Crítica | Serei Amado Quando Morrer

“Que tipo de pessoas você acha que formará a sua audiência?

Eu espero que todas.”

Orson Welles, responsável por O Outro Lado do Vento, obra lançada recentemente, décadas após a sua morte, morreu com 70 anos. Jake Hannaford, protagonista de O Outro Lado do Vento, na premissa de um cineasta dissolvido pelo tempo, escanteado pela indústria, envolvido na produção de um filme não-finalizado, também morreu com 70 anos. A versão desse projeto, que pode ser conferido na Netflix, não é a versão imaginada por aquele ser humano considerado um dos maiores gênios do cinema, senão o maior. A edição é a chave, em paráfrase a uma das passagens do próprio Serei Amado Quando Morrer, documentário que analisa os meandros do processo exaustivo que Orson envolveu-se para se reerguer na indústria cinematográfica norte-americana, fracassando miseravelmente por justamente não ter conseguido concluir o seu canto de cisne. A versão verdadeira do filme nunca será vista, mas o destino é engraçado. A versão verdadeira deveria ser vista? Orson Welles morreria com a mesma idade de Jake Hannaford. O Outro Lado do Vento nunca seria concluído pelo artista, como justamente a metalinguagem das metalinguagens ousaria prenunciar. Hollywood seria antagonista dos dois roteiros – um roteiro cinematográfico e um roteiro da vida, ambos inexistentes. Os traidores, os conflitos. Um filme de Orson Welles.

Os 15 anos que separam a euforia do retorno, de um homem que gostaria, mesmo rejeitado, de ser abraçado pela sua primeira casa, do seu enfim falecimento são narrados. O encerramento da carreira de Orson Welles como cineasta, entre Cidadão Kane e Verdades e Mentiras – erroneamente deixado de lado por esse documentário -, nunca seria completado por si mesmo, assim com a última incursão fílmica do personagem vivido por John Huston, em um falso-documentário que as pessoas estão mais certas do que nunca em questionar se é um longa-metragem do Orson Welles. Uma autobiografia de Orson Welles? Uma autobiografia profética do grande fracasso. O homem que conquistou o sucesso inesperado e sofreu a derrota que já até mesmo tinha prenunciado. O Outro Lado do Vento é constantemente retomado, seja arquivos que não foram para a versão final, ou meras conversas de bastidores – a dissociação entre uma produção e outra é impossível. Os depoimentos modernos são certeiros. Peter Bogdanovich como contraponto do seu mestre no passado, mas comparativo no presente. O sexo como constante renovação, abertura ao diversificado, às mudanças, distante do contentamento. Um estudo de um gênio, um estudo de um filme, um estudo das malícias do destino – redondinho.

O responsável por essa criação esplêndida, Morgan Neville é um dos maiores nomes do documentário contemporâneo, responsável pelos aclamados A Um Passo do Estrelato e Won’t You Be My Neighbor?, que também estreou também em 2018. A conversa que o documentarista estabelece entre essa sua obra e a carreira de Orson Welles é fantástica, inserindo um novo interlocutor para interagir com o espectador. As sensações, o que poderia estar passando pela cabeça do artista, são complementadas com passagens de sua carreira. Uma montagem igualmente extraordinária a da presente na obra-irmã. Uma história, portanto, maravilhosa, complexa, debruçando-se sobre um homem preenchido por nuances, exprimindo genialidade atrás de genialidade. O enfoque no relacionamento do “personagem” com Gary Graver é excepcionalmente costurado ao vínculo emocional do espectador com o cineasta, mais que um gênio agora, um gênio humano. As pessoas se sacrificavam por O Outro Lado do Vento, o maior filme que nunca foi lançado. Por que não o maior filme, antes não, mas finalmente lançado? A grande peça, o grande momento da carreira de Orson Welles, equiparando-se sempre a sua suposta obra-prima, não poderia ser justamente nunca ter terminado a sua verdadeira obra-prima?

O que pensa um artista? O que pensa um gênio? Serei Amado Quando Morrer é, possivelmente, um dos mais engajantes estudos de genialidade já produzidos, uma genialidade para além de qualquer tangibilidade, mas imersão completamente abstrata às incompreensões em cena. A traição como temática recorrente. O ficcional e a realidade entrelaçados. O jogo de ida e vinda por diferentes interpretações, diferentes visões sobre um mesmo objeto de admiração, igualmente envolvente. Orson Welles disse em algum momento que seria amado quando morresse? O Outro Lado do Vento é uma autobiografia ou não é? Alan Cumming completa a sua narração com uma passagem absurdamente questionadora: “Imagens de filmes, latas de filmes, anos de trabalho e ideias. Será que Welles via tudo como algo sem fim, cheio de sons e fúria, sem significado? Ou talvez, para ele, o fracasso fosse um final mais interessante?”. As dúvidas. As dúvidas são tantas. Serei Amado Quando Morrer não responde todas as perguntas, contrapõe-se eternamente, em uma conversa gostosa sobre pessoas que viram um homem de diversas maneiras. A honestidade está na indecisão, no não saber se o fracasso era almejado ou se o fracasso foi não-intencionado – o suicídio ou o acidente que matou Hannaford. A perdição inconsolável ou a gargalhada infinita?

Serei Amado Quando Morrer compreende o seu exercício de metalinguagem sobre a metalinguagem, encerrando com chave de ouro uma carreira magnífica, complementar à imensurável jornada, mais que curiosa, de O Outro Lado do Vento. Uma obra depende da outra, de certa forma, mas, acima de tudo, uma obra engrandece a outra. Questionemos se esse derradeiro longa-metragem deveria ser lançado, embora não finalizado pelo seu idealizador. Questionemos também se a proposta, não necessariamente do cineasta, contudo, dos deuses do cinema, do extraordinário acaso, não seria que O Outro Lado do Vento nunca terminasse de ser montado pelo gênio que carregou obras-primas no seu currículo e poucos reconheceram. Um documentário entristecido, porém, imensamente contente por meramente existir. Nem Hollywood, no sistema clássico de outrora, para lançar a fita, mas a famigerada Netflix, justamente a Netflix. “Netflix apresenta um filme de Orson Welles.” Quem imaginaria? O cinema teve que morrer, ressurgir em um formato completamente novo, para poder reconhecer Welles. Por que não terminar com um sorriso, uma gargalhada? A grande obra de arte de um homem. O seu maior fracasso, sua maior incompletude ou sua última risada – uma apaixonante risada?

Serei Amado Quando Morrer (They’ll Love When I’m Dead) – EUA, 2018
Direção: Morgan Neville
Elenco: Orson Welles, Peter Bogdanovich, Oja Kodar, John Huston, Frank Marshall, Cybill Shepherd, Dennis Hopper, Henry Jaglom, Rich Little, Steve Ecclesine, Norman Foster, Danny Huston, Peter Jason, Joseph McBride, Beatrice Welles, Alan Cumming
Duração: 98 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.