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Crítica | Sequestro – 2ª Temporada

A agonia do trem parador.

por Ritter Fan
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  • spoilers. Leiam, aqui, a crítica da temporada anterior.

Foram dar uma de esperto na tradução do título original da série na época em que ela era supostamente uma minissérie – porque, pelo visto, nós brasileiros não devemos gostar de títulos com uma palavra só… – e foram obrigados a reverter de Sequestro no Ar para o que ela sempre deveria ter sido, apenas Sequestro (Hijack), agora que, na segunda temporada, o referido crime acontece sobre trilhos. Fiquei até surpreso que não inventaram de mandar um Sequestro no Trem só para insistir no erro. Seja como for, quase dois anos e meio depois que Sam Nelson (Idris Elba) usou seus superpoderes de frieza e negociação para evitar o pior em um voo de Dubai para Londres em que ele estava, agora ele precisa fazer o mesmo em uma supostamente prosaica viagem de metrô (U-Bahn) em Berlim, em uma minissérie que definitivamente não precisava ter sido transformada em série.

Afinal, o que era misterioso e cativante na primeira temporada, tornou-se repetitivo e enfadonho na segunda. Os roteiros espertos tornaram-se banais, com os acontecimentos completamente telegrafados, em uma história lenta, sem ritmo, que cansa rapidamente. É quase como ver a primeira temporada novamente, mas em câmera lenta e em uma ambientação confinada ainda mais limitada que é usada sem criatividade alguma pela produção. Até mesmo Idris Elba, ator que gosto muito, parece uma sombra do que foi anteriormente, mais parecendo que está de má vontade, revivendo seu negociador no automático, sem sequer lhe dar alguma fagulha de vida, algo que é absolutamente normal quando o material entregue a ele não conseguiu sair das armadilhas que se autoimpôs e que acabam sabotando seu já taciturno e lacônico personagem.

Em termos de história, os criadores da série pelo menos tiveram a decência de conectar as temporadas e não fazer de Sam um novo John McClane, que sempre está no lugar certo, mas na hora errada. Ou seja, os eventos da temporada anterior, principalmente seu desfecho, servem de catalisador da segunda história que se passa no aniversário de um ano da morte do filho de Sam, morto nesse interregno, conforme ele desconfia, pelo mestre manipulador John Bailey-Brown (Ian Burfield) que, da última vez, vimos fugir, levando-o a uma caçada obsessiva ao vilão que o faz aparecer em Berlim, mas com um estranho plano de sequestrar um trem para forçar as autoridades alemãs a entregarem seu nêmesis, plano esse que, desde o primeiro centésimo de segundo, não engana absolutamente ninguém.

No entanto, para manter o mistério vivo, mistério esse que não é mistério algum, pois é um óbvio espelho do ano inaugural, a temporada se coloca em uma camisa de força, obrigando o espectador a aceitar as maiores inverossimilhanças para que os três primeiros episódios funcionem minimamente, como por exemplo Sam sequestrar um trem inteiro com 200 passageiros sem empunhar nenhuma arma, nem mesmo um canivete, ou ele explodir um passageiro em uma estação em um momento que é constrangedor de ruim, e isso só para mencionar dois pontos básicos diante de outros vários que vão esgarçando a suspensão da descrença e esburacando toda a narrativa. Em paralelo, vemos Marsha (Christine Adams), a ex-esposa de Sam, em uma cabana perdida na Escócia para passar o aniversário da morte do filho em paz, somente para que ela, claro, acabe envolvida na peleja.

Mas a inverossimilhança seria perfeitamente suportável se o ritmo narrativo fosse um pouco mais rápido do que ver tinta secar ou gelo derreter, evidenciando uma decupagem e montagem equivocadas, com tudo o que acontece na temporada – e eu uso o verbo “acontecer” aqui com bastante liberalidade – acontece ao longo de dezenas de excruciantes minutos explicados nos seus mínimos detalhes, mesmo as coisas mais banais como colocar o trem em movimento novamente ou cuidar de um passageiro ferido. E isso sem contar com linhas narrativas inteiras que em absolutamente nada contribuem para a história, como é o caso do menino que tem fobia de trem e toda uma investigação paralela por um detetive de Berlim que tenta descobrir quem fabricou as bombas que estão embaixo do trem, ou personagens cujas existências só se justificam para dar mais empregos a atores, pois eles não passam de intermediários que não servem para nada além de passar recados, com a agente ferroviária que fala com Sam, a funcionária da embaixada britânica e assim por diante. Até mesmo Toby Jones, que faz um agente da inteligência britânica e normalmente tem papeis razoavelmente relevantes, parece perdido na história, com raros momentos “eureca” que sequer merecem o uso da expressão celebrizada por Arquimedes.

Para terminar a crítica, eu poderia escrever coisas engraçadinhas como “a segunda temporada de Sequestro descarrila completamente”, mas isso seria inexato, pois, para descarrilar, um trem precisa estar com alguma velocidade, o que nunca é o caso da trama nesse retorno da série. Velocidade, aqui, é matéria-prima tão ou mais rara quanto o irídio. E, para aqueles que apressadamente concluírem que, com isso, eu queria ver algo com ritmo frenético à la Velozes e Furiosos, não se enganem, pois eu queria apenas algo tão eficiente quanto a temporada anterior, o que de forma alguma é pedir demais. Olha, pensando bem, acho que eu me contentaria até mesmo com a metade da eficiência da direção e roteiro do primeiro ano. Portanto, não, a segunda temporada de Sequestro não descarrila, ela nem sequer sai da estação e o pouco que faz, faz muito mal. Se inventarem de produzir uma próxima temporada, talvez possam batizá-la aqui no Brasil de Sequestro da Paciência do Espectador

Sequestro – 2ª Temporada (Hijack – EUA/Reino Unido, 14 de janeiro a 04 de março de 2026)
Criação: George Kay, Jim Field Smith
Direção: Jim Field Smith, Shaun James Grant
Roteiro: Guy Bolton, Kelly Jones, Thomas Eccleshare, Emer Kenny, Chris Dunlop, James Dormer, Jim Field Smith
Elenco: Idris Elba, Christine Adams, Christian Näthe, Clare-Hope Ashitey, Lisa Vicari, Dejan Bućin, Toby Jones, Christiane Paul, Christian Berkel, Arsher Ali, Albrecht Schuch, Karima McAdams, Jasmine Bayes, Neil Maskell, Max Beesley, Archie Panjabi, Ian Burfield, Thomas Kitsche, Ellie McKay, Sasha Carberry Sharma, Eysteinn Sigurðarson, Matt Mordak, Gabrielle Scharnitzky, Herbert Forthuber, Jessica Hardwick, Jamie Michie, Andy Gätjen, Dimitri Abold
Duração: 367 min. (oito episódios)

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