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Crítica | Sentença de Morte (2007)

por Iann Jeliel
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Sentença de Morte

SPOILERS MODERADOS

Apesar de ser um cara mais voltado para o terror, James Wan possui um inegável talento para filmes de ação também. Em ambos os gêneros, o cineasta não reinventa a roda, mas sabe utilizar muitíssimo bem os clichês característicos dentro da sua estilística de muito apuro técnico predominantemente voltada a potencialização da narrativa enquanto entretenimento. O terceiro filme de sua carreira, Sentença de Morte, na literatura é uma espécie de continuação não oficial de Desejo de Matar, romance do início dos anos 70 que foi adaptado e se tornou uma franquia famosa de ação na década, protagonizada por Charles Bronson, o qual o autor Brian Garfield não gostava e por isso elaborou essa releitura como resposta.

É basicamente a mesma história, de um pai de familia (Kevin Bacon) se vingando contra os assassinos de seus entes queridos, só que reagrupada para um tom mais pé no chão e não tão político acerca de debates sobre o vigilantíssimo ou problemáticas carcerárias. Não que estas temáticas circundando o moralismo dúbio do fazer justiça com as próprias mãos não estejam presentes, mas James Wan está bem mais interessado na imagética eufórica de acompanhar as transformações psicológicas radicais dos personagens envolvidos nesse jogo reativo de violência. O legal é como a premissa se estabelece aos poucos e vai crescendo dramaticamente conforme as situações de ação e urgência desdenhadas no suposto realismo exercido pelos “vai e vens” da história. Wan tem um talento acima da média para executar essas histórias padronizadas a um caráter de pessoalidade, trazendo-as para a típica personificação labiríntica de seus thrillers.

Se primeiramente temos uma introdução protocolar da familia em videoclipes caseiros deles sorridentes, a morte do filho mais velho (Stuart Lafferty) que desencadeia a espiral dos eventos seguintes, parece propositalmente desdenhada como inócua, porque de fato, a banalidade da motivação estabelece uma forte linha de fragilidade sobre os elementos que sustentam os princípios básicos da moralidade humana. Em outras palavras, é a impessoalidade do caso que aflora o senso justiceiro do protagonista e não exatamente a pouca correspondência de autoridades no resolver dele. Porque toda a situação na sequência é construída dentro de um acaso dificultador ao sistema cumprir seu papel com eficácia: sem câmeras, sem testemunhas, sem histórico – aquele assassinato era para o jovem gangster (Matt O’Leary) cumprir o rito de passagem na gangue.

Logo, é o próprio Nick Hume que opta por descartar a diplomacia, tomando a dianteira na impaciência do querer revidar imediato para esvaziar um sentimento de luto amargo dado o desperdício gratuito da vida do filho. Contudo, pelo acaso também, o personagem não sabia que mataria o irmão do chefe da quadrilha (Garrett Hedlund), que obviamente, reage com o mesmo sentimento de perda por banalidade, passando a persegui-lo por instinto. É verdade que os desdobramentos a partir daí dependem de uma certa comunhão de incompetências da ação policial para manter o senso de urgência ininterrupto, mas não chega nem a ser uma muleta de roteiro, que reforço, não demonstra está interessado na crítica sistemática, nem é incomodo suficiente para afetar o efeito de envolvimento intenso proposto pela câmera tremeliquenta de Wan.

O sentimento dado através dela um misto de êxtase de exagero, mas não precisa regar seu funcionamento apelando para o grafismo da violência, apenas tornando-a bem corpórea. Há pouco sangue jorrando no longa, mas o efeito de visceralidade é igual a se tivesse muito, pois o cineasta é muito habilidoso nas transições entre planos aproximados e abertos, o que não só deixa a confusão geograficamente legível, como coloca o realismo de forma tão intrínseca e empolgante, quanto seria se escolhesse ser mais explícito e hiperbólico – o plano sequência no estacionamento, sem dúvidas, é o maior destaque nesse sentido. O grande problema de Sentença de Morte se localiza no terço final, que descamba um pouco para o exagero, seja na ação, seja no melodrama motivador da vingança ficando mais incisivo, buscando uma comoção a mais para ambos os lados do confronto final, tornando-o teoricamente mais emocionante de acompanhar, mas a tentativa simplesmente não funciona.

Apesar disso, o filme ainda acaba bem seu raciocínio. Nesse ciclo de reações, Nick Hume basicamente se transforma nos assassinos da sua familia. Apesar de ter uma motivação mais “heroica” para matar, a última cena homenageando Taxi Driver, fornece uma ironiazinha perfeita ao custo da sua jornada. Longe de ser tão reflexivo quanto o longa do Scorsese, Sentença de Morte é um genérico de vingança bastante efetivo na ação movida pelas provocações sociais e o instinto de reatividade, transposto em imagem por um diretor amplamente talentoso e um Kevin Bacon igualmente ins(pirado).

Sentença de Morte (Death Sentence | EUA, 2007)
Direção: James Wan
Roteiro: Ian Mackenzie Jeffers (Baseado na obra homônima de 1975 de Brian Garfield)
Elenco: Kevin Bacon, Garrett Hedlund, Kelly Preston, Jordan Garrett, Stuart Lafferty, Aisha Tyler, John Goodman, Matt O’Leary, Edi Gathegi, Hector Atreyu Ruiz, Kanin Howell, Dennis Keiffer, Freddy Bouciegues, Leigh Whannell, Casey Pieretti
Duração: 105 minutos

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