Crítica | Senhores do Crime

Consumir o cinema de David Cronenberg é uma missão que geralmente nos faz mergulhar em generosas camadas reflexivas. Senhores do Crime, lançado em 2007, não diferente da linha temática de suas incursões anteriores, flerta com as questões sobre corpo e identidade, comuns aos filmes do cineasta desde as suas primeiras incursões. Realizador dentro da “estética da carne”, expressão utilizada por alguns pesquisadores para explicar a sua articulação entre o corpo e suas transformações como abordagens culturais da identidade, Cronenberg refaz o percurso dentro desta temática de uma maneira tangencial, mas voltada aos elementos discutidos em Gêmeos – Mórbida Semelhança, A MoscaMarcas da Violência, etc. Desta vez não temos irmãos em conflituosos diante de seus interesses, tampouco a transformação física oriunda de um experimento cientifico que perde o direcionamento num acidente inusitado. O conjunto de subtramas dá forças ao ponto nevrálgico do filme, a identidade e sua trajetória, num corpo que serve de suporte para a impressão de tatuagens que representam simbólica e fisicamente.

No desenvolvimento da narrativa, dirigida por Cronenberg sob os efeitos interpretativos do roteiro de Steve Knight, acompanhamos a trajetória da enfermeira Anna (Naomi Watts), responsável pelo acolhimento e observação de uma paciente que chega ao hospital em estado grave e morre na mesa diante da obstetrícia. O bebê que a jovem carregava, no entanto, sobrevive, e será o foco da personagem de Watts ao longo do filme, desde os primeiros passos diante dos detalhes sobre a identidade da garota ao necessário processo de proteção do recém-nascido e de si própria, pois ao passo que se expõe demais diante das ações da máfia russa em Londres, não só a personagem corre perigo, mas os seus familiares também. Tudo começa quando ela decide investigar um curioso diário escrito pela falecida e encontrado entre os seus básicos pertences.

Ela o entrega ao seu tio, homem fluente no idioma dos escritos da misteriosa jovem. A cada página lida, o estarrecimento toma conta do senhor que confessa para a sua sobrinha, o tom da história da autora do diário, revelações repletas de momentos de profunda violência. Com um histórico exposto por meio de alguns diálogos esclarecedores, sabemos que o passado recente de Anna também não é dos mais felizes, o que a motiva no envolvimento cada vez mais pantanoso com a máfia, contato representado por suas primeiras conversas com Semyon (Mueller-Stahl), o homem de voz mansa e aparência agradável que comanda a cozinha de seu próprio restaurante, lugar onde Anna bate para perguntar sobre detalhes do diário, sem sequer desconfiar que o perigo está a espreita, disfarçado pelo sorriso misterioso da figura que saberemos ser o comandante de seu grupo de mafiosos.

Ciente de que há menções ao seu nome no diário deixado pela jovem, além de possíveis referências ao instável Kirill (Vincent Cassel), seu filho que não apresenta perfil para assumir funções maiores nos negócios da família, Semyon solicita que Nikolai (Viggo Mortensen) resolva toda a situação da maneira como eles sempre fazem. Apague arquivos, caso necessário. Derrame sangue, se houver resistência, dentre outras estratégias coercitivas que dialogam com a postura fria do panorama de personagens de David Cronenberg ao longo de sua carreira voltada aos filmes que mesclam com muita eficiência, entretenimento e crítica social pungente. Logo na abertura da trama, somos apresentados ao clima de “nada será poupado” em Senhores do Crime, quando a menina grávida caminha ensanguentada até a farmácia, bem como na cena da barbearia, com o uso performático de uma navalha afiada e mortal.

Pode até parecer uma cena gratuita, desfocada do conjunto, mas não é. Ali, Cronenberg e sua equipe técnica estabelecem uma abordagem dos filmes de máfia e crime, escolha que depois é subvertida e transformada, também, num denso estudo de personagens, com algumas aproximações diante do universo apresentado anteriormente em Marcas da Violência. Acompanhados pela música sempre eficiente de Howard Shore, engrandecedora dos momentos já poeticamente visuais da direção de fotografia estupenda de Peter Suschitzky, Senhores do Crime também conta com um bom trabalho no design de produção de Carol Spier, soturno e num bom diálogo com a paleta adotada pela fotografia e seus jogos de luzes e sombras, setores que também ganham coesão com os figurinos urbanos de Denise Cronenberg.

