Crítica | Sempre Bela (Belle Toujours)

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Em 1967, Luís Buñuel voltava à França para dirigir. Seu longa anterior, Simão do Deserto (1965) foi o encerramento de sua jornada mexicana, iniciada em 1947 com Gran Casino. Por isso que o seu filme de retorno definitivo à Europa, A Bela da Tarde, acabou tendo um peso bem grande no bloco final sua filmografia, com abordagem mais madura, mais cheia de possibilidades e com toda aquela carga onírica/surreal/incomum costurada em diferentes níveis ao longo da fita. No todo, A Bela da Tarde é uma revisita de Buñuel ao erotismo ligado à “vida comum” das pessoas, quase um estudo social que olha para as máscaras sociais e as contrasta com vida íntima de cada um, com seus sonhos e desejos (reprimidos ou manifestos).

Em 2006, o diretor português Manoel de Oliveira quis fazer uma homenagem a Buñuel e a Jean-Claude Carrière, voltando a trabalhar com Henri Husson (Michel Piccoli) e Séverine Serizy (Catherine Deneuve), os personagens intensos de A Bela da Tarde. Infelizmente Deneuve recusou-se a retornar para o papel, então coube ao diretor procurar uma triz que representasse Séverine depois de tantos anos, tarefa difícil assumida por Bulle Ogier, que já havia trabalhado com Oliveira em O Meu Caso. Considerando tudo, Ogier consegue nos trazer ótimas nuances de uma personagem que depois de quase 40 anos reencontra-se com um dos motivos de sua perversão quando jovem. Mas pelo caráter de homenagem e pela imensa força de A Bela da Tarde, a cobrança paira no ar e a ausência de Deneuve é sentida em cada segundo do filme.

A obra qui é bastante simples. Nós começamos com a 8ª Sinfonia de Dvorák, concerto onde Henri e Séverine estão. Ele faz de tudo para alcançá-la, mas ela foge. E praticamente todo o filme é construído em torno dessa busca e dessa fuga, com toda a atenção dada a Piccoli (uma sábia decisão do roteiro, que consegue um resultado final realmente positivo nesse aspecto, pois o ator representa muitíssimo bem esse papel mais sacana) que caminha pela cidade tentando encontrar a mulher que tanto o modificou. Embora entenda a intenção do diretor na construção geral para a passagem do tempo (com planos sobre Paris demarcado dias e noites transcorridos desde o concerto), eu não acho que esta escolha seja minimamente interessante para a obra, assim como tenho certa resistência à forma como ocorrem as visitas de Henri ao bar, onde ele conversa bastante com o simpático garçom interpretado por Ricardo Trêpa.

A direção aí é funcional, mas os diálogos ocorrem de modo misterioso demais para um filme-homenagem, o que impede que muita coisa da vida do protagonista venha à tona. Por um lado, isso serve como um ótimo indicativo de construção do personagem, fazendo de Henri um homem fútil, lascivo, egoísta e simplista. Ou pelo menos destacando essas caraterísticas dele. Falta, no entanto, algo mais que isso pra tornar o processo de busca-e-fuga mais interessante. E quando o grande momento do encontro chega, o texto dá apenas uma atenção parcial às conversas (demasiadamente reticentes, diga-se de passagem), o que se torna tremendamente irritante, já que toda a obra se construiu para chegar exatamente neste ponto. E tudo é ainda mais frustrante porque a direção para esta sequência do jantar é aplaudível, assim como a incrível fotografia e a montagem. Falta ao roteiro, portanto, dar corda para a memória que ele próprio resolveu tirar do baú.

Mesmo não conseguindo muita coisa com o reencontro de Henri e Séverine, Sempre Bela nos dá algumas interessantes nuances a respeito da passagem do tempo para as pessoas. As mudanças que a vida nos traz, a transformação de nossos gostos, de nosso temperamento, de nossos desejos, ao mesmo tempo que também mostra como algumas coisas, independente de quanto tempo passe, jamais mudam. Certas lembranças, alteradas ou não, ficarão para sempre belas na memória de quem as viveu — e não há realidade ou passagem do tempo capaz de apagar isso.

Sempre Bela (Belle Toujours) — Portugal, França, 2006
Direção: Manoel de Oliveira
Roteiro: Manoel de Oliveira
Elenco: Michel Piccoli, Bulle Ogier, Ricardo Trêpa, Leonor Baldaque, Júlia Buisel, Lawrence Foster
Duração: 68 min.

LUIZ SANTIAGO (Membro da OFCS) . . . . Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.