Crítica | Sequestrada à Luz do Dia

“Eu era atraída por ele.”

Uma das maiores peculiaridades que Sequestrada à Luz do Dia possui, ao menos em comparação a outros documentários pautados em crimes e sequestros, é que, nesse caso, a vítima em questão aparece na obra. Jan Broberg era uma garota de apenas doze anos quando foi raptada por Robert Berchtold, um amigo da sua família que era carinhosamente conhecido como B. Como reconta aos espectadores, relembra do seu “amor” pelo seu raptor e estuprador na época, um sentimento, porém, causado por uma manipulação de anos e, surpreendentemente, não apenas da garota, mas também seus pais. Pois, entre indas e vindas, o pesadelo de Jan, por muito tempo visto como outra coisa pela menina, enganada engenhosamente, passaria por chantagens, convencimentos, mentiras, assim como doses cavalares de ingenuidade e negligência. O longa-metragem, lançado pela Netflix, é, portanto, mais que “apenas” a narrativa de um homem perverso e pedófilo que cometeu uma barbaridade, entretanto, igualmente a de pais negligentes que não perceberam ou desconfiaram dos mais simples traços de problema presentes em cenários imensamente absurdos.

Pouquíssimos pais são mais irresponsáveis na Terra que Mary Ann e Bob Broberg, pessoas que, como esse documentário narrará, envolverem-se pessoalmente com Robert, tornando-se amigos íntimos daquele que, posteriormente, raptaria Jan, no ano de 1974. Dessa maneira, a presença de Jan mostra ser mais importante ainda, por não apenas estar conversando sobre uma pessoa que não está no presente – o sequestrador -, mas também sobre dois cidadãos que ainda continuam vivos: os seus pais. Skye Borgman tem um material muito rico nas mãos, pois é surpreendente a quantidade de pessoas que permanecem vivas, o que inclui um agente do FBI e o irmão do próprio Berchtold. Os pontos de vista proporcionados, por Jan e os demais, são o passado e também o contemporâneo. Assim sendo, a visão da mulher atualmente, acerca de como enxerga as pessoas que contribuíram para uma parte de sua vida ser sugada, está presente em cada sentença que é proferida por Jan. Mas é muito mais tarde que a obra opta por enfim transpor o olhar de menina manipulada, recontado por seu eu atual, à tal consciência mais plena, apresentada nas entrevistas.

Por ter que apresentar questões ambíguas na narrativa dos pais e do sequestrador em si, Skye Borgman começa a perder a mão. Ao passo que, por uma instância, a cineasta tem o enredo de um estuprador manipulador, por outra existe a tragédia do pai e mãe que cometerem os maiores erros possíveis para retirar Jan das mãos desse criminoso. Da maneira como os acontecimentos são revistos aqui, a segunda proposta ganha muito mais peso e não de um jeito interessante, que poderia sustentar uma obra sobre cuidados parentais. O documentário, porém, progressivamente esvai o seu potencial dramático, para dar lugar a um não-intencional humor macabro, consequente à raiva despertada, no espectador, pelos pais imbecis. Justamente por a cada cinco minutos um evento inacreditável ser relatado, o papel destes personagens, que parecem ter saído de alguma comédia de mau-gosto, causa mais ira que alarme. Skye até que tenta humanizar ambos – o pai possui momentos mais permissivos a isso. Contudo, um recontar cronológico, que sucessivamente expõe os equívocos, sempre e sempre reiterados, dos dois, torna tudo mais estranho que doloroso.

Dado esse enfoque aos erros parentais, a carga do verdadeiro culpado perde um pouco de peso. Berchtold passa por um processo de caracterização ameaçador, e o jogo de intrigas que causa, ademais, é suficiente para nos atermos à noção que existem pessoas com gigantescas fixações e que o cuidado é necessário. É impossível não ter presa a atenção do documentário – que conta com equívocos pontuais na cronologia, às vezes avançando no tempo demais para depois retornar sem muita ordenação. Mas a presença do raptor termina sendo menos impactante que a dos pais. Que a prioridade, portanto, se mantivesse nestas pessoas, o que não acontece, pois a preferência é por uma abordagem narrativa mais esquemática e sem uma proposta específica por cima. Por exemplo, os reencenamentos do passado, quando o assunto é a garota, são gratuitos. Gera nisso um problema, porque Mary e Bob são vítimas também, como Sequestrada à Luz do Dia procurará nos convencer. Assim, o longa acaba servindo apenas para maus pais não se sentirem os piores. Tanta cena problemática aconteceu que ao invés de repensarmos só nos resta uma dor de cabeça.

Sequestrada à Luz do Dia (Abducted in Plain Sight) – EUA, 2017
Direção: Skye Borgman
Elenco: Jan Broberg, Mary Ann Broberg, Bob Broberg, Susan Broberg, Pete Welsh, Karen Campbell, Joe Berchtold
Duração: 91 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.