Para quem está acostumado com a abordagem convencional, a súbita mudança de protagonismo pode causar estranheza, bem como o passo a passo diferenciado de uma história que nas mãos de outro cineasta inexperiente ou sem a carga autoral de Cronenberg, teria criado um final feliz seguido de letreiros explicativos para os detalhes das sentenças dos criminosos presos ao longo do desfecho, etc. O personagem de Mortensen, tão parecido com o Tom Stall que ele mesmo deu vida em Marcas da Violência, é um homem que não pode apagar o seu histórico. Há até uma possibilidade de sublimação de alguns detalhes, mas o personagem desta vez carrega o mapeamento de sua trajetória no corpo todo, por meio das tatuagens que representam cada etapa de uma vida que ele não parece ter decidido por abandonar em sua totalidade, afinal, o fato de ter colaborado com Anna não o transforma num mocinho, não é mesmo?

É o tom camaleônico dos personagens dirigidos pelo cineasta, algo que tal como apontado anteriormente, num comando inexperiente, poderia resultar numa produção corriqueira de entretenimento superficial para preencher as lacunas da agenda de exibição em um final de semana qualquer. Cronenberg goza dos privilégios de ser um cineasta competente, mas os resultados dramáticos de Senhores do Crime são alcançados com algo além da sua habilidade de mestre na condução de seu elenco. Além das questões estéticas de sempre, os atores conseguem extrair o máximo de si, graças ao seu realizador, mas também ao talento de cada um, algo já visível em outros desempenhos de suas respectivas carreiras. Naomi Watts dá intensidade ao papel de Anna, no entanto, nada é mais épico que a evolução do personagem de Mortensen, engendrada pela atuação hipnótica do ator em um de seus melhores momentos.

Do contato passivo diante do comportamento pueril e inconsequente de Kirill, interpretado também com eficiência por Cassel, figura impedida de dar continuidade aos trabalhos da família porque é alvo de alguns boatos sobre sua suporta homossexualidade, ao passaporte para a vida dentro da máfia num posto privilegiado, ofertado por seu chefe, Nikolai é a representação cabal das transformações identitárias que David Cronenberg adotada desde sempre em suas produções. As tatuagens de aranhas, igrejas, crucifixos, dentre outras, ocupam na narrativa, o papel de transformação e representação, com o corpo diante das cenas como se fosse um santuário para a execução de rituais de forte carga cultural. A famosa cena da luta na sauna é um exemplo do ballet da violência que no filme, jamais deixa espaço para o sangue gratuito.

Está tudo devidamente encaixado num jogo que só não apresenta fixidez quando a discussão é no terreno transformador da identidade. Diante do exposto, ao longo dos 107 minutos, Senhores do Crime é a reversão do ideal clássico do corpo no cinema, voltado aos mecanismos de representação igualmente clássicos, com os corpos intactos, fechados, belos, expostos de maneira bem acabada e com perfeição, diferente das vísceras e esfacelamentos de ordem física que na dinâmica do filme em questão, possuem também carga associada aos elementos psicológicos. Essa questão do corpo, da representação e do grotesco é, inclusive, discutida com bastante profundidade pelo russo Mikhail Bakhtin no clássico A Cultura Popular na Idade Média e no Renascimento, uma leitura fundamental para compreensão de muitas discussões de ordem cultural que parecem não se esgotar diante da multiplicidade de tópicos para debate.

Fica a sugestão. Ademais, o que Cronenberg sempre fez e ainda faz muito bem é estudar o corpo, a mente e as associações entre um segmento e outro, tendo como espaço de circulação destas ideias, o cinema, seu suporte para reflexões intelectuais justapostas com as demandas do entretenimento, numa reprodutibilidade necessária de críticas sociais que precisam ser ainda mais observadas e compreendidas. Como o próprio abordou numa de suas tantas entrevistas, o corpo é o primeiro fator que mapeia a existência humana. Religião, filosofia, sexualidade, em suma, diversas instâncias da existência humana em sociedade dependem do corpo como mediador. E, é nessa mediação que o cineasta encontra os seus interesses temáticos, num cinema que pode apresentar as suas inevitáveis falhas narrativas num ponto e outro, mas apresenta de maneira geral uma estrutura coesa e coerente que o sustentam como um dos melhores cineastas em ação há décadas e ainda relevante no contemporâneo.

Senhores do Crime (Eastern Promises) — EUA, 2007
Direção: David Cronenberg
Roteiro: David Cronenberg
Elenco: Armin Mueller-Stahl, Donald Sumpter, Naomi Watts, Sinéad Cusack, Viggo Mortensen, Vincent Cassel
Duração: 100 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.