isso, a trama militarista ganha contexto político e histórico com a inserção de múltiplos generais e oficiais que discutem a possibilidade de invadir o campo vietnamita, e também de políticos que trabalham o lado burocrático podre da Guerra do Vietnã.

É simplesmente fantástico como Clancy transita de uma violência urbana para uma discussão ideológica, do divertido núcleo investigativo para a ação militar, e de situações diárias da dificuldade da dependência química para a espionagem. Fui entendendo o tamanho avantajado da obra por causa desta proposta variada do autor, em que a diversificação serve solenemente ao trauma e a falha, independente do campo em evidência. Kelly constantemente perde batalhas, os policiais estão sempre frustrados, os traficantes não entendem a força misteriosa por trás da destruição de seu pequeno império, e a guerra, bem, todos sabemos a colossal e trágica perda de tempo da Guerra do Vietnã. Novamente, a vingança é apenas uma temática em uma maravilhosa obra literária sobre o erro humano, seja ele heroico, criminoso, político ou ideológico.

É justamente esse múltiplo exercício temático que me surpreendeu, mas é preciso ressaltar como as esperadas notas da diversificação da ação não decepcionam, no qual Clancy utiliza seu background científico-militar para ampliar a divertida experiência imaginativa. Coreografados ataques de aviões, empolgantes cenas marítimas com submarinos e lanchas, e até mesmo os momentos “Rambo” nas colinas do Vietnã são megalomaníacos e realistas na medida certa, detalhista mas sem cair numa linguagem enfadonhamente técnica. E no prisma urbano, o autor, se não espetacular, é eficiente na descrição de combate corpo-a-corpo, perseguições e momentos furtivos.

Num lado negativo, acho que Clancy, por felizmente tentar demais, sofre um pouquinho com o ritmo de alguns núcleos, especialmente o de algumas vítimas da droga, mas é uma pequena crítica à deliciosa salada do autor, que transita entre gêneros com uma facilidade invejável. Sem Remorso é uma obra violentamente impactante, inesperadamente diversificada e freneticamente divertida. Clancy sabe fazer de tudo um pouco, desde o drama da guerra, o âmbito urbano do crime, a linha de espionagem e o contexto político e ideológico dúbio do período, todos sob o prisma da falha humana, e consequentemente das cicatrizes deixadas pelo remorso.

Sem Remorso (Without Remorse) — EUA, 1993
Autor: Tom Clancy
Editora original: G.P. Putnam’s Sons
768 páginas

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2 comentários

Red Shins 1 de maio de 2021 - 17:55

Este livro é bom por três motivos:

Um, não é uma história de Jack Ryan. Conta-nos como John Clark surgiu, quem ele é e o que é, e o enredo realmente acontece cerca de 15-20 anos antes da série principal.

Dois, Vietnã, então é “Rambo’ sem altíssima tecnologia e corajoso.

Três, Tom Clancy normalmente escrevia sobre o Republicano Puritana com emoções para seus personagens com o pleno conhecimento de que seriam retratados no cinema, por isso deve ter uma boa aparência. Felizmente aqui, ele foi até o fim com John e realmente deu a ele uma espécie de aparência de uma personalidade real, e é um de seus trabalhos mais envolventes.

Tudo combinado, é um thriller clássico muito decente, e você vai gostar por uma série de razões, especialmente porque John é uma espécie de anti-herói (ou anti-vilão), e há vários elementos únicos e antigos no livro, o que torna muito refrescante partida da escrita militar altamente densa e detalhada de Tom.

Agora, vamos ver o enredo:

John conheceu uma garota sem nome,
Após sua morte, um vigilante tornou-se,
Ele buscou a vingança,
No Vietnã lutou,
Os operativos da Força Delta não têm fama.

Bom artigo

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Kevin Rick 4 de maio de 2021 - 22:22

Obrigado! É um bom livro mesmo. Chegou a ler outros do Clancy? Pensando em ler mais alguns dele hehehe

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