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Crítica | “Senjutsu” – Iron Maiden

por Iann Jeliel
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Senjutsu

Senjutsu é um álbum que carrega as principais características – positivas e negativas – de Iron Maiden neste século, tais como: embalagem épica; temática historiográfica revisionista; por vezes de duração excessivamente longa; pitadas de nostalgia em algumas canções vertiginosas e hábeis remetendo aos primeiros álbuns; uma modernização técnica e instrumentalmente progressista, que a essa altura ficou com um compasso manjado estruturalmente. É um disco que remete à experiência de The Final Frontier, pois traz experimentações aqui e ali diferentes do habitual da banda – que nunca chegou a parar de tentar se reinventar, tanto que algumas tentativas possuem resultados fantásticos, dada a capacidade criativa dessas lendas –, mas de modo geral, são agrupadas em conceitos repetidos em uma sequência cansativa, não indo muito além do que já estavam acostumados a entregar.

Peguemos o caráter lírico, novamente direcionado a centralizações de discussões relacionadas à “guerra”. A Matter of Life and Death já havia feito isso neste século, e em outros álbuns passados, o tema, recorrente no heavy metal em geral, já havia sido destacado por Iron dentro do seu caráter histórico, avulsamente. Diferentemente do que indica a capa, não há, fora da canção de abertura, uma atmosfera que remeta à ambientação cultural específica do Japão e dos samurais, por exemplo, para fornecer um levantamento novo da temática. Ou seja, o sentimento de déjà-vu se vê presente em constante nas outras músicas entrelaçadas a esse conceito. Fora que o caráter experimental da canção Senjutsu talvez não fosse o adequado para a abertura, dado sua rítmica quase que anticlimática, mesmo se tratando de um épico. Isoladamente, é uma canção riquíssima na letra, quase uma releitura encenada de segmentos de A Arte da Guerra, de Sun Tzu, mas musicalmente é um tanto maçante, e no sequenciamento, faz mal o álbum.

Faz com que, por exemplo, Stratego seja mais um recuperar de fôlego do que um estímulo prévio efetivo antes de mergulhar na grandiosidade futura do álbum. Localizada pouco depois da primeira canção grande do álbum, ela é basicamente um novo Speed of Ligth menos grudento. Juntamente com Days Of Future Past, são a cota de músicas hábeis e nostálgicas do período mais objetivo e galopante de Iron. Boas músicas, empolgantes numa primeira escutada, mas nada mais do que isso. Engraçado porque quando Iron quer investir num caráter objetivo, só que modernizado e realmente diferente, entrega uma obra-prima como é The Writing on the Wall. Apesar de simples, sendo basicamente a mistura de uma pegada folk-country com a tradicional melodia da banda, dentro de um refrão mais marcante e um solo de guitarra bem localizado de Adrian Smith inspirado, já a faz ser especial, icônica e amplamente viciante.

Lost in a Lost World é outro épico que faz o simples e não faz feio, principalmente pelas transições de tom, tanto no vocal absurdo de Dickinson – pouco exigido em gradações de timbre ao longo do álbum, diga-se de passagem – quanto na parte instrumental, particularmente minha favorita do álbum. No início, um melódico acústico de vocais de fundo relaxantes, partindo para os riffs inconfundíveis de Steve Harris, mesclados com sintetizadores bem encaixados na localização do refrão, que ganha potência quando retomado, depois de um longo solo, na já tradicional calma conclusão remetente à rítmica do início, fechando a harmonização da música. Aliás, a cadeia de músicas gigantes a partir daí fica bem parecida estruturalmente: introdução lenta e/ou melancólica; quebra espalhafatosa para o refrão; repetição do refrão no compasso rítmico mais intenso adquirido; passagens instrumentais duradouras; finalização remetente à calma do começo.

A diferença é que The Time Machine, Darkest Hour e Death Of The Celts acompanham a mesma problemática de dinamismo presente na canção-título, que talvez não fosse tão perceptível se aquela não tivesse aberto o álbum, e essas fossem intercaladas com outras de propostas mais básicas e efetivas, como foi em The Book of Souls. Fora que nem são tão experimentais como Senjutsu, pelo contrário, é onde a presença de déjà-vu é mais forte. The Time Machine é uma mistura de The Educated Fool com A Book of Souls, Darkest Hour lembra muito o compasso lírico de Wasting Love, enquanto Death Of The Celts vem sendo chamada de The Clansman – Parte 2, tamanha a semelhança da elaboração dos acordes. Nenhuma delas chega a ser ruim, mas se forçar um pouco, colocando The Parchment nesse bolo, é das sequências mais exaustivas de ouvir da história da discografia da banda.

Só não incluo porque o dinamismo é outro, mesmo sendo a canção mais longa do disco e que demora a engrenar (bastante até), dá para sentir uma construção de senso crescente ao invés de variações programadas no tom, movimentos que deixem a música com uma espécie de tensão, justificada na força do seu poderoso clímax. Inevitavelmente, a posição no álbum não a ajudou, bem como Hell on Earth, o último épico do álbum vindo após tal sequência, mas que não dá para considerá-la exaustiva como as outras. A música é simplesmente absurda, arrebatadora, daquelas que é até complicado de descrever tamanha a sinergia, visto que se aproxima estruturalmente da forma mencionada, mas há um tempero diferenciado na execução, aquele tempero típico do melhor que vemos em Iron Maiden. O final em fade out me preocupa junto ao fato de ser tão inspirada. Há chances de ser a última canção da banda, afinal, os caras são quase septagenários, a qualquer momento eles podem parar e diante dos intervalos mais longos entre os álbuns, essa chance é grande, cada vez maior.

De todo modo, Hell on Earth compensa a ordem anterior, e seria ainda mais impactante se fosse a abertura do álbum – ou The Writing on the Wall, disparadas as melhores músicas –, invertendo de posição com Senjutsu, que no contexto de fim, dado o seu teor melancólico, talvez combinasse mais e se sairia melhor considerando a responsabilidade de carregar o título do álbum. Digo mais, uma ordem diferente poderia alterar totalmente as impressões sobre o disco. Faltou a sensibilidade nesse ponto para Senjtsu ser mais digerível, principalmente porque a unidade oferecida aqui traz mais canções autorrecicladas do que transgressoras no estilo da banda. Sendo assim, o trabalho deveria ser mais enxuto, realocado a um lugar assumidamente mais convencional, que é o rótulo onde o encaixo nesse primeiro momento, e ainda fica dentro do padrão “donzela” de qualidade.

Aumenta!: The Writing On The Wall, Lost in a Lost World, Hell on Earth
Diminui!: Death Of The Celts
Minha Canção Favorita do álbum!: The Writing On The Wall

Senjutsu
Artista: Iron Maiden
País: Reino Unido, EUA
Lançamento: 3 de setembro de 2021
Gravadora: Parlophone, Warner (EUA)
Estilo: Rock, Heavy Metal

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