Home FilmesCríticas Crítica | Sem Ressentimentos (2020)

Crítica | Sem Ressentimentos (2020)

por Luiz Santiago
195 views (a partir de agosto de 2020)

Sem Ressentimentos é um filme assumidamente inspirado em momentos da vida do jovem diretor alemão (filho de iranianos exilados) Faraz Shariat, que realiza aqui o seu primeiro longa-metragem. A forma como a obra é dirigida nos dá claramente o tom pessoal pretendido pelo cineasta, e talvez isso tenha feito com que suas experiências tenham se entrelaçado de forma muito bagunçada com a personalidade e os dilemas desses indivíduos na tela, tornando o filme reticente e com situações pouco claras para o espectador, além dos já esperados estereótipos e tentativas mais autorais de plasmar um sentimento ou uma situação difícil de um modo que acabam não significando muita coisa.

O primeiro grande sentimento que vemos despontar é o de não-pertencimento, de desconforto, um assunto que mais para o final do filme volta a ser trabalhado na fonte, numa bela, mas impessoal conversa entre mãe e filho. Um outro fator que reforça esse sentimento é o fato de Parvis (Benny Radjaipour) aproximar-se de Amon (Eidin Jalali), que fugiu do Irã com a irmã Banafshe (Banafshe Hourmazdi) e que a partir de determinado momento da narrativa passa a sentir de perto os problemas ligados à questão da imigração na Alemanha — sabemos, todavia, que esta é uma questão observada em vários países, o que dá “peso até demais” para essa parte da obra.

Coloquei o “peso até demais” entre aspas, ali em cima, porque não vejo como um problema de condução do drama o fato de duas questões importantes, com problemáticas distintas, serem tratadas em um filme. Ocorre que aqui a questão da sexualidade tem um grande peso e traz consigo uma porção de outros pequenos assuntos que são apenas ensaiados pelo diretor e supostamente encerrados com planos de cara poética, sem chegar em algum lugar. Ou seja, é um lado da história que teria tudo para ganhar a sua própria linha forte de eventos e desenvolvimento em torno de seus impasses, mas que é minada porque existe um outro lado, também importante e também cheio de pequenos assuntos que lutam pela atenção e terminam igualmente pincelados por sugestões vindas de belos planos gerais que nada dizem.

Não se trata, porém, de falta de foco. As duas veredas dramáticas permanecem ativas no decorrer do longa, mas pouco a pouco começam a sofrer problemas de ritmo e acumular elipses que afetam a compreensão geral da história, começando do motivo que fez Parvis ser obrigado a realizar trabalhos comunitários em um centro de refugiados e terminando nas relações fora do trio principal e principalmente nas ações finais. Sim, subtender algumas coisas em uma obra que pretende destacar muitos sentimentos é perfeitamente compreensível e até desejável, mas se não temos uma ajuda visual para isso ou um bom encadeamento do roteiro para que se entenda determinadas consequências, então o que resta é uma junção de interrogações e vazio de sentido onde mais precisávamos de conteúdo.

Sem Ressentimentos acena para um amadurecimento dos personagens mas parece inconsequente ao tratar o armário e a homofobia internalizada de Amon, por exemplo. O diretor simplesmente trata isso com naturalidade e até dá ao personagem uma espécie de compensação mais adiante, não voltando a falar sobre isso nem mesmo como sentimento para Parvis (que vira vítima). O jovem de cabelo pintado não é um personagem perfeito, mas tem a seu favor o fato de buscar algum lugar no mundo, fazer-se sentir, viver, de fato. No fim, todos parecem aprender alguma coisa e a vida segue, como sempre segue. Podemos até ver um claro sinal de esperança ali. Mas o percurso de ações que a gerou não parece ter mostrado a contento o por quê chegamos a esse tipo de final.

Sem Ressentimentos (Futur Drei / Wir / No Hard Feelings) — Alemanha, 2020
Direção: Faraz Shariat
Roteiro: Faraz Shariat, Paulina Lorenz
Elenco: Benny Radjaipour, Banafshe Hourmazdi, Eidin Jalali, Knut Berger, Niels Bormann, Katarina Gaub, Hadi Khanjanpour, Vanessa Loibl, Paul Lux, Sevil Mokhtare, Abak Safaei-Rad, Jürgen Vogel, Armin Wahedi Yeganeh, Maryam Zaree
Duração: 92 min.

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