Crítica | Sentidos do Amor

Filmes com temáticas apocalípticas no geral apresentam crises políticas, sociedade em caos, luta pela sobrevivência, do psicológico ao físico, dentre outras estruturas que compõem a tradição deste tipo de narrativa. Sentidos do Amor é, de maneira geral, uma produção que faz parte deste esquema, mas se diferencia pela abordagem menos sensacionalista e mais poética de tais questões. Na trama, os seres humanos não se tornam zumbis decrépitos, tampouco o exército empunha armas para forças as pessoas a partirem para a luta braçal. Aqui, as coisas parecem mais filosóficas. E acredite, são bem mais aterrorizantes que esfacelamento do corpo humano. As dimensões catastróficas tomam os nossos sentidos e nos levam a um estágio metafórico prévio ao que se convencionou chamar de primitivismo. Tenso e dramático, não é mesmo?

Sob a direção de David Mackenzie, cineasta que teve como direcionamento, o roteiro de Kim Fupz Aakeson, Sentidos do Amor nos apresenta a trágica disseminação de um vírus que retirou o olfato das pessoas. É algo que nos remete ao que Marcel Proust filosofa de forma linda no âmbito da literatura, afinal, sem odores, a narradora da produção alega que “um oceano de imagens do passado desaparece”. Acompanhamos o primeiro sentido tomado da humanidade, algo que aos poucos vai se dissipando de maneira desesperadora, mas sem excessos cinematográficos, até a perda de outros sentidos e a permanência do tato como única possibilidade de contato numa existência sem paladares, odores, audições e visões. É tudo muito contido, mas angustiante e bem mais poderosos que imagens de explosões e atrocidades comuns aos filmes do segmento.

Seguimos a narrativa por meio da história de Michael (Ewan McGregor) e Susan (Eva Green), ele um chef de cozinha, ela uma epidemiologista. Quando ambos se conhecem, a atração é mútua. Ao atravessar uma rua, Michael avista Susan numa janela e lhe pede fogo para acender a um cigarro. Assim a trajetória deles avança, com um encontro pessoal regido pela esperança de que encontraram a pessoa certa para se relacionar. Ele é um cara que não curte nada mais que uma noite. As suas experiencias são superficiais, geralmente voltadas ao sexo, principalmente por causa de seu passado nada animador com a ex-noiva. Ela, por sua vez, é menos descolada, numa vida mais dedicada ao trabalho. O amor da dupla emerge diante do caos ainda em seus primeiros momentos de destruição de uma sociedade que precisa ser regulamentada.

Do que trata essa regulamentação, afinal? Vejamos. Conforme abordagem de Susan, a narradora que nos faz acompanhar todos os acontecimentos de maneira didática, mas sem emburrecimento da narrativa, o mundo precisa passar por um processo de renovação e reavaliação das atitudes humanas diante da natureza e do “outro”. Pode parecer vulgar ou sentimentalista, mas a forma como a trama reflete tais questões não deixa espaço para a perda de qualidade dramática ou estética. Cada vez que um sentido é perdido, uma situação caótica se estabelece. As pessoas desconhecem os seus comportamentos, agem de maneira impulsiva, para logo depois, perceber que determinada sensação corporal foi perdida, sem respostas para uma possível cura.

É o que acontece quando o paladar está prestes a ser perdido. Comem vorazmente, digladiam por qualquer pedaço de alguma coisa que possa ser digerida. É uma situação que beira ao desagradável, pois para aqueles que assistem com um posicionamento mais reflexivo diante das questões, a catarse é garantida. Como Michael vai manter o seu trabalho num restaurante? A sociedade não sente mais sabor, a gastronomia é vista como perda de tempo, pois o que importa mesmo é a farinha e a banha para manter a energia básica para os seres humanos sobreviverem. Transformado em um dos hits da atual pandemia que recebeu o nome de COVID-19, Sentidos do Amor traz personagens acuados diante de acontecimentos que os impede de dominar. E o seu tom pedagógico é pessimista/realista, ao terminar a história com “está tudo escuro agora, as eles sentem a respiração um do outro”. Já pensou?

É alucinante, principalmente para nós, parte de uma sociedade tomada por vícios e que não sabe lidar com muitas de suas adversidades. Diante do exposto, quando as pessoas perdem o domínio sobre os seus próprios sentidos, a sociedade naufraga, coletivamente, junto com a extensa malha de interesses individuais. Todo esse drama angustiante é conduzido musicalmente pela trilha sonora amena de Max Ritcher, agitada apenas nos trechos em que a edição de Jake Roberts põe diversas cenas de guerras, atrocidades humanas e outros traços que demonstram a chegada da humanidade ao estágio primitivo comentado anteriormente. Essa ideia de retorno a um estágio humano anterior, prévio no que concerne aos primeiros passos dos seres humanos rumo ao que se convencionou a chamar de “cultura”, é delicadamente fotografado por Giles Nuttgens, profissional que capta as imagens do design de produção clean de Tom Sayer. Ademais, cheio de metáforas para a atual condição humana, Sentidos do Amor é para ser visto e sentido. E refletido.

Sentidos do Amor (Perfect Sense) — Alemanha, 2011
Direção: David Mackenzie
Roteiro: Kim Fupz Aakeson
Elenco: Adam Smith, Alastair Mackenzie, Caroline Paterson, Connie Nielsen, Denis Lawson, Duncan Airlie James, Eva Green, Ewan McGregor, Ewen Bremner, James Watson, Liz Strange, Malcolm Shields, Richard Mack, Shabana Akhtar Bakhsh, Stephen Dillane
Duração: 93 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.