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Crítica | Seminário dos Ratos, de Lygia Fagundes Telles

por Leonardo Campos
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Publicado na década de 1970, Seminários dos Ratos é um conto ainda muito atual. Ao utilizar os roedores como alegoria, a escritora Lygia Fagundes Telles apresenta ao leitor uma formidável interpretação do Brasil dessa época conturbada, era tomada pelo desânimo, caos social e desgaste do malfadado projeto de milagre econômico que sustentava as ideologias do regime militar que ceifou vidas inocentes e reprimiu a opinião público e o livre exercício da intelectualidade. Parte integrante da coletânea homônima, o conto é o 14º texto do conjunto, encerramento para a sequência que abre com As Formigas e segue com Senhor Diretor, Tigrela, Herbarium, A Sauna, A Pomba Enamorada ou Uma História de Amor, Wm, Lua Crescente em Amsterdã, O X do Problema, A Mão no Ombro, A Presença, Noturno Amarelo e A Consulta, ciclo encerrado com Seminário dos Ratos, narrativa que fica no limiar entre a ficção e a realidade, numa viagem onde os ratos ocupam posição de privilégio na destruição de uma cidade fictícia.

Narrado em terceira pessoa, o conto apresenta roedores barulhentos que invadem uma casa restaurante recentemente, localizada num ponto peculiar da cidade. No local, há a organização do VII Seminário dos Ratos, evento focado na resolução de questões burocráticas que tem atravancado o desenvolvimento social e econômico do país. Já na epígrafe, a escritora estabelece a ironia que permeia o conto, ao resgatar o poema Edifício Esplendor, de Carlos Drummond de Andrade, composição literária que prima pela ironia e crítica ao analisar as relações humanas e as instituições no turbulento século XX. O clima de terror da poesia drummondiana ganha ecos no conto Seminário dos Ratos, publicação que sucede o ótimo desempenho de Telles em As Meninas, talvez o seu romance mais cultuado pelo público e elogiado pela crítica. Um seminário, evento onde geralmente temos a circulação de ideias oriundas de muito estudo, pesquisa e orientação acadêmica se torna palco para a disseminação de situações de corrupção e postura asquerosa dos seus participantes, ratos do sistema que representam a dominação e sufocamento do humano pelo próprio humano. Em partes, lembra a alegoria que Dyonélio Machado fez em Os Ratos, de 1935.

Seus personagens, devidamente construídos em perfis milimetricamente edificados, compõem a forte estrutura psicológica do conto. Ao passo que a leitura avança, compreendemos que ali estão criaturas em cargos hierárquicos que ao se encontrarem associados com os ratos, dão a entender que uma das principais críticas de Lygia Fagundes Telles é a ineficácia do serviço público, consequência das mazelas de um estado incapaz de gerir os recursos de uma nação rica, mas afundada nas ideologias repressoras que dominavam o período. Os roedores, no conto, ocupam o espaço do horror psicológico que também se manifesta em aspectos físicos, haja vista as celeumas que acometem os personagens, tais como a enfermidade do Secretário de Bem-Estar e fragilidade dos discursos de Miss Glória, a Secretária da Delegação Americana, única presença feminina neste circuito de presenças masculinas e ausência de qualquer instância de “glória”, algo que mergulha a história em pormenores de ironia até mesmo na nomeação dos personagens.

Devoradores de tudo, os ratos do conto emitem guinchos atordoantes, simbolizando a constante sordidez contida na exploração entre seres humanos que se oprimem em prol do individualismo e do bem-estar próprio, em detrimento da trajetória alheia. Organizado pela RATESP, o tal VII Seminário dos Ratos inverte as relações do meio para o final e em sua atualidade “hedionda”, como diria o dramaturgo Nelson Rodrigues, expõe temas que na época da publicação, 1977, eram gritantes, mas ainda hoje, chegam aos nossos ouvidos por meio dos noticiários e suas deflagrações aos berros. A inflação e o endividamento do estado, elementos dominantes da política brasileira quando o conto foi lançado, dão lugar para as celeumas de uma nação que já evoluiu em diversos aspectos, mas ainda colhe o caos de sua base sistematizada pela corrupção e desigualdade social e cultural. Ao mesmo tempo que temos a sensação de aguçar da intelectualidade ao ler o conto Seminário dos Ratos, também sentimos o amargo gosto da derrota de um povo que parece viver o eterno loop temporal que nos leva sempre para o mesmo lugar, território dominado por ratos que corrompem a tudo e a todos e nos faz adentrar num ciclo constante de descrença.

Seminário dos Ratos (Brasil, 1977)
Autor: Lygia Fagundes Telles
Editora: Record
Páginas: 184

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